O globo, n. 31292, 10/04/2019. País, p. 10
Lava-Jato ainda quer repatriar R$ 2,6 bi da Suíça
Cleide Carvalho
Dimitrius Dantas
10/04/2019
País europeu já transferiu recursos originários de investigações de corrupção envolvendo a Petrobras e a empreiteira Odebrecht. Depósito mais recente somou R$ 34 milhões. Contas são monitoradas desde 2014
Autoridades da Suíça anunciaram ontem que já transferiram R$ 1,4 bilhão (o equivalente a 365 milhões de francos suíços) para o Brasil em razão das investigações de corrupção na Petrobras e o caso Odebrecht, no âmbito da Operação Lava-Jato. O depósito mais recente foi feito em março passado e transferiu 9 milhões de francos suíços (R$ 34 milhões) para o Brasil.
Outros R$ 2,6 bilhões permanecem bloqueados no país europeu. Os recursos são alvos de ações contra as empresas que tinham contas no exterior abastecidas com dinheiro do esquema de corrupção na estatal.
Na última segunda-feira, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, participou de uma reunião com o procurador-geral do país europeu, Michael Lauber. Os dois assinaram uma declaração conjunta reafirmando o desejo de continuar e intensificar a cooperação.
Durante as investigações, uma série de extratos bancários de investigados foi enviada da Suíça para o Brasil como, por exemplo, do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e de contas vinculadas à Odebrecht. Entre os casos mais recentes estão quatro contas de Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, ex-engenheiro da estatal paulista Dersa e apontado como operador do PSDB. As autoridades suíças mostraram que foram emitidos 11 cartões de crédito e viagem, e a suspeita é que tenham sido usados para permitir a distribuição de propina paga por empreiteiras.
Investigações desde 2014
A Procuradoria-Geral da Suíça informou que as investigações em conexão com a Petrobras são realizadas desde abril de 2014 —mês seguinte à deflagração da Operação Lava-Jato no Brasil. Além do crime de lavagem de dinheiro, foram descobertos numerosos casos de suborno de funcionários públicos estrangeiros.
Pelo menos mil relacionamentos bancários suspeitos com instituições suíças foram identificados e estão em curso no país cerca de 70 processos penais. Outros 15 processos criminais abertos na Suíça foram transferidos para o Brasil.
As autoridades suíças afirmaram ainda que a série de casos iniciada com as investigações da Petrobras é um dos casos mais complexos que já atuaram e informaram que também lá foi formada uma força-tarefa formada por vários especialistas.
A Petrobras é a principal beneficiária dos recursos repatriados da Suíça decorrentes das investigações da Lava-Jato e atrelados a irregularidades com contratos da estatal. Em seu balanço de 2018, a empresa informou que já havia recuperado para oseu caixa R$ 3,24 bilhões, a título de ressarcimento de danos, previstos em acordos de leniência e acordos de colaboração e repatriação de recursos.
A Petrobras é credora de recursos em 54 ações penais, onde atua como assistente de acusação ao lado do Ministério Público Federal.
Somente a força-tarefa do Ministério Público Federal em Curitiba, onde começou a Lava-Jato, realizou três devoluções de valores à Petrobras entre 2016 e 2018, que totalizaram R$ 1,892 bilhão.
Destino dos recursos
A Procuradoria-Geral da República (PGR) informou, por meio de sua assessoria, que o valor enviado ao Brasil pela Suíça foi decorrente de colaboração premiada e que não tem condições de detalhar a destinação dos recursos, alegando o sigilo dos acordos.
Os valores ressarcidos pela Suíça foram localizados em contas mantidas em bancos do país. Eles não se confundem com os R$ 2,5 bilhões que a Lava-Jato de Curitiba pretendia usar para formar um fundo privado, cuja origem é um acordo da Petrobras com a Justiça norte-americana. Neste caso, o valor corresponde a parte de uma multa que a estatal brasileira teve de pagar nos Estados Unidos.
R$ 1,4 bi
É o montante que a Suíça já transferiu para o Brasil Recursos são provenientes de investigações de corrupção em esquemas envolvendo a Petrobras e a Odebrecht, no âmbito da Operação Lava-Jato