Valor econômico, v.20, n.4767, 07/06/2019. Brasil, p. A6
Terras indígenas também são alvo de desmatamento, aponta novo sistema
Daniela Chiaretti
07/06/2019
De outubro a março, quatro dos principais sistemas que monitoram a cobertura vegetal no Brasil emitiram 4.577 alertas de desmatamento nos seis biomas. O dado impressionante é que pelo menos 312 alertas aconteceram em 94 Unidades de Conservação e 101 alertas foram registrados em Terras Indígenas.
Do total de alertas de alteração na cobertura vegetal, mais de 95% ocorreram sem autorização dos órgãos competentes. Unidades de Conservação, Terras Indígenas e áreas sem destinação (áreas devolutas) foram as mais pressionadas.
Os dados fazem parte de um sistema de alertas das mudanças do uso do solo no território brasileiro que será lançado hoje, em Brasília. O MapBiomas Alerta é um esforço conjunto de 15 instituições entre universidades, institutos de pesquisa e ONGs. Entre elas, estão a Fundação SOS Mata Atlântica, o Google, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e o Instituto Tecnológico Vale.
O MapBiomas Alerta é um novo projeto do MapBiomas, que mapeou todas as alterações da cobertura vegetal no Brasil nos últimos 35 anos. "Aprendemos com o passado para poder olhar para o futuro e propor políticas públicas", diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas. "Nos perguntamos: por que não usar esta rede de dados para influenciar o presente?", diz ele, explicando a origem do MapBiomas Alerta.
Em 2018 foram produzidos mais de 150 mil alertas de desmatamento em apenas três sistemas, o Deter (que alerta alterações na cobertura florestal da Amazônia e é feito pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, Inpe), o SAD (Sistema de Alerta de Desmatamento desenvolvido pelo Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia, Imazon) e o Glad (plataforma de monitoramento de florestas on-line desenvolvido pela Universidade de Maryland).
"Mas apenas 1% do total de alertas se converteu em laudos de desmatamento", diz ele. "Quisemos facilitar a análise dos alertas para que os órgãos responsáveis possam tomar decisões", continua.
A ideia do MapBiomas Alerta era juntar informações dos 11 sistemas de monitoramento de desmatamento que existem no Brasil e cruzar com dados de autorização de supressão de vegetação ou do Cadastro Ambiental Rural (CAR) feito pelos produtores rurais.
A partir daí, a intenção era criar uma plataforma de informações públicas, ágil e gratuita, compreendendo um sistema de alertas de desmate para todos os biomas do Brasil. Os alertas teriam que ser validados com imagens de alta resolução e as informações, customizadas de acordo com as necessidades dos usuários, sejam eles técnicos do Ibama, sejam procuradores do Ministério Público.
Na análise dos dados do primeiro trimestre chama a atenção o fato de 36 terras indígenas terem registrado alertas de desmatamento. As terras indígenas Munduruku (com 17 alertas), a TI Kayapó (16 alertas) e a TI Yanomami (com oito) foram as mais pressionadas.
A maior parte dos alertas de desmatamento dos 4.577 registrados pelo MapBiomas Alerta ocorreu no primeiro trimestre do ano. A maior parte da área desmatada, de 89.741 hectares, foi registrada no Cerrado (53%) e na Amazônia (30%). "Isso aconteceu, possivelmente, porque é o período chuvoso na Amazônia, com mais nuvens", diz Azevedo.
No registro de alertas, Mato Grosso foi o campeão. Ali se registrou maior área desmatada (23,6%) seguido de Tocantins (11,9%) e da Bahia (9,4%).
O município de Corumbá, e, Mato Grosso do Sul, ocupou o primeiro lugar no ranking, em área, dos alertas, seguido por Marcelândia, em Mato Grosso, e Balsas, no Maranhão.
O MapBiomas Alerta consegue produzir laudos de desmatamento em minutos para equipes de fiscalização. É um processo mais ágil e acurado do atual, que costuma levar, no mínimo, seis horas, indica Azevedo. Os laudos podem vir com a data da derrubada, o tamanho do desmate, onde fica e quem é o dono da propriedade. O sistema, que teve entre os principais financiadores o Instituto Arapyaú, consegue identificar até o que é corte autorizado de eucaliptos ou desmate criminoso na Mata Atlântica.
O projeto, pré-lançado há um mês em evento na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, será lançado hoje, na sede do Tribunal de Contas União, em Brasília.