Correio braziliense, n. 20425, 23/04/2019. Cidades, p. 17

 

Os pontos de risco em dias de temporal

Alan Rios

Mariana Machado

23/04/2019

 

 

Infraestrutura/ O Correio mapeia os lugares mais vulneráveis no Distrito Federal durante tempestades como a de domingo. Além da Asa Norte e da Universidade de Brasília, que registraram diversos estragos, Vicente Pires e Fercal aparecem como áreas de perigo

“É possível até que a gente vá tirando a água e encontre alguém que não conseguiu escapar da inundação.” A declaração é da administradora de condomínios Natalina Moraes, 55, que, na manhã de ontem, temia possíveis vítimas do temporal de domingo. Ela levou o Correio à garagem subterrânea do Bloco G da 402 Norte, onde mora. O local ficou tomado pela lama. A energia foi cortada, e a água ainda chegava a quase 1m de altura.

O GDF, no entanto, garante que não houve mortos ou feridos. O balanço somou 11 ocorrências de inundações e 40 cortes de árvores, todas atendidas pelo Corpo de Bombeiros. Na Asa Norte, as áreas mais afetadas foram as quadras 208, 108, 209, 202 e 402, onde garagens ficaram submersas. Moradores que não conseguiram retirar os veículos apenas calculam o estrago. É o caso de Felipe de Angelis, 43, morador da 402 Norte. O servidor público estava em casa na hora do temporal. “Foi a primeira vez que vi a água bater no teto da garagem”, descreveu. “A sensação é pior para um cidadão que paga em dia impostos altos e não tem retorno. Fico revoltado com a inoperância dos diversos governos que não resolveram o problema”, reclamou.

Drenagem

Apesar da indignação, não há solução imediata para os problemas de alagamento no Distrito Federal. A afirmação é do chefe da Secretaria de Obras e Infraestrutura, Izídio Santos Júnior. Ontem, em uma tentativa de prevenir incidentes, o GDF determinou a interdição das tesourinhas da 202, 203, 209 e 109 Norte, assim como vias de acesso à 711 Norte. Além disso, o Serviço de Limpeza Urbano (SLU) fez a desobstrução de bocas de lobo da Asa Norte, nas quadras 209/210, 711, 201 e 202.

As medidas são paliativas, e o governo informou que, se for necessário, a cada chuva, mais tesourinhas poderão ser bloqueadas. O projeto que resolveria o problema de drenagem pluvial, chamado inicialmente de Águas DF e, depois, de Drenar DF, não foi para a frente. Ontem, o secretário afirmou que ele se encontra parado desde 2008: “Chegou a ser assinado um contrato e, depois, caiu. Várias situações aconteceram. Problemas com o Iphan, que exige que sejam bacias enterradas, e foram projetadas a céu aberto; problemas com o Tribunal de Contas (TCDF); problemas de toda sorte”.

O TCDF, no entanto, negou a informação do secretário. “Em nenhum momento o processo esteve parado no Tribunal de Contas do DF”, alegou o tribunal, por meio da assessoria. “Ele foi autuado em junho de 2013. Na primeira análise promovida, o corpo técnico encontrou sobrepreços de até 100% em vários itens e outras supostas irregularidades. No mesmo ano, a Novacap decidiu adiar a licitação sine die (sem prazo definido). Quando da reabertura do certame, em 2015, o TCDF fez nova análise do edital com a máxima celeridade possível”, explicou.

O processo passou por diversas etapas até que, em 10 de março de 2017, a Associação Brasileira de Engenheiros de Obras Públicas (ABEOp) protocolou uma denúncia apontando supostas irregularidades nos processos licitatórios do Programa Águas do DF. O TCDF deu prazo de cinco dias para a Novacap se manifestar. Depois disso, em 12 de abril deste ano, a Sinesp protocolou no TCDF o Relatório de Viabilidade — Drenar/Taguatinga para avaliação do tribunal. O documento está em análise.

