Título: Jefferson deixa a presidência do PTB
Autor: Mader, Helena ; Abreu, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 28/09/2012, Política, p. 2

Condenado por corrupção passiva, delator do mensalão pede licença médica para tratamento quimioterápico

Antes mesmo da conclusão do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal — seis ministros, ou seja a maioria, já votaram pela condenação por corrupção passiva —, Roberto Jefferson (PTB-RJ) licenciou-se da presidência do partido por um período de seis meses, cargo para o qual foi reconduzido em 19 de julho deste ano. Oficialmente, a licença é para o tratamento quimioterápico contra o câncer de pâncreas, marcado para segunda-feira. Para não perder espaço político imediatamente, colocou o atual vice, Benito Gama, como presidente interino. Mas a disputa pelo comando partidário já começou e passa, principalmente, pela bancada do Senado.

Segundo apurou o Correio, dois nomes colocaram-se, nos bastidores do PTB, como dispostos a assumir os rumos do partido daqui para frente: o líder da bancada no Senado, Gim Argello (DF), e o senador Armando Monteiro (PE), ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Os petebistas preferem manter cautela. Oficialmente, o julgamento do STF não se encerrou. Nem todos os ministros votaram no processo de corrupção passiva e Jefferson ainda está sendo analisado por lavagem de dinheiro. "É um momento inoportuno para se debater isso (a sucessão). Tem um monte de gente por aí espalhando boatos, mas eu falo sem me esconder. Não conjugo oração sem sujeito", afirmou o deputado Sílvio Costa (PTB-PE).

Gama assume a presidência do PTB de forma interina: sucessão discutida nos bastidores

A expectativa é que, com o avançar do julgamento, as bancadas do partido no Congresso se reúnam para debater o assunto. A maior parte dos deputados e senadores do partido integram o Diretório Nacional, que tem poderes para redesenhar os rumos do partido. Os parlamentares, inclusive, têm adotado posições diferentes de Jefferson nos últimos anos. Enquanto o denunciante do esquema do mensalão rompeu com o Planalto e passou a pregar a independência depois de 2005, os congressistas jamais se desgarraram do Executivo Federal.

Gim teve uma carreira meteórica no Senado. Ligado ao líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), comanda um bloco parlamentar com o PR que tem força para desequilibrar as relações políticas na Casa. Já é vice-presidente do partido e, em 2010 , ofereceu, em sua residência, um jantar em homenagem à então candidata do PT à presidência, Dilma Rousseff.

Armando Monteiro, por sua vez, traz o apoio do PIB, por ter sido ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Próximo politicamente do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PE), Monteiro comandou a aliança de seu partido com o candidato do PSB à prefeitura de Recife, Geraldo Júlio. O pessebista lidera as pesquisas de intenção de voto e deve ter como adversário em segundo turno o tucano Daniel Coelho.

Lados opostos A expectativa é de que a transição não seja tão tranquila. A própria eleição que reconduziu Jefferson à presidência da legenda foi, segundo seus aliados, planejada a longo prazo. Benito Gama não era o primeiro vice-presidente do partido. Ciente de que o julgamento do Supremo poderia dar um resultado diferente do que ele próprio imaginava, Jefferson escolheu o político baiano para ocupar sua vaga caso fosse obrigado a se licenciar.

Curiosamente, nem sempre Jefferson e Benito Gama marcharam nas mesmas fileiras. Há exatos 20 anos, ambos estavam em campos diametralmente opostos. Roberto Jefferson era líder do governo Collor na Câmara e Benito, presidente da CPI instalada no Congresso para investigar as irregularidades cometidas durante o governo do primeiro presidente eleito democraticamente após o regime militar.

A CPI, que teve Amir Lando como relator, foi fundamental para o impeachment do ex-presidente. Collor deixou o Palácio do Planalto em 29 de setembro de 1992 e o processo contra ele foi instalado no Senado no mesmo dia. O vice-presidente Itamar Franco assumiu a cadeira e, em dezembro daquele ano, Collor renunciou definitivamente ao cargo. Hoje, Collor também é filiado ao PTB e será presidido por Benito Gama.

Análise da notícia Degola partidária O processo do mensalão tem provocado uma degola nas cúpulas partidárias. Na última quarta, o Correio mostrou que a iminente condenação de Valdemar Costa Neto (PR-SP) pelo Supremo Tribunal Federal — ele já tem contra si seis votos — gerou uma corrida no partido para ocupar o espaço de poder deixado pelo parlamentar. Ainda que, na surdina, nomes como o senador Blairo Maggi (MT) e os deputados Luciano Castro (RR) e Lincoln Portela (MG) colocam-se como disponíveis para assumir a função — sem esquecer, claro, o atual presidente, senador Alfredo Nascimento (AM).

O terceiro partido não ideologicamente alinhado com o PT, mas que esteve na base de apoio do ex-presidente Lula e apoia a presidente Dilma, é o PP. A exemplo de PR e PTB, ele também tem seus réus no mensalão: o ex-líder Pedro Henry (MT) e o deputado cassado Pedro Correia (PE).

Só que o PP já fez essa transição. O atual comando partidário não tem ligação com o mensalão do governo Lula. O último remanescente do antigo grupo que comandou a legenda — mas que não estava ligada diretamente ao escândalo que solapou a gestão Lula — foi o ex-ministro das Cidades Mário Negromonte (BA). Ao deixar o cargo na Esplanada, ele tornou-se minoritário no próprio partido. (PTL)

Cronologia 14 de maio de 2005 Vídeo divulgado na imprensa mostra o ex-diretor do Departamento de Contratação e Administração de Material dos Correios Maurício Marinho recebendo uma propina de R$ 3 mil

18 de maio de 2005 Revista Veja faz uma matéria intitulada "O homem-chave do PTB", mostrando o então líder do PTB, Roberto Jefferson, como o nome por trás do escândalo na estatal

6 de junho de 2005 Roberto Jefferson dá a primeira entrevista na qual denuncia a existência do mensalão, montada pelo tesoureiro Delúbio Soares e diz que avisou o ex-presidente Lula sobre o caso. Segundo ele, Lula chorou

12 de junho de 2005 Em nova entrevista, Jefferson afirma que o esquema é abastecido por dinheiro estatal e privado. Cita como operador o publicitário Marcos Valério, e José Dirceu como chefe do esquema, ao lado do presidente do PT, José Genoino

14 de junho de 2005 Roberto Jefferson pede, no Conselho de Ética, a renúncia de Dirceu. "Sai, Zé! Sai rápido daí para não tornar réu um homem inocente", referindo-se ao então presidente Lula

30 de junho de 2005 Roberto Jefferson depõe na CPI dos Correios e denuncia a fila de parlamentares para pegar dinheiro na agência do Banco Rural, em Brasília

14 de setembro de 2005 Plenário da Câmara cassa o mandato de Roberto Jefferson: 313 votos a favor e 156 contra

11 de abril de 2006 O procurador da República Antônio Fernando de Souza denuncia os 40 réus do mensalão

22 a 27 de agosto de 2007 Supremo Tribunal Federal (STF) aceita a denúncia contra os réus

2 de abril de 2011 Relatório final da Polícia Federal confirma a existência do mensalão

20 de julho de 2012 Diagnosticado um tumor no pâncreas de Roberto Jefferson

28 de julho de 2012 Roberto Jefferson é operado para a retirada do tumor

1º de agosto de 2012 Tumor é diagnosticado como maligno

14 de setembro de 2012 Roberto Jefferson é internado novamente com dores abdominais

27 de setembro de 2012 Roberto Jefferson deixa a presidência do PTB para tratar da saúde