Título: Compra do PP incluiu eleição
Autor: Mader, Helena; Abreu, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 19/09/2012, Política, p. 2

Ao negociar o alinhamento do partido aos interesses do Planalto, PT recebeu em troca o apoio de Maluf a Marta na disputa de 2004 em São Paulo. No Congresso, a sigla passou a votar com o governo

A parceria entre o PP e o PT, que, segundo o relator do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, foi forjada por intermédio da distribuição de recursos para o partido em troca de apoio aos projetos do governo no Congresso, não envolveu apenas as votações das reformas da Previdência e Tributária. A aliança entre pepistas e petistas deu-se em diversos níveis, inclusive no apoio de Paulo Maluf — candidato derrotado no primeiro turno — a Marta Suplicy na disputa pela prefeitura de São Paulo, no segundo turno de 2004. Apesar da manobra, Marta não conseguiu se reeleger e perdeu a disputa para José Serra (PSDB).

O Correio apurou com vários interlocutores que, ao alinhar o PP ao Planalto, a cúpula do PT teve que fazer negociações distintas. O grupo que comandava o partido na época, composto pelo trio Pedro Henry (MT), Pedro Corrêa (PE) e José Janene (PR, já falecido), cuidava dos interesses gerais da legenda. A situação de São Paulo era específica e envolvia tanto Maluf quanto o deputado Vadão Gomes (SP), então presidente do diretório municipal do PT na capital paulista.

O PT pressionou para que Maluf disputasse a eleição, temendo que, com menos candidatos, o embate entre Marta e José Serra não chegasse sequer ao segundo turno. Teve que abrir o cofre para convencer Maluf e o PP paulistano. Durante a CPI dos Correios, foram identificados repasses de R$ 3,7 milhões nas contas de Vadão Gomes, via SMP&B. Vadão, contudo, acabou sendo inocentado tanto no Conselho de Ética quanto no plenário da Câmara e não se tornou réu no inquérito do mensalão, que está sendo julgado no Supremo Tribunal Federal (STF).

Maluf, então, disputou as eleições para a prefeitura de São Paulo. Ficou em terceiro lugar, mas, no segundo turno, declarou apoio à candidata do PT, que havia derrotado o pepista em 2000. "O que eu desejo é o bem da cidade de São Paulo e acho que, na presente circunstância, o bem da cidade de São Paulo me obriga a recomendar aos meus amigos eleitores: se vocês amam São Paulo, a solução está no presidente Lula e na sua candidata", disse Maluf, em outubro de 2004.

No caso do PP, dois dos três parlamentares que comandavam a legenda — Pedro Corrêa (PE) e Pedro Henry (MT), além de João Cláudio Genu, assessor especial do ex-deputado Janene — foram condenados pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Interlocutores que acompanham o processo lembram que, ao chegar ao poder, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fatiou a Esplanada entre as diversas tendências do PT e fechou as portas ao PMDB, optando pela indicação de Dilma Rousseff para o Ministério de Minas e Energia. "A saída foi comprar o apoio dos demais partidos que não se alinhavam ao PT", disse ao Correio alguém próximo do esquema em julgamento no STF.

O PL — atual PR — já havia acertado a participação no governo no acordo selado ainda durante a eleição presidencial de 2002. Além de ajuda para o pagamento das despesas da campanha eleitoral de 2002, o partido indicou o vice José Alencar para a chapa de Lula, em uma negociação intermediada pelo deputado federal paulista Valdemar Costa Neto, hoje réu do mensalão. O PTB, por intermédio do então deputado Roberto Jefferson (RJ) — denunciante do mensalão e réu no STF — negociou uma parceria com o PT para as eleições de 2004 e cargos na máquina federal. O PP também aderiu ao esquema. "Fazer parte do governo é fazer parte de um clube de privilegiados com acesso a benesses que não teriam na oposição", disse ao Correio um ex-aliado do presidente Lula.

O Ministério das Cidades, contudo, não entrou nessa cota. Após a saída do petista Olívio Dutra, a pasta passou a ser ocupada por Márcio Fortes (PP), escolha pessoal do presidente Lula, e não uma indicação partidária. Tanto que o PP sempre tentou indicar nome mais ligado às atividades da sigla, o que só aconteceu no governo Dilma Rousseff, com a indicação de Mário Negromonte (BA) para o cargo de ministro.

PP na Reforma da Previdência 31 votos sim 13 votos não

PP na Reforma Tributária 35 votos sim 9 votos não

Tucanos usam mensalão na campanha O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou o momento desfavorável ao PT e usou o mensalão em um ato de campanha de José Serra (PSDB), candidato à prefeitura de São Paulo, ontem, em evento com intelectuais e artistas na capital paulista. Segundo FHC, Serra representa a "recuperação da moral" da política no país. "Serra é o candidato que representa um reencontro do Brasil com a sua história de luta pela democracia. Uma democracia que não é para favorecer a corrupção, mas para favorecer a cidadania", afirmou o tucano, fazendo referência velada ao julgamento da Ação Penal 470 no STF. Serra também comentou o mensalão, mas sem fazer críticas ao PT: "Essa questão desse julgamento é uma mudança no Brasil, é o começo do fim da impunidade. Isso vai condicionar todo o sistema de Justiça no Brasil", disse.