Correio braziliense, n. 20450, 18/05/2019. Economia, p. 8

 

Crise política afunda bolsa e valoriza dólar

Rosana Hessel

18/05/2019

 

 

Desconfiança em relação ao governo faz B3 ficar abaixo de 90 mil pontos, com perda de 6,6% no mês. Divisa dos Estados Unidos fecha a R$ 4,10, obrigando o BC a antecipar recompra de contratos de câmbio na próxima semana

A semana não foi boa para o mercado externo e muito menos para a Bolsa de Valores de São Paulo (B3) e para o real, em meio ao acirramento da crise política, que deixou o presidente Jair Bolsonaro em posição de bastante desconforto nos últimos dias.O aumento da desconfiança em relação ao governo fez o Índice Bovespa descolar das bolsas internacionais e ficar abaixo de 90 mil pontos ontem, inaugurando o novo piso do ano, de 89.993 pontos, com queda de 0,04%. O principal indicador da B3 registrou quedas de 4,5%, na semana, e, no mês, de 6,6%.

O dólar encerrou o dia no maior patamar em sete meses, R$ 4,10. Isso fez com que o Banco Central anunciasse uma intervenção no câmbio na próxima semana, antecipando a recompra de US$ 3,75 bilhões em contratos que venceriam apenas em 4 de junho. A incerteza com o avanço da reforma da Previdência tem feito os agentes econômicos reduzirem as previsões de crescimento econômico dia a dia.

Como resultado dessa confusão durante a semana, o valor de mercado das ações listadas na B3 tiveram uma desvalorização de R$ 160,9 bilhões desde segunda feira, conforme levantamento feito pela Economática a pedido do Correio. A Petrobras liderou o ranking de perdas. Os papéis da estatal, em uma semana, se desvalorizaram R$ 24,5 bilhões. O Banco do Brasil ficou em segundo lugar, com perda de R$ 14,8 bilhões. No acumulado do mês, o prejuízo na B3 somou R$ 229,7 bilhões.

Analistas consideram que será difícil para a B3 voltar a ficar acima de 90 mil pontos antes de a reforma da Previdência ser aprovada. Hugo Carone, analista da Ativa Investimentos, aposta que o novo piso do Ibovespa será de 84 mil pontos. Segundo ele, apesar de o cenário externo não estar muito favorável com a volta da guerra de tarifas comerciais entre Estados Unidos e China, o Brasil apresentou desempenho pior do que as demais bolsas internacionais por conta da crise interna.

“Houve uma forte piora na confiança nos últimos dias e está afetando o real e os juros. A economia está muito fraca, sem sinais de recuperação, e isso também tem afetado o humor dos operadores”, explicou. Para ele, há chances de anular os ganhos, se não houver uma melhora nos cenários externo e interno. “Os ganhos da B3 no ano, de apenas 2,4%, podem zerar e, talvez, ficar negativos nos próximos dias”, disse.

Segundo Thiago Salomão, analista da Rico Investimentos, o mercado está “bastante apreensivo”. Carone lembrou que, antes das manifestações contra os cortes na educação, os contratos de juros futuros estavam no menor nível desde março, sinalizando volta da incerteza. “A taxa dos contratos de DI para 2021 era de 6,81% anuais, na quarta-feira, e fechou a 6,99%, na sexta-feira, após passar dos 7,06% ao ano durante o dia”, afirmou.

Câmbio

O real está cada vez mais fraco ante o dólar, registrando alta de 1,56% sobre o valor de venda da véspera. A divisa norte-americana chegou a ser negociada a R$ 4,11, e, diante disso, o BC anunciou leilões de linha para a rolagem de contratos em dólar nos dias 20, 21 e 22. O volume diário é de US$ 1,25 bilhão nesse período.

“O BC resolveu intervir para evitar a volatilidade no câmbio porque o mercado estava sinalizando a intenção de levar o dólar para R$ 4,20. Mas cabe agora à autoridade monetária também se posicionar de maneira mais clara em relação à pressão que está crescendo para que os juros caiam mais”, avaliou André Perfeito, economista-chefe da Necton.

Segundo ele, o clima de incerteza deverá persistir na próxima semana. Contudo, a sinalização no fim do dia de que os deputados pretendem apresentar uma nova proposta para a reforma da Previdência é positiva para o mercado, porque dará uma certeza maior de chance de aprovação. Essa notícia, inclusive, foi bem recebida lá fora. As ações de empresas brasileiras negociadas nos Estados Unidos subiram após o fechamento dos mercados no after market.

4,5%

Queda acumulada 
do Ibovespa na semana
R$ 229,7 bilhões

Perda em valor de mercado das empresas 
listadas na B3 em maio, segundo a Economática
R$ 4,10

Valor do dólar ontem, após alta 
de 1,56% sobre a cotação da véspera
US$ 3,75 bilhões

Valor anunciado pelo BC para a recompra 
antecipada de contratos em dólar 
para três leilões na semana que vem
Guedes: “Se é para dar lucro, privatiza”

O ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou ontem que a função de um banco público como a Caixa é passar seu excesso de receita para taxas de juros menores, e não dar lucro como uma instituição privada. “Se é para dar lucro, privatiza logo. Para que eu vou ter um banco com 21 mil agências no Brasil todo para dar lucro máximo? Se for pra isso, privatiza, vende, funde com o Banco do Brasil”, disse, em discurso no 91º Enic, encontro do setor da construção, promovido pela Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), no Rio. Guedes defendeu um programa de habitação popular, sugerindo mudanças no Minha Casa Minha Vida. Também defendeu juros mais baixos para o financiamento imobiliário.

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Cautela na compra

Rafaela Gonçalves

18/05/2019

 

 

Com as férias de julho chegando e a alta do preço da moeda norte-americana, especialistas analisam as condições para quem pretende viajar para o exterior. Para quem não conseguiu cumprir a regra básica de comprar dólar aos poucos e já está com tudo pronto para embarcar, o conselho do educador e terapeuta financeiro Jônatas Bueno é comprar e evitar o mercado negro, “considerando os conflitos que podem ser gerados”.

“Quem viajará agora, nas férias no meio do ano, com certeza já tem um planejamento em andamento mas, se não comprou a quantia necessária de moeda estrangeira, não vale a pena quebrar cabeça esperando abaixar”, disse.

Para quem está iniciando o planejamento de viagem agora, Bueno aconselha ter flexibilidade. “Não vale a pena engessar muito os planos, porque você acaba gastando mais. É sempre bom ter datas e destinos flexíveis, levando em conta a volatilidade do mercado”, sugeriu.

Ele também alerta para a distribuição de gastos. “É sempre bom dividir os gastos entre dinheiro e travel money. Para quem vai optar por gastos no cartão de crédito,  a dica é, se houver a opção, fazer a cotação pelo dia da compra e não apenas no fechamento da fatura. Despesas como de hospedagem, e aluguel de carros podem ser feitas antecipadamente na internet e em real, uma maneira de fugir do IOF”, recomendou.

Com a maioria dos pacotes vendidos, o sócio-proprietário da agência de turismo Five Tour, Renan Aguiar, ainda não sentiu os efeitos da alta da moeda. “Mesmo neste momento de instabilidade, acredito que Brasília tenha um cenário um pouco distinto do restante do Brasil, devido ao funcionalismo público, que tem uma renda mais estável”, afirmou.