Correio braziliense, n. 20449, 17/05/2019. Brasil, p. 5
Tragédia anunciada
Junia Oliveira
17/05/2019
Barragens » Relatório da Vale admite risco de rompimento de reservatório de rejeitos em mina no município e Barão de Cocais, em Minas Gerais. Moradores estão em alerta. Ministério Público exige que mineradora preste assistência à população em caso de sinistro
A Defesa Civil de Minas Gerais reforçou ontem o efetivo em Barão de Cocais, na Região Central do estado, por causa do risco iminente de rompimento de talude na Mina Gongo Soco, da Vale — o que pode ocasionar o colapso da barragem. O alerta foi redobrado depois de laudo da Vale, repassado ao Ministério Público de Minas e à Defesa Civil, apontar a possibilidade de ruptura ao longo da semana que vem. Os moradores estão sendo orientados a deixar as regiões de risco.
Ontem, promotores fizeram uma série de recomendações à mineradora para conter os efeitos do possível colapso de mais uma estrutura em Minas. Em caso de ruptura do talude, o material cairá na cava localizada abaixo dele e vai se integrar ao meio ambiente. O temor é de que, dependendo da velocidade e da força com que isso ocorrer, haja um abalo sísmico que seria o gatilho para o rompimento da barragem Sul Superior, a 1,5 km da cava da mina.
Conforme consta no Relatório de Monitoramento Geotécnico da Vale, a vibração é capaz de ocasionar a liquefação da Barragem Sul Superior — o mesmo processo que as investigações apontam serem a causa do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, em 25 de janeiro, que provocou a morte de mais de 300 pessoas.
A Sul Superior teve seu risco de segurança elevado para nível 3 no fim de março. De acordo com documentos oficiais da Defesa Civil, nesse nível uma estrutura está rompendo ou em risco iminente de colapso.
No início de fevereiro, 432 moradores da zona de autossalvamento (ZAS) haviam sido retirados de suas casas. Em março, a defesa civil fez treinamento com 3,6 mil moradores, indicando rotas de fuga e pontos de encontro. Hoje, haverá nova simulação, com a intenção de treinar 2,4 mil pessoas que não participaram do primeiro trinamento. “É uma medida de precaução e proteção e pode salvar vidas”, afirmou o tenente-coronel Flávio Godinho, coordenador-adjunto da Defesa Civil.
De acordo com o documento da Vale, o talude tem um deslocamento diário de três a quatro centímetros. “Se estabilizar agora, pode nem vir a romper, mas se continuar nessa progressão diária, pode se somar a uma proporção maior e, do dia 19 ao dia 25, poderia haver rompimento”, relatou Flávio Godinho.
Por meio de nota, a Vale informou que “não há elementos técnicos até o momento para se afirmar que o eventual escorregamento do talude Norte da Cava da Mina Gongo Soco desencadeará gatilho para a ruptura da Barragem Sul Superior”. A mineradora acrescentou que está reforçando o nível de alerta e prontidão para o caso extremo de rompimento.
As duas comunidades localizadas logo abaixo da barragem — Socorro e Tabuleiro — foram retiradas. Os moradores das cidades vizinhas de Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo também já participaram de simulado de rompimento. Nesses locais, a previsão é de que a lama de rejeitos cheguem em duas horas e 36 minutos. Os rejeitos atingiriam o Rio São João e chegaria ao Centro de Barão de Cocais e à entrada da cidade.
O MP exigiu que a Vale informe a população sobre os reais riscos de rompimento da Barragem Sul Superior. Além disso, a companhia foi orientada a fornecer às pessoas eventualmente atingidas “total apoio logístico, psicológico, médico, bem como insumos, alimentação, medicação, transporte e tudo que for necessário, mantendo posto de atendimento 24 horas nas proximidades dos centros das cidades de Barão de Cocais, Santa Bárbara e São Gonçalo do Rio Abaixo”.