Título: Juiz recebia mimos de Cachoeira
Autor: Mello, Alessandra
Fonte: Correio Braziliense, 15/08/2012, Economia, p. 5

TRT-18 investiga magistrado que, segundo a Polícia Federal, ganhou viagens do contraventor e orientava a quadrilha em ações trabalhistas

Relatório sigiloso da Polícia Federal, encaminhado em julho para o comando do Tribunal Regional do Trabalho da 18ª Região (TRT-18), com sede em Goiás, aponta indícios do envolvimento do desembargador Júlio César Cardoso de Brito com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Assinado por dois agentes da Polícia Federal e encaminhado ao presidente do TRT-18, desembargador Mário Sérgio Bottazzo, pelo delegado federal Matheus Rodrigues, o documento faz uma análise do material apreendido na residência de Gleyb Ferreira da Cruz, um dos principais auxiliares de Cachoeira, sócio dele em algumas empresas e apontado pela PF como um dos operadores financeiros do esquema comandado pelo bicheiro.

De acordo com o relatório, foi analisado o conteúdo de um notebook, um caderno, uma agenda e um telefone celular apreendidos em 29 de fevereiro — data em que Cachoeira foi preso. Tanto no caderno quanto na agenda foram encontradas anotações a respeito da compra de passagens áreas para o desembargador e sua mulher em, pelo menos, duas datas, para Miami e para a Argentina.

No computador, ainda foram localizadas diversas fotos do desembargador Cardoso de Brito ao lado de Gleyb e do irmão de Cachoeira, Marco Antônio de Almeida Ramos, em jantares e viagens ao exterior. E, no celular, segundo a PF, havia cerca de 300 mensagens trocadas entre Gleyb e o desembargador. Nesses torpedos, os dois conversam sobre as viagens e sobre processos envolvendo os laboratórios Vitapan e Neoquímica — que teriam ligação com o esquema do contraventor. Em um dos textos, o desembargador cobra um iPad de alguém ligado ao esquema que estava indo para fora do Brasil. O desembargador se refere a Cachoeira como "cabeça" e marca encontros com ele via Gleyb.

Grampos O nome do desembargador já tinha sido citado nas escutas telefônicas da Operação Monte Carlo. Nessas conversas, Cardoso de Brito orienta advogados do grupo de Cachoeira sobre como proceder nos processos trabalhistas de interesse do grupo liderado pelo bicheiro. O magistrado discute ações trabalhistas do laboratório Vitapan — que pertence à ex-mulher de Cachoeira, Andrea Aprígio —, de uma distribuidora de medicamentos e da Ideal Segurança, ambas ligadas ao contraventor. Por unanimidade, o TRT de Goiás abriu, em 12 de julho, um processo disciplinar para investigar as denúncias contra Cardoso de Brito, que foi afastado temporariamente do cargo de desembargador, da vice-presidência do tribunal e da corregedoria. O relator do caso é o desembargador Paulo Pimenta, escolhido por sorteio, como determinam as regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Cardoso de Brito não foi localizado pela reportagem para comentar o relatório. Em sua defesa, ele negou qualquer tipo de recebimento de vantagens, disse que nunca atuou nos processos de interesse de Cachoeira e afirmou ainda que mantinha relações sociais com Gleyb, mas que não eram amigos íntimos.