Valor econômico, v. 19 , n. 4654 , 20/12/2018. Brasil, p. A2

 

Ministério das Batalhas Imaginárias Exteriores

Daniel Rittner

20/12/2018

 

 

Tal como em 2003, quando Luiz Inácio Lula da Silva chegou ao Palácio do Planalto com um recorde de 61% dos votos válidos e escorado pelo desejo popular de mudança, Jair Bolsonaro identificou a política externa como bom entretenimento para seus eleitores - sobretudo aqueles que aplaudem discurso menos ponderados. Lula, depois de ter seduzido a classe média com compromissos de moderação na economia, precisou seguir à risca uma cartilha que atacava como neoliberal. Definiu uma meta de superávit primário de 4,25% do PIB e ignorou temas caros à boa parte da esquerda, como auditoria da dívida externa e outras empulhações, preservando reformas iniciadas pelo antecessor Fernando Henrique Cardoso.

Se por um lado viu a necessidade de agir sem convicção na política econômica, o ex-metalúrgico soube catalisar muito bem a esperança dos mais pobres, por meio de uma extensa agenda de programas sociais e combate à pobreza. Era uma área em que tinha comprometimento e paixão. Mas era também uma agenda que não daria resultados imediatos. Então, para demonstrar rapidamente à militância petista que sua vitória embutia transformações, usou o Itamaraty. Em rara e perfeita química entre presidente e chanceler, liberou uma metamorfose nas relações exteriores.

Logo de cara, para ficar só em dois exemplos, Lula e Celso Amorim deram um cavalo de pau na Área de Livre Comércio das Américas (Alca), descrita como projeto de "anexação" do Brasil pelos Estados Unidos, e articularam a criação de um grupo de países emergentes para bloquear a conclusão da Rodada Doha em condições que julgavam inadequadas. Assim, dizia o governo, preservava-se o espaço para proteger a indústria nacional. Que tenha servido para uma malfadada política de conteúdo nacional e para manter a produtividade em níveis inferiores aos de 1980, é outra discussão. Ironicamente, hoje lamentamos a falta de acordos comerciais relevantes e a falência da Organização Mundial do Comércio (OMC) como instância para promover mais abertura.

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Com diferenças essenciais de conteúdo, Bolsonaro adota a mesma forma de atuação. Para evitar brigas com o mercado financeiro e com o setor produtivo, vê-se forçado a defender a reforma da Previdência e as privatizações, duas pautas impopulares para amplos segmentos da sociedade, embora nem sempre o presidente eleito manifeste crença sincera e absoluta. Lembra o desconforto de Lula com a austeridade fiscal e a sequência de aumentos dos juros pelo Banco Central no início de seu mandato.

Como o petista, Bolsonaro tem comprometimento e paixão por algumas questões. O rigor na segurança pública (redução da maioridade penal, flexibilização do porte de armas, incentivo a ações mais firmes da polícia) e a agenda de costumes (Escola Sem Partido, demonstrações exacerbadas de patriotismo, relativização na defesa das minorias) tomaram o lugar antes ocupado pelos temas sociais. Tudo bem, o capitão reformado foi eleito com essas bandeiras mesmo - não com Bolsa Família, com Luz para Todos ou ProUni. Mas os indicadores de criminalidade não melhoram de uma hora para outra, nem a sociedade fica moralista em um estalo.

Onde mais ele poderia mandar um recado aos eleitores de que as coisas estão realmente mudando? Desponta, como óbvia alternativa, o Itamaraty. Usa-se a arena internacional para criar batalhas imaginárias. Aos eleitores de perfil conservador, antipetistas e ansiosos por mudanças, apresenta-se uma série de fantasiosos inimigos externos com a simples motivação de angariar apoio doméstico - enquanto agendas populares não dão resultado e agendas impopulares precisam rapidamente ser tocadas para evitar o caos na economia.

Se parece teórico, vejamos na prática. Afirma-se que "a China não está comprando no Brasil, está comprando o Brasil", por isso há ressalvas à venda de terras para estrangeiras e à privatização da Eletrobras. Pura bobagem: uma área equivalente ao Estado do Rio está em mãos de estrangeiros - os compradores são sobretudo portugueses, japoneses, alemães e espanhóis. E, no projeto de desestatização da Eletrobras, um artigo impedia qualquer acionista individual ou bloco de acionistas de ter mais de 10% do capital. O controle seria pulverizado, nenhum chinês tomaria a estatal, há temor infundado, sobra desinformação.

As mudanças climáticas passam a ser encaradas como "questão para os acadêmicos" e as metas do Acordo de Paris tornam-se "danosas à soberania". Só que existe ampla literatura científica atestando o aquecimento global, todos os compromissos assumidos pelo Brasil são voluntários e jamais houve qualquer discussão séria sobre o "Triplo A", a obsessão de Bolsonaro, suposto corredor Andes-Amazônia-Atlântico que ficaria sob guarda internacional.

Agora a vilã de turno, nos discursos do futuro governo, é a migração. Roraima pode estar sofrendo com o fluxo de venezuelanos, mas não se deve generalizar: o Brasil precisa de mais imigrantes. Aqui, só 0,3% da população é de estrangeiros - marca que atinge 2% no Chile, queridinho da nova equipe econômica, e 5% na Argentina. Cria-se polêmica em torno de um problema que não existe em 26 unidades da federação.

O alvo maior dos bolsonaristas é o "globalismo", um fenômeno de caráter político, segundo frisam, que difere da globalização de teor econômico-comercial. Fluxos comerciais cada vez maiores, investimentos transnacionais, transporte barato e sistemas de telecomunicações rápidos são locomotivas da globalização. A tentativa de organismos multilaterais de impor uma agenda pautada por tecnocratas sem mandato popular, com normas engendradas em Nova York ou em Genebra, depois incorporadas à legislação nacional de cada país, sem respeitar as tradições e especificidades culturais, eis a essência do "globalismo".

Petardos contra Venezuela e Cuba, fechamento de embaixadas na África, tensão desnecessária com a China. Vêm aí distrações para o respeitável público. A torcida é que, daqui a 15 anos, olhando pelo retrovisor, não se perceba esse estrondo como um retrocesso na política externa brasileira.

 

Daniel Rittner é repórter especial. Hoje, excepcionalmente, deixamos de publicar a coluna de Ribamar Oliveira

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