O globo, n. 31324, 12/05/2019. País, p. 9

 

Para não repetir PRN de Collor, PSL tenta se fortalecer nas cidades

Henrique Gomes Batista

Gustavo Schmitt

12/05/2019

 

 

Filhos de Bolsonaro assumem frente para que a sigla repita na eleição municipal o desempenho que teve na disputa de 2018

De olho nas eleições municipais de 2020, filhos do presidente Jair Bolsonaro estão reformando diretórios do PSL em alguns dos mais importantes colégios eleitorais do país, como São Paulo, Rio e Minas. Em outras regiões, operadores do partido já trabalham com metas de cidades a serem conquistadas.

A meta é tentar repetir, na disputa municipal, um salto semelhante ao alcançado na eleição de 2018, quando, além do presidente, a sigla até então nanica elegeu uma enorme bancada da Câmara (54 deputados), quatro senadores e três governadores.

Um contraste em relação à disputa municipal de 2016, quando o PSL saiu das urnas com prefeitos em 31 cidades — à época, o fenômeno Bolsonaro ainda engatinhava e o próprio não era filiado à legenda. Dirigentes do PSL dizem não querer cair no mesmo erro do PRN, sigla nanica que, mesmo tendo o presidente Fernando Collor no Planalto, elegeu só 92 prefeitos em 1992 — nenhum em capitais ou cidades relevantes. Acusado de corrupção, Collor respondeu a um processo de impeachment e acabou renunciando. O caminho do PSL nas cidades, contudo, não é simples. O partido depende da popularidade de Bolsonaro, em queda desde a eleição.

A falta de coesão interna entre integrantes da legenda também dificulta articulações. Além disso, apesar de o presidente ter sido eleito com o discurso da “nova política”, denúncias de desvios de verbas do fundo eleitoral e do uso de candidatos-laranja abalaram o partido e, até agora, o PSL nada fez contra os principais acusados, entre eles o atual ministro do Turismo, Álvaro Antônio. O presidente nacional da legenda, Luciano Bivar, não quis falar com a reportagem.

O poder do mais votado

Para o êxito nas eleições de 2020, integrantes do PSL reconhecem que a família do presidente é crucial. Por isso em São Paulo, maior colégio eleitoral do país, o comando local da legenda saiu das mãos do senador Major Olímpio para ficar com o deputado Eduardo Bolsonaro. O objetivo é claro: o partido quer aproveitar aforça que ele obteve nas urnas em 2018 —foi o deputado mais votado do país, com 1,8 milhão de votos e manteve o recorde de líder de votos em cem das 645 cidades de São Paulo.

Também pesou para a troca no comando o mal-estar da família Bolsonaro com declarações recentes de Major Olímpio, críticas à relação do governo federal como Congresso eàinfluên ciado ideólogo de direita Olavo de Carvalho no Planalto. O senador, no entanto, nega estremecimentos: — Não tem nenhuma crise minha com o PSL. Sou aliado de primeira hora. Estou na trincheira com o Bolsonaro. Mas também não vou me prostrar diante de coisas equivocadas.

A disputa municipal no estado de São Paulo tem um peso especial para Bolsonaro porque pode virar uma espécie de teste de um possível embate entre ele e o governador João Doria (PSD B) em 2022— a aliados, o governador paulista sinaliza a disposição de disputar o Planalto.

Hoje, as duas principais apostas no PS L para disputara prefeitura na capital saíram bem nas urnas na eleição do ano passado. Janaína Paschoal sagrou-se a deputada estadual mais bem votada da História, com 587 mil votos só na capital, e a deputada federal Joyce Hasselmann obteve 289 mil votos só na cidade de SP. Outra alternativa cogitada pelo partido é filiar o apresentador de TV José Luiz Datena, hoje no DEM, para lançá-lo.

—Temosque trabal harpara que tenhamos uma amálgama política que seja de fato permanente, mais permanente doque a departidos pequenos que já surgiram no passado eque cometeram o erro de não ter trabalhado as eleições locais. Há casos de diretórios locais vendidos, dominados por políticos de outra legenda. Temos que fazer uma grande limpeza — diz o deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Integrantes do partido também dizem que a ideia é repetira estratégia de marketing de Bolsonaro em 2018 para fazer as candidaturas alavancarem, o que significa um forte investimento em redes sociais. O desempenho nas urnas garantirá à sigla uma boa fatia do fundo público destinado a campanhas.

No Rio, outro filho de Bolsonaro, o senador Flávio, trouxe aliados para reforçara cúpula do partido no estado. Ele tem opera domais nos bastidores desde que vieram a público as investigações do caso Fabrício Queiroz, ex-assessor acusado de movimentações financeiras atípicas. Na capital, o candidato do PSL deve ser o deputado Rodrigo Amorim, que ficou conhecido após quebrar uma placa da vereadora Marielle Franco (PSOL), assassinada em março de 2018.

Em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado, a legenda pretende lançar o coronel da reserva e deputado estadual Fernando Salema, ex comandante do batalhão daquele município. A ideia é lançar candidaturas em quase todos os municípios da Baixada Fluminense. Em cidades onde o partido não tiver candidatos, a tendência é o apoio a algum nome do PSC do governador Wilson Witzel.

Intervenção em Minas

Epicentro das denúncias sobre o uso de candidaturas laranjas, o PSL de Minas passou por uma intervenção recente, e ex-assessores do ministro do Turismo deixaram seus cargos. Par atentar conter o desgaste com as denúncias, o PS L local anunciou que exigirá normas de compliance, num sistema semelhante ao de empresas que, pós-Lava-Jato, criaram procedimentos e adotaram código ética.

O cientista político Jairo Pimentel, da FGV, vê com algum ceticismo os planos do PSL de repetir o desempenho de 2018. Para ele, a sigla carece de estrutura nas cidades e seu sucesso está inteiramente ligado ao desempenho econômico do governo e à popularidade de Bolsonaro, que tem caído. Por outro lado, ele acredita que a rejeição aos partidos tradicionais é um ponto favorável ao PSL.

Além disso, o fim da coligação nas próximas eleições tende agerar um afusão de legendas, oque também pode beneficiar o partido. O GLOBO tentou falar com Eduardo e Flávio Bolsonaro, mas eles não concederam entrevista.