Título: Argentina: cartão amarelo
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Fonte: Correio Braziliense, 25/09/2012, Economia, p. 11
O país pode ser expulso do Fundo Monetário Monetário Internacional por causa da manipulação das estatísticas oficiais sobre PIB e inflação
A diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, disse ontem que a Argentina tem três meses para pôr em ordem as estatísticas oficiais e evitar um "cartão vermelho", ou seja, uma censura pública ou até mesmo uma ordem de expulsão do organismo. O motivo da advertência é a falta de credibilidade dos dados a respeito da inflação e do Produto Interno Bruto (PIB) divulgados pelo Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), cada vez mais contestados por entidades independentes, que acusam a Casa Rosada de manipular as informações. Na semana passada, em comunicado, o Fundo havia expressado "preocupação" pela falta de progresso na melhoria das estatísticas e estabeleceu prazo até 17 de dezembro para que a questão seja equacionada. Ontem, Lagarde foi mais incisiva. "Agora, eles levaram o cartão amarelo e tem três meses para evitar o vermelho", disse a dirigente.
Se não conseguir reformular o sistema oficial de dados, a Argentina corre o risco de ser o primeiro país a ser expulso do FMI nos mais de 50 anos de história do organismo. O problema não é recente, e vem se agravando. O Indec garantiu que a inflação de 2011, por exemplo, ficou em 10,5%, enquanto os organismos oficiais das províncias apontaram uma alta superior a 20% e economistas independentes chegaram a calcular uma variação de 27%.
Neste ano, a discrepância persiste. Para o Indec, a inflação acumulada nos últimos 12 meses não passa de 9,9%, contra média de 23% das principais consultorias econômicas. Em vez de melhorar o sistema oficial, a presidente, Cristina Kirchner, preferiu tapar o sol com a peneira e chegou a proibir as consultorias privadas de divulgar suas projeções, o que apenas fez aumentar a certeza de que os indicadores oficiais são distorcidos para mascarar a realidade.
Expulsão O FMI também se queixa da falta de independência do banco central para conduzir a política monetária e de barreiras para obter informações. A Argentina é o único país do G-20 que não permite que o Fundo faça revisões anuais da situação da economia nacional.
Segundo Lagarde, a alusão dos cartões amarelo e vermelho, normalmente usados pelos juízes de futebol, se refere à gradação das punições a que o país está sujeito: em um primeiro momento, proibição de acesso a empréstimos, depois ao direito de voto e, eventualmente, após vários prazos, expulsão. Até hoje, no entanto, nenhum país foi excluído do Fundo, que conta com 188 membros.
» Relação tensa
A relação entre o FMI e a Argentina é tensa desde 2003, quando Nestor Kirchner assumiu a presidência. Ao longo de seu governo, Kirchner, que morreu no ano passado, fez seguidas críticas ao Fundo, acusando-o de ser o principal responsável pela profunda crise que o país viveu entre 2001 e 2002. A partir de 2007, com a posse de sua mulher, Cristina, houve uma tentativa de reaproximação. Em março passado, contudo, o FMI fechou seus escritórios no país.