Valor econômico, v. 20, n. 4781, 28/06/2019. Brasil, p. F4
Jovens negros ganham voz a partir de mídias sociais
Andrea Vialli
28/06/2019
"Antes de ser violento, o jovem de comunidade é violentado. Todos os dias." Com essa frase, o baiano Enderson Araújo respondeu a mais um empregador que lhe recusara trabalho em razão do seu endereço, o que é uma realidade recorrente para os jovens que moram em favelas ou nas periferias das grandes cidades.
Para ajudar a família, foi sobrevivendo graças à economia informal - como entregador de gás, vendedor de picolé, servente de pedreiro, entre outras ocupações - até conseguir seu primeiro emprego com carteira assinada, como gari. Mas foi como comunicador que ele se encontrou. Araújo mantém desde 2010 o canal Mídia Periférica, que se tornou uma referência em comunicação nas periferias, com site, jornal comunitário e vídeos na web.
A motivação do jovem negro e periférico, hoje com 29 anos, foi apresentar ao mundo um olhar sobre a comunidade a partir de dentro e ressaltar o direito à comunicação. "A mídia sensacionalista diz que o jovem preto morador de comunidade é bandido. Mas eu via tantas coisas bacanas que não eram contadas, e resolvi contar", diz Araújo, que começou utilizando as lan houses próximas a sua casa.
Às vezes, só tinha R$ 5 para passar o fim de semana, valor que era investido nas horas que ficava ao computador, aprendendo diferentes ferramentas de edição. Sua voz reverberou na internet, inspirando iniciativas semelhantes pelo país, um trunfo para alguém que só conseguiu concluir o ensino médio no ano passado, após repetir a sétima série por cinco anos seguidos. No próximo semestre, virá a concretização de um sonho: o ingresso na faculdade.
Se hoje são amplificados pelas mídias sociais e pela internet, os canais alternativos que dão voz a grupos excluídos existem pelo menos desde o final dos anos 1970, segundo a cientista social Flávia Rios, professora adjunta da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Em sua pesquisa "Feminismo Negro em Três Tempos", realizada em parceria com a pesquisadora Regimeire Maciel, da Universidade Federal do ABC (UFABC), ela aponta para uma efervescência na produção de periódicos com a temática negra e feminista nas décadas de 1970 e 1980 - desses, o carioca "NZinga" foi muito proeminente.
O estudo analisou as três gerações de mulheres que integram o movimento entre 1975 e 2019, e mostra como as novas formas de comunicação tiveram impacto na formação de lideranças. "A terceira geração, que veio após 2013, é caracterizada pelo ativismo de meninas muito jovens, entre 15 e 17 anos, que usam a internet como ferramenta de mobilização e foram muito impactadas pelas políticas públicas voltadas à cultura nas periferias", diz a pesquisadora. Essa maior consciência de classe e gênero contribuiu ainda para diminuir a presença das jovens negras nos empregos domésticos.
A expansão do feminismo negro - 47% das mulheres que se autodeclaram negras se identificam com o feminismo, segundo pesquisa Datafolha de abril de 2019 - é reflexo das ações afirmativas que permitiram a essas mulheres chegar às universidades, ter mais acesso a informação e se mobilizar em grupos e coletivos. Apesar disso, as mulheres em geral ainda são sub-representadas na política, apesar de um salto de 50% nas últimas eleições. "A mulher negra ainda é menos representada. Mas o "efeito Marielle" elegeu quatro parlamentares negras representantes do Rio de Janeiro", diz Rios, em referência à comoção e mobilização em torno da morte da vereadora Marielle Franco, assassinada no ano passado, que ajudou a eleger ativistas com o mesmo perfil.
As políticas públicas voltadas para reduzir o abismo no acesso à educação entre negros e brancos, tais como as cotas nas universidades e outras ações afirmativas foram importantes, mas ainda não são suficientes para conter as desigualdades vigentes. Isso porque as políticas de combate à desigualdade racial não são sistematizadas nem têm continuidade, sendo constantemente ameaçadas pelo entra e sai dos governantes.
"No Brasil não temos uma política de Estado para combater a desigualdade, apenas políticas sazonais de governo", diz Márcia Lima, doutora em sociologia e professora da Universidade de São Paulo (USP). Embora as ações afirmativas tenham contribuído para o acesso dos negros às universidades, 75% das cadeiras do ensino superior são ocupadas por brancos.