Valor econômico, v.19 , n. 4661 , 04/01/2019. Política, p. A7

 

Discurso de Araújo deixa diplomacia perplexa

Rittner, Daniel

04/01/2019

 

 

Uma das cenas emblemáticas de "O Iluminado", obra-prima do cineasta Stanley Kubrick, mostra uma onda de sangue jorrando do elevador e atingindo as paredes em um corredor do Hotel Overlook. Atônitos com o discurso de posse do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, diplomatas fazem referência à imagem do filme de suspense para deslizar uma piada toda vez que passam em frente ao gabinete do novo chanceler. Olham-se uns aos outros, em tom de cumplicidade, e apontam o elevador privativo ou a parede para emendar sutilmente: "Cuidado para não encostar e sujar a roupa de sangue".

A anedota circula como reflexo do clima de apreensão e ansiedade que já se vivia no Itamaraty às vésperas de Araújo assumir o cargo. A perplexidade só aumentou depois de o ministro ter feito um pronunciamento no qual recitou Ave Maria em tupi, fez citações em grego e em latim, mencionou Dom Quixote e o sebastianismo português, Raul Seixas e Renato Russo, garantiu que o problema do mundo não é xenofobia, mas uma teofobia (ódio a Deus) que corrói valores cristãos ocidentais, conclamou seus subordinados a lutar contra a "ordem global".

Diplomatas mais experientes do Itamaraty passaram as horas seguintes ao discurso fazendo críticas. "O primeiro discurso de um chanceler é para lançar as linhas-mestras da política externa, falar sobre o nosso entorno sul-americano, propor pontes com o resto do mundo", afirma, reservadamente, um chefe de representação brasileira no exterior e que já chefiou diversas embaixadas. "É um discurso escutado com atenção pela comunidade diplomática lotada em Brasília, que transmite essa mensagem às suas capitais. Agora, imagina o embaixador do Japão tendo que relatar esse discurso a Tóquio."

A reação dos estrangeiros foi na mesma linha. Aos comentários jocosos de que diplomatas brasileiros pediriam exoneração do Itamaraty e asilo em seu país, um embaixador europeu apenas sorriu. "Make a reservation (faça uma reserva", brincou, dizendo que serão muitos pedidos. Outro ironizou: "Fiquem tranquilos que o presidente Bolsonaro certamente vai conter o radicalismo dele".

Brincadeiras, piadas e ironias à parte, a crítica girou em torno do fato de que não houve diretrizes em sua mensagem inicial. Qual será a postura do Itamaraty sobre o Mercosul? O Brasil continuará fazendo parte do G-4 com Índia, Japão e Alemanha para ampliar o conselho de segurança das Nações Unidas? Há planos para a África e para a Ásia? Temos alguma posição sobre a reforma da Organização Mundial do Comércio (OMC) ou do Fundo Monetário Internacional? Nada foi tratado.

A MP 870, medida provisória assinada no dia 1º de janeiro por Jair Bolsonaro, prevê uma reestruturação do ministério e um limite de até secretarias - hoje são nove subsecretarias (a nomenclatura também muda). Abre-se uma janela legal para a entrada, em postos de chefia, de gente de fora da carreira diplomática.

Araújo garantiu que esse não é o plano. A brecha só deve ser usada para nomear, no primeiro escalão, diplomatas mais jovens - o novo chanceler não gostaria de ter, segundo se diz, ninguém da geração acima dele em posições de comando no Itamaraty. Kenneth Félix da Nóbrega, Marcia Donner, como Pedro Wollny, Achilles Zaluar, Norberto Moretti são alguns dos mais cotados para ter funções estratégicas.

A pergunta, esses dias, é o que vai ser dos embaixadores renegados. Embaixadas no Leste Europeu ou do Sudeste Asiático, refúgios tradicionais dos "encostados"? Ou o DEC, como chamam jocosamente o "Departamento de Escadas e Corredores", por onde andam os embaixadores sem cargos? Pelo menos o ex-chanceler Aloysio Nunes criou um departamento real para o DEC: é o Grupo de Apoio Operacional e Administrativo. Uma sala no anexo do Palácio do Itamaraty, conhecido como Bolo de Noiva pelo formato redondo, com computadores e telefones para os "esquecidos".