Título: Violência sem freio mata centenas
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Fonte: Correio Braziliense, 27/08/2012, Mundo, p. 13
Oposição denuncia execuções em Damasco. Al-Assad promete vencer a qualquer preço
O mês mais sangrento em um ano e meio de rebelião contra o regime de Bashar Al-Assad, na Síria, entra em sua última semana com a expectativa de ainda mais violência, depois que o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH, com sede em Londres) e outras organizações registraram centenas de mortes no sábado e no domingo. Apenas em Daraya, subúrbio da capital, Damasco, o OSDH relatou a descoberta de uma vala comum com cerca de 200 corpos, na madrugada de ontem, e contabilizaram mais 34 mortes ao longo do dia. Ao todo, as ONGs denunciaram 183 baixas no domingo, que se somam a mais de 200 no sábado.
Daraya, sitiada pelas tropas leais ao regime há cinco dias, é palco de uma feroz contra-ofensiva do Exército contra os rebeldes. Vários dos corpos encontrados na cidade apresentavam sinais de execução sumária. "As forças de Assad estão promovendo um massacre", disse à agência de notícias Reuters um militante da oposição, enquanto um porta-voz oficial anunciava a "limpeza" de Saraya, com a "erradicação dos focos terroristas".
O presidente sírio, que não era visto em público desde o mês passado, reapareceu ontem para reafirmar sua disposição de sufocar "a qualquer preço" o que chamou de um "complô externo" contra o país. "O povo sírio não permitirá que essa conspiração atinja seus objetivos. O que está acontecendo agora não é dirigido apenas à Síria, mas a toda região", declarou, ao receber em Damasco um enviado do Irã, cujo regime é seu principal aliado na vizinhança.
Assad, que se refere os rebeldes como um "um bando de terroristas armados", acusa Arábia Saudita, Catar e Turquia de financiar e armar a rebelião para "semear o caos no país", com ajuda dos EUA e das potências ocidentais. Desde o começo da revolta contra o regime, em março de 2011, o OSDH e outras organizações contabilizam 25 mil mortos. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), mais de 200 mil sírios fugiram para países vizinhos, principalmente Turquia e Jordânia.
Na avaliação de Rami Abdul Rahman, dirigente do OSDH, a guerra civil em que a Síria está imersa promete ser longa e sangrenta. "Cada campo quer saldar suas contas, mas é uma guerra de desgaste que vai durar, com bombardeios e combates todos os dias", avalia Rahman, cujas atividades se apoiam em uma rede de militantes e testemunhas na Síria. A avaliação parece coincidente com a de Abu Haidar, combatente rebelde do bairro de Seif Al-Daw-la, em Aleppo, segunda maior cidade da Síria e também palco de violentos confrontos. "Nós não temos armas suficientes e as forças do regime não têm homens suficientes", resumiu Haidar.
Vice reaparece
Também o vice-presidente sírio, Faruk Al-Sharaa, reapareceu depois de mais de um mês sem ser mostrado ou mencionado pela mídia. O sumiço do vice, um veterano que chegou a ser o braço direito de Hafez Al-Assad, pai e antecessor de Bashar, era objeto de intensas especulações sobre uma suposta deserção. Al-Sharaa foi visto em público ontem, pouco antes de um encontro, em Damasco, com Alaedin Borujerdi, presidente da comissão parlamentar de política externa do Irã. Em 18 de agosto, a oposição informou sobre uma tentativa de Al-Sharaa para abandonar o regime e o país, o que foi imediatamente desmentido pelo governo.
183
Total de mortes contabilizadas ontem pela oposição síria
Confronto em Trípoli
Confrontos motivados pela guerra na Síria deixaram ontem um morto e seis feridos em Trípoli, no norte do Líbano. Os enfrentamentos entre grupos favoráveis e contrários ao regime de Bashar Al-Assad já duram uma semana, a despeito da ação de militares do Exército libanês. No embate de ontem, três soldados que perseguiam os envolvidos também ficaram feridos. "O Exército cercou o grupo armado, que tinha alguns de seus membros entrincheirados em casas ou postados nos telhados de edifícios", informou uma fonte oficial. Dez homens armados foram presos.