Valor econômico, v.19 , n.4514, 30/05/2018. Opinião, p. A12
Insumos básicos da lenta recuperação da economia
Thiago Moreira
30/05/2019
Tem sido recorrente no debate macroeconômico nacional os artigos de opinião sugerindo fatores explicativos na tentativa de compreender o porquê de uma recuperação econômica brasileira tão vagarosa, mesmo após a maior recessão de sua história. Há os seguintes argumentos: recrudescimento do nível de incerteza em função de fatores políticos e, principalmente, do ano eleitoral, o ainda elevado nível do desemprego, aumento das taxas de juros de mais longo prazo, aumento do spread bancário ou até mesmo uma suposta perda de potência da política monetária do Banco Central, além de instabilidades no cenário internacional.
Ainda que possa concordar com a influência de alguns dos elementos apontados, pretendo neste artigo destacar o que para mim está no cerne da explicação: a regressão produtiva que ocorre especificamente nos setores produtores de insumos industriais, que consolidam a chamada categoria de uso dos bens intermediários da indústria de transformação. Esta é composta por diversas atividades econômicas, as quais não poderão ser detalhadas neste artigo, de modo que as tratarei de forma agregada.
Curiosamente, os bens intermediários, mesmo na versão agregada, costumam ficar de fora das análises conjunturais. Talvez pelo fato de a produção e o consumo destes bens não aparecerem explicitamente na conhecida equação do Produto Interno Bruto (PIB = C+I+G+X-M). A maior parte das análises macroeconômicas sobre o desempenho do PIB costuma estar focada ou no comportamento da demanda final interna (consumo das famílias (C), investimento privado e público (I) e consumo do governo (G) ou do setor externo, medido pelas chamadas exportações líquidas (X-M).
Os bens intermediários estão presentes de forma implícita na equação do PIB, fazendo parte das "entranhas" do sistema que o gera, de modo que para compreender o seu efetivo papel é necessário ir um pouco além da "superfície macroeconômica", mergulhando em aspectos da estrutura produtiva. Para uma primeira ideia da relevância destes segmentos intermediários, a partir dos últimos dados oficiais desagregados de Contas Nacionais do IBGE referentes a 2015, verifica-se que cerca de metade de toda a produção da indústria de transformação correspondeu a insumos e matérias-primas que se destinaram a cadeias produtivas domésticas naquele ano. Os 50% restantes se distribuíram entre os bens destinados ao consumo das famílias (30%), exportações (15%) e investimentos (5%).
Além da elevada representatividade no parque industrial brasileiro, a produção destes insumos industriais deve ser considerada como o núcleo central do circuito macroeconômico de agregação de valor e, portanto, de geração do PIB. Ainda que a recuperação econômica dependa do comportamento dos agentes econômicos situados na ponta final das cadeias produtivas, a potência do efeito expansivo sobre o PIB decorrente dos estímulos de demanda final é totalmente dependente dos encadeamentos produtivos estabelecidos pelos fluxos de consumo intermediário entre as atividades econômicas.
Sabemos que o tema sobre a fragilização da indústria nacional já é velho conhecido do debate macroeconômico brasileiro, mas quero aqui me concentrar no notável enfraquecimento dos setores produtores dos insumos pertencentes à indústria de transformação ocorrido particularmente nos últimos dois anos. Este enfraquecimento continuou associado ao aumento da penetração de insumos importados em substituição aos nacionais.
As evidências empíricas são inquestionáveis. Restringindo a análise à parcela dos referidos insumos absorvidos pelas cadeias produtivas nacionais (excluindo a parcela de insumos destinada às exportações), os dados de produção industrial do IBGE e de comércio exterior da Funcex nos permitem estimar que de janeiro de 2016 a março de 2018 (nas séries livres das influências sazonais), a produção dos bens industriais intermediários cresceu, em termos reais acumulados, medíocres 1,7%. Já as importações destes mesmos insumos expandiram alarmantes 23% no período.
Com base nestas trajetórias, podemos atualizar alguns dos indicadores da estrutura produtiva relativos aos bens intermediários, disponíveis apenas até 2015. Naquele ano, 78,7% da demanda total por insumos da indústria de transformação foi atendida por produção local, enquanto 21,3% por insumos importados. A partir das referidas taxas de crescimento, estima-se que a parcela nacional dos referidos insumos foi reduzida para 75,4%, enquanto a importada subiu a 24,6% no início de 2018, a preços constantes de 2015.
Por outro lado, a demanda final vem apresentando de fato um melhor desempenho. Segundo os dados mensais de atividade econômica da Serasa Experian, o melhor momento não se deve primordialmente às exportações como ocorrido no ano passado, (2,4% de crescimento no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2017), mas essencialmente à recuperação do consumo e do investimento. Estes componentes cresceram 2,4% e 4,6%, respectivamente, na mesma base de comparação interanual.
Os resultados evidenciam, portanto, que o problema central de engrenagem do crescimento não está fundamentalmente na recuperação da demanda final, mas sim nas rápidas mudanças estruturais de enfraquecimento dos elos produtivos. O avanço dos insumos importados, em detrimento dos nacionais, reduziu significativamente os efeitos multiplicadores sobre a produção total da economia propagados a partir dos impulsos da demanda final. A consolidação de uma retomada mais robusta do crescimento passa necessariamente pela recuperação dos setores produtores de insumos industriais.
Por fim, o gráfico sintetiza e ilustra as principais consequências dos argumentos apresentados, mostrando que a recuperação da demanda final, a despeito de proporcionar melhores resultados para a produção industrial de bens de consumo e de capital, não alavancou o crescimento do PIB (medido pelo IBC). Este, por sua vez, segue cada vez mais colado no desempenho da produção nacional dos bens intermediários da indústria de transformação.