Título: Quadrilha aproveita morosidade da CPI
Autor: Jeronimo , Josie
Fonte: Correio Braziliense, 25/08/2012, Política, p. 4

Instalada há quatro meses, a CPI do Cachoeira ainda não avançou na produção de evidências contra a organização criminosa comandada pelo bicheiro de Goiás e, apesar das dezenas de convocações, teve pouco resultado prático. Mesmo com o contraventor preso desde 29 de fevereiro, a morosidade das investigações gerou sensação de segurança suficiente para fazer com que o grupo retomasse as atividades criminosas.

Além de voltar a operar explorando jogos ilegais, comparsas de Cachoeira decidiram transferir os negócios do grupo para o Plano Piloto, a poucos metros do Congresso, onde funciona a CPI. Investigações da Polícia Civil do Distrito Federal, comandadas pelo delegado Henry Lopes, indicam que a migração dos negócios da organização criminosa de Goiás para Brasília foram capitaneadas por Cachoeira. Da Penitenciária da Papuda, o bicheiro teria montado uma rede de troca de informações por meio das visitas de pessoas da família e de advogados amigos, mas que não o representam oficialmente no processo.

O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ), integrante da comissão de inquérito, lembra que a procuradora Léa Batista, uma das autoras da denúncia contra Cachoeira, afirmou à CPI que o bicheiro continuava na ativa. "A procuradora Léa, quando esteve aqui, disse que Cachoeira comanda da cadeia. Essa é uma questão do crime organizado, eles têm até linha sucessória. Não é de espantar. Por isso é que houve protestos quando começaram a soltar os presos da Operação Monte Carlo. Foi só libertá-los para aumentar o número de ameaças", disse Teixeira.

Pacto silencioso Munida de amplos dados de quebras de sigilo telefônico e bancário e de relatórios com resultados de cruzamentos de dados financeiros, a CPI esbarra na vontade política para avançar. A citação de governadores de partidos rivais, a exemplo do PT e do PSDB, gerou um pacto silencioso de não agressão, limitando o âmbito de investigações do colegiado. Por essa razão, parlamentares independentes cogitam dividir o material angariado pela comissão com autoridades policiais, que, a exemplo da Polícia Civil do Distrito Federal, têm dificuldades em conseguir quebra de sigilos dos investigados. "A CPI pode requisitar os documentos da operação. E, se nós pudermos ajudar compartilhando os sigilos, vamos fazer isso", completou o parlamentar pedetista.

Advogado de Cachoeira, Antônio Nabor Bulhões classifica a hipótese de o bicheiro continuar comandando a organização criminosa da cadeia como "desvairada". Segundo o defensor, uma rede de "publicidade opressiva" contra Cachoeira está sendo montada para que os magistrados responsáveis pelo caso se sintam constrangidos em conceder a liberdade ao bicheiro. "É um absurdo, uma especulação desvairada. Ele está preso, não tem contato com nenhuma dessas pessoas, nem direto, nem indireto. Está havendo uma espécie de campanha contra ele, uma campanha lamentável, tudo que ocorre hoje de ruim tem a mão, a influência de Carlos Augusto Ramos. Como os investigadores não vivem em uma bolha, eles ficam expostos às informações. É uma campanha para impedir que ele recupere a liberdade", afirma Bulhões.

Parlamentares que integram o grupo afirmam que, apesar de o requerimento de novo depoimento de Cachoeira já ter sido aprovado, é preciso aguardar o momento em que ele estiver "enfraquecido" para tentar ouvi-lo novamente, ou o bicheiro voltará a adotar a estratégia do silêncio. "A gente já tem a reconvocação do Cachoeira, mas é tática da organização manter o código de silêncio. A atuação do grupo não vai parar enquanto não houver o esvaziamento do braço financeiro. Vamos reconvocar Cachoeira no momento adequado. Enquanto ele estiver fortalecido, não vale", ressaltou o senador Randolfe Rodrigues (PSol-AP).

"Essa é uma questão do crime organizado, eles têm até linha sucessória. Não é de espantar. Por isso é que houve protestos quando começaram a soltar os presos da Operação Monte Carlo. Foi só libertá-los para aumentar o número de ameaças" Miro Teixeira, deputado do PDT-RJ

Gravações do bicheiro nas mãos da PF A CPI recebeu ontem 280 mídias, entre vídeos e áudios, apreendidos durante a Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que resultou na prisão de Carlinhos Cachoeira. O material pertencia ao bicheiro e a integrantes da quadrilha comandada por ele. A expectativa é que os DVDs contenham informações e diálogos do contraventor e seus aliados com políticos e empresários que ainda não foram flagrados pela investigação. O extenso conteúdo das mídias só deverá estar disponível aos parlamentares no início da próxima semana.