Título: Extorsão nos cartões de crédito
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Fonte: Correio Braziliense, 14/09/2012, Opinião, p. 16
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tem razão. Os juros cobrados pelos cartões de crédito no país são inaceitáveis. O pior: as administradoras e os grandes bancos, campeões na emissão do dinheiro de plástico, simplesmente ignoram o esforço do governo para baixar os juros.
A manifestação de desagrado de Tombini é respaldada por divulgação, feita ontem pelo Correio, de estudo da Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), mostrando que todas as modalidade de financiamento ao consumidor ficaram mais baratas em agosto, pelo sexto mês consecutivo, menos as do crédito rotativo dos cartões.
A taxa média cobrada no mercado baixou de 103,9% para 101,7%, enquanto a dos cartões permaneceu em inabaláveis 383,30% ao ano. Não é de hoje que esse negócio passou a ser uma mina de ouro a céu aberto no Brasil. Favorecidos pelo bem-sucedido processo de informatização e de transmissão de dados da rede bancária, os cartões caíram rapidamente no gosto do consumidor, principalmente como meio de pagamento, seja na função de débito, seja na de crédito não parcelado.
Nas grandes e médias cidades, é possível pagar compras com cartão em pequenas mercearias, açougues e sacolões, mesmo em bairros da periferia. A comodidade que dispensa o consumidor de portar dinheiro vivo e, na função crédito do cartão, o prazo para a quitação da conta, que pode se estender até 26 dias depois da compra, praticamente obrigam o comerciante e o prestador de serviços a oferecer essa modalidade de pagamento, sob pena de perder o freguês.
Resultado: chegou a 687 milhões o número de cartões circulando no Brasil em 2011, segundo a Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A entidade projeta expansão de 20% em 2012. Se confirmado esse crescimento, o país terá média superior a quatro cartões para cada cidadão.
Trata-se de conforto a que todos devem ter direito. O problema está na tentadora possibilidade de pagar apenas a parcela mínima oferecida pelo cartão. Inexperiente, é comum o brasileiro, que só recentemente passou a ter acesso ao crédito, cair nessa armadilha. A maioria desconhece o tamanho da extorsão de que está sendo vítima. Não sabe que, nesse segmento, o Brasil padece de um dos piores males que podem afetar o capitalismo: a falta de concorrência.
Apenas duas bandeiras dominam nada menos do que 90% dos cartões em circulação, configurando o que os economistas chamam de falha de mercado. Pela proporção que o negócio tomou no país, pelo despropósito dos juros cobrados e pelo risco de o consumidor cair em atoleiro sem saída, deve a autoridade passar logo da perplexidade à ação. Além de aumentar o valor da parcela mínima, hoje de 15% da fatura, é hora de promover mais disputa entre os agentes.