Título: Mordaça na grande imprensa
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 03/09/2012, Mundo, p. 12
"Jamais houve tanta liberdade de expressão, tanta democracia na República Argentina, como nesta época. E me alegro muito, pois formo parte de uma geração que cresceu com a boca tapada; não quero que tapem a boca de ninguém." As palavras, proferidas por Cristina Kirchner em 11 de julho passado contrastam com a prática. Analistas argentinos apontam que a imprensa do país enfrenta uma espécie de mordaça, centrada principalmente nas críticas à presidente. Facundo Galvan, cientista político da Universidad Católica Argentina e da Universidad del Salvador, explica que a relação tensa da Casa Rosada com alguns meios de comunicação agravou-se depois da sanção da Lei de Regulação de Meios Audiovisuais. "O governo tem um profundo enfrentamento com o Grupo Clarín e com os meios gráficos, como o La Nación e o Perfil. Pelo contrário, os veículos dirigidos pelo grupo Vila-Manzano ou os diários Página 12 e Tiempo Argentino mantêm estreita relação com o Executivo", afirma.
De acordo com Galvan, o Clarín — um dos mais prejudicados pela nova legislação — começou um inflamado enfrentamento com o governo. A Justiça argentina chegou a invadir a sede da tevê a cabo Cablevisión, do mesmo grupo, e a impor uma intervenção. A distribuição de publicidade oficial é outro marco de controle: enquanto os oficialistas têm receita garantida, os opositores veem as verbas minguarem. Na transmissão das partidas de futebol da primeira e da segunda divisão, o uso dos espaços publicitários passou a ser determinado pelo programa Futebol para Todos. "A ausência de leis que dotem de transparência os critérios que regem a partilha da publicidade oficial e a inexistência de uma Lei de Acesso à Informação Pública conspira pela existência de uma liberdade de imprensa plena", comenta o professor.
O publicitário Gabriel Dreyfus acusa Cristina de demonizar o Clarín e o La Nación e de comprar jornalistas mercenários. Segundo ele, a tevê aberta praticamente não emprega opositores, e a emissora estatal transformou-se em canal do governo. "Os intelectuais e os oposicionistas de meios afins ao governo estão praticamente desaparecendo. Tudo isso mostra a fragilidade e a corrupção da presidente", atesta. (RC)