Título: Cristina Kirchner perde o encanto
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 03/09/2012, Mundo, p. 12

Denúncias de corrupção e de enriquecimento, censura à mídia, inflação galopante e concentração de poder marcam a segunda gestão da presidente, reeleita há menos de um ano em primeiro turno. Analistas veem erros em série na condução do governo

Cristina Fernández de Kirchner considera seu governo a própria reencarnação de Evita Perón. A associação com a ex-líder populista mais amada da Argentina coincide com a perda do encanto popular pela presidente. Com o prestígio em baixa, Cristina é acusada de concentração de poder, de perseguição à imprensa e de utilização do dinheiro público como arma para capitalizar apoio político. Críticos denunciam uma "chavinização" da Argentina — uma referência ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez, criticado por solapar a oposição e perpetuar-se no Palácio de Miraflores. A falta de transparência também estremece a Casa Rosada. Em apenas nove anos, o patrimônio de Cristina Kirchner aumentou em 482%, atingindo o equivalente a US$ 8,6 milhões.

"Este é o governo mais corrupto da história de um país endemicamente corrupto", afirmou ao Correio o publicitário e consultor político argentino Gabriel Dreyfus. "Os únicos que não veem isso são os kirchneristas fanáticos e os que ainda se beneficiam dos "planos de ajuda"", acrescentou. De acordo com ele, os chamados Planos Trabalhar — marca do populismo de Cristina Kirchner — fomentam a vagabundagem e impulsionam o mercado clandestino. Gabriel acusa o Executivo de permitir que a corrupção permeasse todas as esferas do governo. A cientista política Elsa Llenderrozas, professora da Universidad de Buenos Aires, admite que a sociedade tem mostrado alto nível de tolerância, quase sempre ligada à situação econômica. "Quando a economia se deteriora e a crise começa, aumenta a o rechaço dos argentinos quanto à corrupção", explica.

Elsa admite que a fortuna da presidente multiplicou-se de modo alarmante. Os membros de seu gabinete também incrementaram o patrimônio. Se Morocha ("Morena", como é apelidada) viu sua conta bancária mais felpuda, ficou significativamente mais pobre em termos de popularidade. No fim de 2011, ela tinha 63% de prestígio, segundo uma pesquisa da consultoria Management & Fit. Hoje, conta com apenas 39%. A desaprovação ao governo subiu de 29%, em outubro do ano passado para 50,4% em junho deste ano. "Isso se deve à vários motivos, como a crescente insegurança; a desatenção em relação aos serviços públicos; os casos de corrupção que atingem o vice-presidente, Amado Boudou; a armadilha cambial e todas as restrições para a compra de moeda estrangeira. Tudo isso somado à negativa do governo em reconhecer a inflação, que já coloca a Argentina no primeiro lugar da América Latina", comenta a analista. Para Gabriel Dreyfus, a armadilha do dólar paralisou a indústria e o comércio, gerando mais desemprego. "Não há prestígio que aguente quando o bolso das pessoas começa a doer", diz. Na última terça-feira, a Justiça decidiu investigar Cristina por supostas irregularidades na restrição a compra e venda de divisas e o uso das reservas para pagar a dívida externa.

Marketing A estrutura de marketing por trás da figura presidencial revelou-se um fiasco. Em vez de debater abertamente o tema, Cristina Kirchner excluiu-o de suas mensagens cada vez mais frequentes em rede de tevê nacional — uma similaridade com o líder venezuelano, Hugo Chávez. "Para a população, isso a mostra afastada das necessidades da sociedade e desconectada da realidade do país", afirma Elsa. A especialista acredita que a estratégia de sufocar financeiramente e desestabilizar politicamente Daniel Scioli, atual governador de Buenos Aires e aliado-chave que mostrou-se interessado em disputar a presidência em 2015, foi amplamente rejeitada pelos eleitores.

Na tentativa de recuperar parte do prestígio, Cristina adotou um estilo de comunicação direta com as pessoas e passou a realizar comícios stand up, marcados pelo coloquialismo. "Ela está se arranhando com a superexposição e desvaloriza a credibilidade de seu próprio discurso. O estilo stand up, com linguagem quase vulgar, frases de duplo sentido e passagens de humor tem causado reações de assombro, rechaço e incerteza em relação ao seu estado emocional", acrescenta Elsa.

A deputada Patricia Bullrich, presidente do Bloco União por Todos, admite que a situação de Cristina Kirchner piorou depois da derrota nas eleições parlamentares, em 23 de outubro de 2011. Apesar de não ver a governabilidade em crise, ela alerta que a presidente perdeu aliados e poder. Parte desse inferno astral, segundo ela, se deve ao aumento das importações — o que impactou a produção —; à inflação crescente; à disputa interna com líderes gremiais e com governadores; ao abuso dos meios de comunicação; à corrupção centrada em Boudou; e ao surgimento de La Cámpora, um grupo juvenil fundamentalista e dogmático.