O Estado de São Paulo, n. 45806, 17/03/2019. Internacional, p. A16
Nos EUA, Bolsonaro busca aliança com Trump, conservadores e empresários
Beatriz Bulla
17/03/2019
Visita oficial. Para Washington, momento é propício a uma aproximação com Brasil, em razão de afinidades ideológicas sobre Venezuela, da perspectiva liberal no campo econômico e do entusiasmo de parte do governo brasileiro com o presidente americano
O presidente Jair Bolsonaro chega hoje a Washington para a primeira visita oficial de seu governo. O objetivo do Palácio do Planalto é selar a aproximação com os EUA, iniciada antes mesmo da posse do brasileiro, especialmente com o presidente Donald Trump, com líderes conservadores e com empresários americanos.
Na reunião com Trump, de quem o brasileiro é entusiasta, Brasil e EUA pretendem sacramentar um alinhamento de valores e de políticas entre o americano e Bolsonaro – chamado de “Trump Tropical” pela imprensa internacional. O brasileiro será entrevistado amanhã pela Fox News, canal de viés conservador próximo ao governo Trump.
Apesar da proximidade ideológica e dos elogios trocados pelo Twitter, especialmente na posse do brasileiro, em janeiro, o alinhamento pode não ser automático. Em outubro, o presidente dos EUA criticou a forma com que as empresas americanas são tratadas no Brasil. “É uma beleza, eles cobram de nós o que querem. Se você perguntar a algumas das empresas, elas dizem que o Brasil está entre os países mais difíceis do mundo (para fazer negócios)”, disse Trump. Após o agravamento da crise na Venezuela, porém, os EUA encontraram no Brasil um aliado e a Casa Branca conta com o apoio brasileiro para endurecer contra o regime de Nicolás Maduro.
Os EUA reconhecem que o momento é propício a uma aproximação com Brasil, em razão de afinidades ideológicas sobre a Venezuela, à perspectiva liberal no campo econômico e ao entusiasmo de parte do governo Bolsonaro com Trump. A expectativa dos americanos é de que o Brasil continue do mesmo lado dos EUA na pressão a Maduro e, no longo prazo, ajude a diminuir a influência da China na região.
Os dois temas esbarram, no entanto, em diferentes alas do governo. Os militares já sinalizaram que há um limite no discurso sobre a Venezuela, quando o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o Brasil não apoia qualquer ação militar, enquanto os americanos enfatizam que “todas as opções estão sobre a mesa”.
Os assessores de Trump também sabem que, a despeito da retórica crítica à China adotada por Bolsonaro na campanha eleitoral, o país é o principal parceiro comercial do Brasil e o time econômico tenta achar o equilíbrio em meio à guerra comercial dos americanos com os chineses. Os governos brasileiro e americano querem mostrar com o encontro, contudo, que há uma convergência inédita não só entre Trump e Bolsonaro, mas entre os dois países.
O governo brasileiro tentará também alavancar a relação de Bolsonaro com o movimento conservador dos EUA e o diálogo com empresários e investidores, capitaneado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Caberá a este comandar as conversas com empresários, amanhã, e fazer uma exposição sobre o futuro da economia brasileira na Câmara de Comércio Brasil-EUA. No mesmo dia, Bolsonaro terá um jantar a portas fechadas com executivos de grandes empresas.
Na terça-feira, Bolsonaro e a comitiva brasileira serão recebidos na Casa Branca. O presidente brasileiro terá um encontro privado com Trump no Salão Oval e os dois farão uma declaração conjunta à imprensa no Rose Garden.
O comunicado deve mencionar a crise na Venezuela e como Brasil e EUA pretendem atuar unidos pela democracia na América Latina, fazendo uma crítica especial ao “socialismo” de Maduro. Na noite de terçafeira, o líder brasileiro jantará com ex-diplomatas e integrantes do governo americano.
Trump e Bolsonaro anunciarão medidas concretas, como o acordo de salvaguardas tecnológicas, que permite o uso comercial da base de Alcântara, no Maranhão, e falarão das perspectivas de futuro da relação bilateral. Neste último eixo se concentra o compromisso de caminhar rumo a um eventual tratado de livre-comércio.
A negociação é considerada difícil em razão de as duas economias serem concorrentes e por esbarrar no Mercosul. Por isso, o governo brasileiro aposta que o caminho é focar em acordos setoriais de facilitação de comércio e convergência regulatória. Mesmo assim, parte da agenda prevista pelo Brasil acabou frustrada. É o caso de um acordo que tenta facilitar o cadastro de exportadores e importadores de larga escala, que precisa de mais tempo para sair do papel.
