Título: Chance de destravar
Autor: Jeronimo , Josie
Fonte: Correio Braziliense, 25/08/2012, Política, p. 4
Na terça-feira, a CPI do Cachoeira ouvirá os depoimentos do dono da Delta Construções, Fernando Cavendish, e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antônio Pagot, e a expectativa é de que, com esses depoimentos, o ritmo de trabalho do grupo possa ser destravado. Desde a instalação da comissão, os testemunhos de Cavendish e Pagot são considerados estratégicos para dimensionar a atuação da organização criminosa comandada por Carlinhos Cachoeira.
A chance de o dono da Delta colaborar com as investigações da CPI é considerada nula. Antes mesmo de aparecer no Congresso, advogados do empreiteiro tentaram conseguir um habeas corpus no Supremo Tribunal Federal (STF) para anular o requerimento de convocação de Cavendish. Como o pedido não foi acatado, o dono da Delta terá que comparecer na sessão, mas pode usar seu direito constitucional de ficar calado. Ainda assim, os parlamentares devem fazer uma série de perguntas com o objetivo de constranger o empresário.
A Delta é considerada o braço financiador do esquema criminoso comandado por Cachoeira, e os parlamentares apostam que o depoimento de Cavendish poderia acabar com os argumentos dos defensores do bicheiro, que tentam limitar as acusações a crimes de contravenção. De acordo com as apurações da Polícia Federal, a partir das movimentações financeiras da Delta é possível demonstrar o alcance da organização criminosa, com a utilização de recursos de origem ilícita para corromper autoridades, favorecendo-se do resultado de licitações, e bancar a estrutura de cooptação de policiais necessárias à manutenção do esquema.
A surpresa na sessão da CPI pode ficar por conta de Pagot. Atualmente na iniciativa privada, o ex-diretor do Dnit pode detalhar a atuação da Delta no Ministério dos Transportes à época que comandou o departamento. Pagot afirmou, em entrevistas, que era procurado por representantes de diversos partidos para ajudar a arrecadar recursos nas empreiteiras prestadoras de serviço do órgão para campanhas eleitorais. O ex-diretor do departamento também teria sido procurado pelo ex-senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) para favorecer a Delta em licitações. (JJ)