Título: Justiça ouve Benedito
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Fonte: Correio Braziliense, 12/09/2012, Cidades, p. 26
Acusado de vender apoio político por R$ 6 milhões, ontem foi a vez de o distrital Benedito Domingos (PP) prestar, por quatro horas, esclarecimentos à Justiça sobre o suposto envolvimento dele na Caixa de Pandora. O deputado foi denunciado pelo Ministério Público Federal por integrar esquema de corrupção envolvendo empresários, parlamentares e integrantes do governo. No Distrito Federal, Benedito responde à ação de improbidade administrativa pelos mesmos atos. Os promotores querem que ela devolva aos cofres públicos R$ 18 milhões, dos quais R$ 6.979.668 dizem respeito ao valor da causa e o restante refere-se a multa.
Durante a audiência na 2ª Vara de Fazenda Pública, Benedito teve a oportunidade de rebater as acusações de que integrou o esquema de pagamento a distritais denunciado em 2009 por meio da delação premiada do ex-secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa. Mas foi também a chance de o delator dar mais detalhes sobre o que já havia relatado em depoimentos anteriores. Durval revelou, por exemplo, que parte do dinheiro pago à família de Benedito Domingos foi em dólar: "Acredito que entre US$ 1,5 milhão e US$ 2 milhões".
Embora seja réu na investigação da Pandora e responda a uma série de processos, nas ações de improbidade, Durval é ouvido na condição de testemunha, pois é considerado um colaborador. Durante a sessão de ontem, ele reconstituiu como teria ocorrido a transação com Benedito. De acordo com o delator, o distrital era considerado uma peça importante nas eleições de 2006. Segundo consta do inquérito, o deputado vendia o apoio da legenda. "Benedito falava em nome do partido. Primeiro, a negociação foi fechada em R$ 3 milhões, mas depois ele pediu mais e disse que só aceitaria por R$ 4 milhões", explicou o ex-secretário de Relações Institucionais.
A negociação, segundo Durval, acabou em R$ 6 milhões pois incluía também o partido e a "compra do apoio político do pastor Ronaldo Fonseca, (hoje no PR)". Fonseca é hoje deputado federal. Parte do dinheiro havia sido repassado aos filhos de Benedito, que, segundo a testemunha, lidavam diretamente com ele. O delator deu informações específicas relativas a horários, locais e pessoas que teriam recebido as quantias. O ex-secretário de Relações Institucionais contou também que atendeu pedido de Benedito para arrumar contrato de empresas ligadas aos filhos com a administração pública. "Na época, falei com o então secretário de Governo, Benjamin Roriz, e ele autorizou", afirmou, ao informar que o valor do contrato com o GDF girou em torno de R$ 600 mil.
Benedito negou que tenha se vendido. Contou durante a audiência comandada pelo juiz Álvaro Ciarlini ter sido procurado por diferentes grupos políticos, mas fez sua opção por convicção. Ele atribui o envolvimento nas denúncias a mágoa. "Durval queria que eu fosse candidato a deputado federal e apoiasse o irmão dele (Milton Barbosa) para distrital. Mas eu não aceitei, e isso pode ter gerado algum ressentimento", acredita.
Benedito alegou que durante a votação do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (Pdot), era administrador de Taguatinga e que, por isso, não participou do processo. Mesmo assim, Durval acusa o deputado de ter recebido R$ 420 mil para influenciar o voto do então suplente Berinaldo Pontes.
Durante questionamentos dos representantes do Núcleo de Combate às Organizações Criminosas (Ncoc) do MP, Benedito fez uma revelação. Disse que quando a Caixa de Pandora foi investigada na Câmara Legislativa, ele tomou conhecimento e teve acesso a um documento comprovando que Durval teria comprado apoio de pastores para a campanha de Milton Barbosa. O promotor de Justiça Clayton Germano quis saber a razão de a denúncia não ter sido feita à época, mas Benedito disse que estava na condição de administrador e, até então, sabia do fato "por ouvir dizer". Recentemente, no entanto, teve acesso à cópia do documento, que, agora, será requisitado pelo Ministério Público. (LT)
Influência política
A empresa ligada à família de Benedito Domingos foi alvo de investigação da Polícia Civil e do Ministério Público, que resultou em denúncia contra o deputado e seu filho Sérgio Domingos por formação de quadrilha e fraude em licitação. O parlamentar teria usado da influência política para beneficiar os negócios da família dele em contratos com a administração pública.