A boa vontade entre os países também não destravou a pauta agropecuária: o governo americano tenta aumentar suas exportações de etanol e carne de porco, que também são produzidos no País, além do trigo. Do outro lado, o Brasil quer reabrir o mercado americano para a carne crua brasileira. O governo brasileiro já indicou aos americanos que não haverá indicação imediata sobre o etanol, mas poderia acenar com redução de barreiras no caso do trigo se obtiver uma contrapartida dos americanos.
O Brasil também não deve contar com o apoio formal dos EUA para sua candidatura a membro da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A adesão vem sendo articulada e defendida por Paulo Guedes como um selo de confiança internacional no Brasil.
Em contrapartida, como prêmio de consolação, os EUA designarão o Brasil como um aliado preferencial fora da Otan. O novo status facilitaria a transferência de tecnologia no momento em que a indústria aeroespacial brasileira tenta montar uma nova relação com os americanos, após a associação entre a Embraer e a Boeing. Em termos de prestígio, no entanto, a condição de aliado preferencial fora da Otan não acrescenta muito, visto que mais de uma dúzia de países já ganharam o mesmo status, incluindo Argentina, Egito, Tailândia, Jordânia e Tunísia.
Durante a passagem de Bolsonaro pelos EUA, serão assinados ainda memorandos em áreas como biodiversidade e inteligência no combate ao crime organizado – por isso, integram a comitiva os ministros Ricardo Salles, do Meio Ambiente, e Sérgio Moro, da Justiça.
Peter Hakim, presidente do centro de estudos Inter-American Dialogue, em Washington, aponta que há duas questões relevantes para os EUA no encontro. A primeira é a situação na Venezuela. A segunda, a diminuição da influência da China na região. “O que os EUA querem é ter o Brasil a seu lado, como aliado”, afirma. “Brasil e EUA têm sido bons amigos, não costumam ter animosidades. Mas não são bons parceiros. E países não têm amigos, eles têm interesses”, afirma Hakim.
“O Brasil está entre os países mais difíceis do mundo (para fazer negócios)”
Donald Trump, presidente dos EUA, em outubro de 2018
PARA ENTENDER
Uma relação equilibrada
Se há alguma coisa que Donald Trump não pode reclamar na reunião com Jair Bolsonaro é da relação comercial com o Brasil. Apesar das críticas, pelo menos em termos bilaterais, a balança comercial é marcada pelo equilíbrio, com ligeira vantagem americana. Em 2018, os EUA tiveram um superávit de US$ 193,7 milhões, um número baixo diante do fluxo total de US$ 57,74 bilhões em trocas entre os dois países.
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Jantar reunirá Olavo de Carvalho, Bannon e presidente brasileiro
17/03/2019
Ex-estrategista de campanha de Trump entregará a Bolsonaro um boné escrito 'Make Brazil Great Again'
No dia de sua chegada a Washington, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, participa de um jantar organizado na residência do embaixador do Brasil nos EUA, Sérgio Amaral, para o que o governo chamou de "formadores de opinião".
A lista de convidados inclui integrantes do movimento conservador americano como o ex-estrategista da campanha de 2016 de Donald Trump e agitador de governos populistas de direita no mundo, Steve Bannon, o filósofo Olavo de Carvalho, um ex-diplomata do governo George W. Bush, Roger Noriega, e Gerald Brant, integrante do mercado financeiro de Nova York e responsável por apresentar Bannon à família Bolsonaro.
A lista de convidados foi elaborada pelo chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, e pelo diplomata Nestor Forster, responsável por apresentar Araújo a Olavo de Carvalho e cotado para assumir a embaixada brasileira em Washington.
No jantar, Bannon entregará a Bolsonaro um boné verde com a frase "Make Brazil Great Again" bordada em amarelo ("Torne o Brasil grande de novo", em tradução livre).
A frase é uma adaptação do slogan usado por Trump durante sua campanha presidencial de 2016.
Evangélicos. Ainda como parte do engajamento com a sociedade civil americana, Bolsonaro se encontrará com líderes evangélicos americanos, na terça- feira, depois da reunião com Trump na Casa Branca. A aliança do presidente americano com os evangélicos conservadores foi considerada um dos pilares que elegeram Donald Trump em 2016, um caso parecido com o apoio evangélico recebido por Bolsonaro no ano passado.
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Pacto entre FBI e PF deve ser fechado
Reuters
17/03/2019
Entre os pactos que devem ser fechados na viagem do presidente Jair Bolsonaro aos EUA está um avanço na associação entre a Polícia Federal e o FBI. O acordo de cooperação interinstitucional deve permitir a troca de informações biométricas que permitirá melhorar investigações criminais.
Apesar da decisão de Bolsonaro de anunciar em Washington unilateralmente o fim da exigência de vistos para americanos, o Brasil está longe de receber a mesma cortesia. Nem mesmo o Global Entry - sistema de facilitação de entrada com o visto - deve avançar.