Valor econômico, v. 20, n. 4779 , 26/06/2019. Política, p. A8

 

Lista é do Exército, mas escolha é do Planalto

 

 

 

Maria Cristina Fernandes

26/06/2019

 

 

 

Confrontado por uma lista tríplice do Ministério Público para a escolha do Procurador-geral da República que não lhe agrada e ameaçado com um projeto de lei que o levará escolher presidentes de estatais a partir de nomes indicados pelo Congresso, o presidente Jair Bolsonaro enfrentará mais uma lista que não coincide com suas expectativas, aquela votada pelo Alto Comando do Exército para os generais quatro estrelas.

Na reunião do Alto Comando, iniciada na segunda-feira, dois generais foram os mais votados, de uma lista de seis, Valério Stumpf, secretário-executivo do Gabinete de Segurança Institucional, e Tomás Ribeiro Paiva, que foi chefe de gabinete do ex-comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas, e hoje comanda a 5ª Divisão do Exército, em Curitiba.

As duas vagas foram abertas pela licença do general Luiz Eduardo Ramos, comandante militar do Sudeste e nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro para a Secretaria de Governo, no lugar do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, e da ida para a reserva do general Mauro Cesar Lorena Cid, chefe do Departamento de Educação e Cultura do Exército.

Quatro generais, que, de acordo com o Almanaque do Exército, também eram elegíveis para a quarta estrela e ficaram de fora, foram o atual porta-voz da Presidência da República, Otávio do Rêgo Barros, o chefe do Centro de Inteligência do Exército, general Ubiratan Poty, o vice-chefe da divisão de materiais do Departamento de Ciência e Tecnologia, Glaucio Lucas Alves, e o chefe do Departamento Pessoal, Luiz Carlos Pereira Gomes.

Os dois mais votados serão encaminhados para sua nomeação. No Exército, a expectativa é de que os nomes sejam referendados, mas Bolsonaro não está obrigado a fazê-lo. O precedente histórico é do presidente Ernesto Geisel que, em 1977, preteriu, por duas vezes, a indicação do general César Montagna, o mais votado pelo Alto Comando e preferido do então ministro do Exército, general Sylvio Frota, com quem alimentava divergências em relação à abertura do regime.

Em seu livro, "Ideais Traídos", Frota conta que a alegação de Geisel, da qual não ficara convencido, foi a de que Montagna já havia recebido os louros pela tomada do Quartel General de Artilharia de Costa, o antigo Forte de Copacabana, no golpe de 1964.

Se confrontar o Alto Comando para nomear Rêgo Barros, o presidente pode esticar a corda de uma relação já abalada pela demissão de dois generais estimados no Exército, Carlos Alberto dos Santos Cruz, ex-ministro da Secretaria de Governo, e Juarez Cunha, ex-presidente dos Correios. O presidente deslocou o secretário-geral da Presidência, Floriano Peixoto, para a estatal, mas, ao substituir este último, optou por um major da PM, Jorge Oliveira.

As demissões se somaram ao desagrado em relação ao acolhimento, sem reprimendas, dos insultos desferidos pelo guru do bolsonarismo, Olavo de Carvalho, contra os generais Villas Bôas, Santos Cruz e o vice-presidente, Hamilton Mourão.

Se acatar os dois nomes mais votados pelo Alto Comando, e deixar de fora Rêgo Barros, seu porta-voz, o colegiado ficará desprovido do general, entre os elegíveis para a quarta estrela, com quem mantém mais próximas relações.