O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) detalhou que o projeto foi analisado e aprovado à época com restrições, pois aguarda apresentação do projeto de paisagismo e do plano de manutenção das bacias a céu aberto. “A recomendação do Iphan é de que as bacias se harmonizem paisagisticamente com o ambiente urbano, evitando que se tornem locais insalubres, o que viria conflitar com o urbanismo da área tombada e afetar a escala bucólica da cidade”, alerta. Para o GDF, é necessário novo projeto.

O professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da UnB Sergio Koide é claro: não há solução rápida nem barata. “No Plano Piloto, a rampa do (Palácio do) Buriti até o lago é extensa, e as águas se acumulam. Como há estrangulamentos causados pelas vias transversais paralelas à topografia, como a L2 e o Eixo Rodoviário, elas tendem a barrar o fluxo. Se o sistema de drenagem não for eficiente, acumula água”, explica o especialista em recursos hídricos e saneamento.

Por enquanto, resta aos moradores a angústia antes do temporal. Na 112 Norte, uma árvore caiu e atingiu o Bloco E. “Nunca tive tanto medo na minha vida quanto no domingo, porque foi um temporal de um jeito que eu nunca vi”, contou Fátima Oliveira, 65

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Prejuízo na UnB

23/04/2019

 

 

 

 

Um dos locais mais afetados pelas chuvas foi o Câmpus Darcy Ribeiro da Universidade de Brasília. O subsolo do Instituto Central de Ciências (ICC) ficou tomado pela água, que inundou diversas salas nas alas Sul e Norte. Ontem, cerca de 100 servidores de uma empresa terceirizada ainda secavam os espaços e retiravam a lama. Durante o trabalho, pilhas de livros e materiais danificados eram resgatados das salas, enquanto professores calculavam o prejuízo.

Pela manhã, alunos encontraram as portas do ICC fechadas. Alguns professores se recusaram a dispensá-los e deram aula ao ar livre. Um dos pontos mais atingidos foi a sede da Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social. Valdenizia Peixoto, chefe do departamento, lamentou a situação: “O sentimento é de isolamento e um pouco de indignação. O grupo tem 80 anos de trabalho, e a sala de pesquisas ficou destruída. Não nos importamos muito com alguns equipamentos, como computadores, mas importam os documentos. Eu acabei de resgatar um arquivo de 1981, que, possivelmente, não exista digitalizado”.

Segundo ela, o problema poderia ter sido evitado há oito anos, quando outro alagamento marcou a UnB pelos estragos provocados no ICC. “Em 2011, houve uma chuva que também danificou muito. Então, fecharam os vãos por onde entrava a água nas salas do subsolo. Mas três delas não foram fechadas, não sei o porquê. Uma delas foi a nossa, que agora ficou completamente destruída. Todos os móveis foram para a porta, e o nível da água subiu quase 2m dentro da sala”, detalhou. Por causa disso, a UnB suspendeu as atividades no ICC Norte e na Biblioteca Central pela manhã de ontem.

Os prédios da Biblioteca e da Faculdade de Tecnologia (FT) também sofreram danos. Em nota, a universidade informou que a energia cortada do ICC Norte e da Biblioteca foi religada ao meio-dia. Os dois edifícios reabriram ao público às 13h. “Na FT, segundo o diretor da unidade, não houve danos graves e/ou estruturais. O levantamento de eventuais perdas ainda está sendo realizado”, acrescenta.

A UnB acrescentou que, “depois do alagamento de 2011, foram executadas diversas medidas para melhorar o escoamento de água, entre elas, a troca de tubulações e a correção de obstruções na rede de águas pluviais. Além disso, houve o fechamento dos vãos de iluminação do ICC Norte. Havia ainda quatro vãos abertos durante a chuva do último domingo. Não é possível estabelecer se esses vãos nunca foram fechados ou se, uma vez fechados, foram reabertos. A Prefeitura fez o fechamento desses quatro hoje, em alvenaria.”

Após as chuvas de domingo, voltou a chover ontem, e a previsão de pancadas continua hoje, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O órgão chegou a emitir um alerta de temporal na tarde de segunda-feira, que se concretizou em diversas áreas. A partir de quinta-feira, a expectativa é de dia ensolarado.