Título: Operação para impedir atritos
Autor: Braga , Juliana
Fonte: Correio Braziliense, 14/09/2012, Política, p. 2
Durante os últimos dois dias, o PT difundiu que a ida de Marta Suplicy para o Ministério da Cultura, abrindo vaga para o suplente Antônio Carlos Rodrigues (PR-SP), causaria um constrangimento aos integrantes do Partido da República, que apoiam José Serra (PSDB) para a prefeitura paulistana. Depois da reportagem de ontem do Correio, flagrando um e-mail enviado por um grupo militante à senadora, afirmando que o suplente é "evangélico e homofóbico" e deveria ser trocado da relatoria de um projeto que criminaliza a homofobia, o PT "embrulhou" o novo senador e o devolveu ao PSDB. "Se complicar a candidatura de alguém é a do Serra, que tem o apoio do Antônio Carlos Rodrigues", disse o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP).
Os petistas, contudo, tomaram todos os cuidados para evitar que o episódio contamine as relações já conturbadas entre o candidato Fernando Haddad (PT) e os evangélicos. A própria Marta assumiu esse papel, após a cerimônia de posse no Palácio do Planalto, realizada na manhã de ontem. "Eu acho que a maioria, a grande maioria dos evangélicos não são homofóbicos. São pessoas que respeitam a diversidade", sustentou.
Regimentalmente, quando um senador abre espaço para o suplente, os projetos que relatava são devolvidos para a presidência das comissões em que tramitam e redistribuídos para outros senadores. O suplente, segundo apurou o Correio, não assumiria automaticamente a relatoria. Mesmo assim, ao receber a mensagem por e-mail, Marta pediu à senadora Lídice da Mata (PSB-BA) que relatasse a proposta, para evitar problemas com um setor ao qual é ligada politicamente.
Marta buscou descolar-se da imagem do suplente, eximindo-se da responsabilidade pela escolha de Antônio Carlos Rodrigues. "Foi uma decisão partidária, tenho respeito pelo senador que ocupará meu lugar. Espero que ele faça uma boa gestão", afirmou. Diante da insistência dos jornalistas sobre o posicionamento do suplente, a nova ministra tentou desconversar. "Ele estava na minha coligação partidária, ele é meu suplente, ponto. Eu não tenho nada para falar sobre isso", rebateu.
Integrantes do PR afirmaram ao Correio já esperar que Antônio Carlos Rodrigues - afilhado político do secretário-geral do PR, Valdemar Costa Neto (SP) - assumisse a vaga de senador. Mas não da maneira como ocorreu. A expectativa do partido era que Marta, embalada pelos 8 milhões de votos recebidos para o Senado, fosse a candidata do PT à prefeitura paulistana. Mas o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sacou Haddad da cartola e Antônio Carlos Rodrigues chegou ao Senado por meio da efetivação de Marta como ministra.
Aproximação
Um dos coordenadores da campanha de Haddad em São Paulo, o deputado Vicente Cândido (PT-SP) admitiu que situações como essas nunca ajudam nas relações com os evangélicos. "Teremos que contornar isso", lamentou. O governo já havia tentado se aproximar dos religiosos nomeando o bispo e senador Marcelo Crivella (PRB) para o Ministério da Pesca. Um dos principais dirigentes da Igreja Universal, Crivella assumiu com a missão de remontar as pontes do Planalto com os representantes das demais igrejas. "O governo estava perdendo os votos evangélicos no Congresso, um grupo parlamentar que não pode ser desconsiderado", confirmou um interlocutor da presidente Dilma.
Outro integrante do comando de campanha de Haddad, o deputado Carlos Zarattini (SP) minimizou o episódio. Afirmou que seria mais complicado se Marta tivesse escrito o e-mail. "Nós recebemos dezenas, centenas de e-mails e SMS por dia, não dá para ficar avaliando tudo." Tanto Zarattini quanto Tatto completaram que o conteúdo da mensagem eletrônica estava errado, já que Antônio Carlos Rodrigues não é evangélico, e sim, católico.
A presidente Dilma Rousseff falou ontem, pela primeira vez, sobre a influência da indicação de Marta para o ministério na campanha de Fernando Haddad. Questionada se isso ajudaria na disputa pela prefeitura de São Paulo, Dilma foi irônica. "Você é esperta, hein?", respondeu, dirigindo-se a uma jornalista.