Título: Deputado adia explicações
Autor: Caitano, Adriana
Fonte: Correio Braziliense, 04/09/2012, Política, p. 7

Flagrado pela PF em conversas comprometedoras com contraventor preso, Carlos Alberto Leréia avisa que não irá à comissão.

Alvo de uma investigação que está prestes a ser encaminhada para o Conselho de Ética da Câmara sobre seu envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, o deputado Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) vinha insistindo para ser chamado a depor na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira desde que a citação do nome dele no inquérito do caso veio à tona, em maio. Convidado, finalmente, para comparecer à sessão de hoje da CPI, Leréia chegou a dizer que estava disposto a responder a todas as perguntas que lhe fizessem, mas acabou recuando. No fim da tarde de ontem, o deputado enviou um ofício à comissão atribuindo a ausência a "importantes e inadiáveis compromissos pessoais anteriormente assumidos".

Em abril, após uma série de denúncias sobre a relação do deputado tucano com o esquema do contraventor, o PSol pediu que a Corregedoria da Câmara abrisse uma investigação contra ele. Leréia recusava-se a dar entrevistas e explicações sobre as revelações. Integrantes do PSDB chegaram a dar como certa a expulsão dele do partido. Pressionado, em 3 de maio ele subiu à tribuna do plenário da Casa para dizer que queria ser convocado ou convidado à CPI "imediatamente".

Durante a análise do caso, a comissão de sindicância da Corregedoria teve acesso aos documentos da CPI nos quais que o deputado era citado e ouviu gravações interceptadas pela Polícia Federal. "Constatamos que, ao contrário do que ele disse inicialmente, a relação dele com o Cachoeira ia muito além da amizade, eles tratavam de negócios", comenta o relator do caso, deputado Jerônimo Goergen (PP-RS). Após a apuração, os integrantes da comissão de sindicância observaram diversos indícios do envolvimento comercial de Leréia com o bicheiro, como a sociedade na compra de um avião (veja o quadro).

Nas conversas telefônicas, o parlamentar faz referências também a cheques e ao uso de um cartão de crédito do contraventor para pagar a compra de jogos infantis para tablets. Em outras gravações, Leréia avisa ao amigo das investigações feitas contra o esquema de jogos ilegais e Cachoeira pede ao deputado, que tem influência no governo de Goiás, que o ajude a afastar policiais e delegados da Polícia Civil do estado. Em depoimento reservado aos integrantes da comissão de sindicância, o tucano confirmou todos os casos, mas justificou que a troca de policiais havia sido feita somente por motivos de segurança.

Depoimento A assessoria do deputado passou as últimas semanas assegurando que ele estava disposto a responder a todas as perguntas dos colegas. Ontem, no fim do dia, após reunião com advogados, Leréia mudou de ideia. No ofício enviado à comissão, comunicou a impossibilidade de comparecer, mas garantiu ter "interesse em colaborar com os trabalhos". Sem especificar quais são os "importantes e inadiáveis" compromissos pessoais, o deputado solicitou que o depoimento fosse remarcado para depois do dia 18. Para o líder do PSol na Câmara, Chico Alencar (RJ), a justificativa do tucano é, no mínimo, suspeita. "No lugar de compromissos inadiáveis, ele deveria ter sido sincero e dizer que houve pressões insuportáveis para que ele não comparecesse", comenta.

Alencar considera que o adiamento reforça as suspeitas que pesam contra Leréia. "Ele passou esses meses todos dizendo que queria limpar o nome, que ia explicar tudo, então, só posso atribuir a desistência a pressões de quadros do próprio PSDB, que devem ter se sentido ameaçados com depoimento dele", destacou. "Diante disso, ele deve deixar de ser convidado para ser de fato convocado e, assim, não terá mais como se negar a prestar esclarecimentos".

"Constatamos que, ao contrário do que ele (Leréia) disse inicialmente, a relação dele com Cachoeira ia muito além da amizade, eles tratavam de negócios" deputado Jerônimo Goergen (PP-RS), relator do caso na comissão de sindicância

Itabuna sem vereadores Todos os 13 vereadores de Itabuna, no sul da Bahia, foram afastados do cargo por suspeita de fraude com o dinheiro que deveria bancar despesas de viagens. A decisão em caráter liminar do juiz Eros Cavalcante Pereira foi baseada em denúncia do Ministério Público. Além dos vereadores, 14 assessores também foram acusados de improbidade administrativa. O juiz determinou que os suplentes assumam os cargos. Segundo o MP, os vereadores gastaram em dois anos R$ 259 mil em cursos e despesas de viagens não comprovados. Onze vereadores são candidatos à reeleição, um concorre para o cargo de prefeito e outro, a vice-prefeito.

Relação próxima Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) não vai à CPI na condição de investigado, mas terá muito o que explicar:

» Gravações da PF identificam cerca de 100 ligações entre o deputado e Carlinhos Cachoeira » Leréia fazia parte do Clube do Nextel: recebeu do bicheiro um aparelho habilitado no exterior » Em discurso na Câmara, admitiu ser amigo pessoal de Cachoeira e parabenizou o bicheiro pelo seu aniversário » Comprou um avião em sociedade com o bicheiro » Usou o cartão de crédito de Cachoeira para comprar jogos para iPad » Admitiu saber das ações de Cachoeira no ramo de jogos de azar » Nas conversas interceptadas, Cachoeira pede ajuda ao parlamentar para forçar a demissão de servidores públicos e integrantes da Polícia Civil de Goiás. Os pedidos teriam sido atendidos » Flagrado em gravações, Leréia informou ao amigo bicheiro que ele estava sendo investigado.