Título: Vingança de US$ 100 mil
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Fonte: Correio Braziliense, 23/09/2012, Mundo, p. 22

Em uma decisão polêmica, o ministro das Ferrovias do Paquistão, Ghulam Ahmad Bilour, anunciou que pagará uma recompensa a quem assassinar Nakula Besseley Nakula, o produtor do filme Innocence of muslims ("A inocência dos muçulmanos", pela tradução livre). "Eu pagarei US$ 100 mil a quem matar os produtores desse vídeo. Se alguém mais fizer outro material de blasfêmia no futuro, também pagarei a seus assassinos US$ 100 mil", disse. O trailer de 14 minutos de duração, divulgado por meio da internet, insinua que o profeta Maomé era homossexual, pedófilo e promíscuo. Cristão copta residente na Califórnia, Nakula está sob proteção policial. Sua obra desencadeou uma série de protestos pelo mundo muçulmano que deixou 52 mortos em 11 dias, inclusive o embaixador dos Estados Unidos na Líbia, Christopher Stevens. O diplomata morreu asfixiado depois de um ataque ao consulado americano, em Benghazi (leste). Na madrugada de ontem, o Exército e civis leais ao governo Trípoli ocuparam as sedes de milícias responsáveis pelo atentado à representação diplomática e as expulsaram da cidade.

Durante o anúncio da recompensa contra o autor do vídeo, o ministro Bilour conclamou todo o povo muçulmano a empreender uma caçada contra os produtores da sátira. "Peço aos irmãos talibãs e da Al-Qaeda para que se associem a essa nobre ação", disse o ministro, acrescentando que mataria Nakula com as próprias mãos se tivesse oportunidade. "E, depois, podem me enforcar", emendou. Segundo Bilour, não existe outra forma de protestar e de instigar o medo em quem insultar o profeta Maomé. "Eu apelo a esses países e digo: "Sim, a liberdade de expressão está aí, mas vocês deveriam fazer leis contra pessoas insultando nosso profeta. E se não fizerem, o futuro será extremamente perigoso."

As declarações do ministro, que pretende pagar do próprio bolso a recompensa, chocaram lideranças políticas do país, especialmente do Partido Popular do Paquistão (PPP) — aliado ao Partido Nacional Awami (ANP, pela sigla em inglês), do primeiro-ministro, Raja Pervaiz Ashraf. "Ele não é um membro do PPP, ele é um político do ANP e, portanto, o primeiro-ministro vai falar com o chefe do partido para decidir o próximo passo. Eles não descartam uma ação contra ele, mas posso dizer que ele ficará no cargo, por agora", afirmou à emissora britânica BBC Shafqat Jalil, secretário de imprensa do governo de Islamabad.

Na sexta-feira, violentos protestos sacudiram Karachi e Peshawar, matando 21 pessoas e ferindo mais de 200. Ontem, cerca de 500 militantes do grupo Jamaat-ud-Dawa também realizaram um protesto diante do consulado dos EUA, na cidade de Lahore, cantando: "Os EUA só merecem um remédio: Jihad, jihad" — termo que se refere à guerra santa. Em Rochelle, na França, a polícia prendeu um homem que publicou, em um site islâmico, um pedido pela decapitação de Stéphane Charbonnie, diretor da revista satírica Charlie Hebdo — o semanário publicou charges de Maomé nu e em poses constrangedoras.

Benghazi Na maior onda de violência desde a queda do ditador Muamar Kadafi, cerca de 11 pessoas morreram e 70 ficaram feridas ontem em confrontos entre as autoridades, alguns civis e milícias armadas, em Benghazi, segunda maior cidade da Líbia. Na sexta-feira, moradores invadiram e saquearam prédios que serviam de base de várias milícias, entre elas o grupo salafista Ansar al-Sharia, acusado do ataque terrorista que matou o embaixador americano. Ontem, foi a vez de forças do governo líbio tomarem o controle dos locais, em uma operação que deixou pelo menos seis oficiais mortos.

Aos gritos de "O sangue dos mártires não foi derramado em vão", a população furiosa marchou até os prédios, armada com pedras e paus, e conseguiu expulsar os milicianos. Os civis também forçaram a fuga de membros do Ansar Al-Sharia do Hospital Al-Jala, que era controlado pelo grupo e foi retomado pela polícia. Como poucas armas foram deixadas para trás, especula-se que as milícias soubessem de que a ação popular era iminente. "O comandante do batalhão deu ordens aos membros de esvaziar suas instalações e entregá-las ao povo de Benghazi", disse Yousef Al-Jehani, porta-voz da milícia. "Para preservar a segurança da cidade, deixamos o local", completou.

Eu pagarei US$ 100 mil a quem matar os produtores desse vídeo. Se alguém mais fizer outro material de blasfêmia no futuro, também pagarei a seus assassinos US$ 100 mil"

"Eu apelo a esses países e digo: "Sim, a liberdade de expressão está aí, mas vocês deveriam fazer leis contra pessoas insultando nosso profeta. E se não fizerem, o futuro será extremamente perigoso"

Ghulam Ahmad Bilour, ministro das Ferrovias do Paquistão