Título: Cronograma já está defasado
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Fonte: Correio Braziliense, 25/08/2012, Política, p. 6

Quatorze sessões foram realizadas desde o começo do mês pelo Supremo Tribunal Federal, mas a cada dia que passa, o julgamento do mensalão parece mais longe do fim. A previsão inicial do presidente da Corte, Carlos Ayres Britto, era de que a análise terminaria até o fim de agosto. Diante do atraso no cronograma — até agora só dois votos foram lidos em relação ao primeiro de sete capítulos —, fala-se nos bastidores que o julgamento certamente se estenderá até outubro. Preocupado com o ritmo desacelerado dos votos iniciais, o ministro Marco Aurélio fez uma previsão ainda mais pessimista. "Já receio que não termine até o fim do ano. Hoje, o plenário é um tribunal de processo único, e temos aguardando na fila cerca de 800 processos", alertou.

Antes de o relator do processo, Joaquim Barbosa, avisar que o julgamento seria realizado de forma fatiada, a expectativa era de que no máximo oito sessões fossem usadas para que ele e o revisor, Ricardo Lewandowski, lessem os votos integrais. Diante do novo cenário, com a divisão da análise em sete capítulos, quatro encontros já foram realizados e ambos votaram , até então, somente em relação ao primeiro item. E a promessa é de que os dois voltem a usar a palavra. Barbosa vai contrapor o voto do colega, que, depois, também falará novamente.

Ao longo do julgamento, os ministros tomarão quase mil decisões — só em relação ao empresário Marcos Valério cada magistrado se pronunciará 65 vezes sobre o crime de lavagem de dinheiro.

Até os mais otimistas, como o relator, já apostam que o julgamento se estenderá por, no mínimo, mais um mês. Joaquim Barbosa, porém, tem garantido que tudo terminará até o fim de setembro. Um outro ministro ouvido pelo Correio disse ter a impressão, pelo andamento dos trabalhos, que a análise do mensalão chegará ao fim em outubro, após o primeiro turno das eleições municipais. Outro integrante do STF acredita que o futuro do julgamento dependerá essencialmente do andamento dos trabalhos da próxima semana.

Advogado do deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP), Alberto Toron tem a mesma opinião. "Só vamos poder falar disso com precisão na segunda-feira, porque só teremos ideia após saber quanto os ministros vão falar e se haverá muitas interferências. Até agora, não vimos debate", opinou Toron. Segundo ele, a duração do julgamento não interfere em nada para seu cliente, que é candidato a prefeito de Osasco (SP).

O advogado Marcelo Leonardo, representante do empresário Marcos Valério, estima que só ao fim da apreciação do primeiro item o cenário ficará mais claro. "Só teremos uma ideia mais nítida de quanto tempo o julgamento deve durar depois que terminar a votação do primeiro item. Mas acredito que ele entre ao longo de todo o mês de setembro", frisou o defensor de Valério, após alertar que, para o réu, não faz diferença se o caso for concluído em setembro, outubro ou novembro.

"Pelo visto, as discussões tomarão um tempo substancial. Elas se mostram praticamente sem baliza. Precisamos racionalizar os trabalhos e deixar que os demais integrantes se pronunciem. Vence num colegiado a maioria. Não deve haver disputa. No plenário, nós não somos partes. Simplesmente atuamos como juízes e devemos fazê-lo sem sucumbir a certas paixões", destacou Marco Aurélio.

800 processos Número aproximado de ações na fila do STF, segundo o ministro Marco Aurélio