Título: Dilma aumenta a pressão sobre bancos
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 04/10/2012, Economia, p. 13
Presidente diz que "almoço grátis" acabou. BB e Caixa ampliam crédito e reduzem juros
O governo aumentou ontem a pressão sobre o sistema financeiro. Em entrevista publicada pelo influente diário britânico Financial Times, a presidente Dilma Rousseff afirmou que o Brasil foi o último “almoço grátis” no mundo para os bancos, referindo-se às altas taxas de juros que eles ainda cobram dos clientes. O aviso, porém, não ficou só na retórica e veio acompanhado de decisões que ampliam a presença das instituições públicas no mercado, que já vinha crescendo de maneira acentuada nos últimos meses.
A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil anunciaram medidas para impulsionar a venda de motocicletas, segmento da indústria que tem amargado retração no país. Em parceria com o PanAmericano, do qual é acionista minoritário, a Caixa vai financiar motos de até 100 cilindradas. O crédito pode ir até a 36 meses e cobrir o valor total do veículo. O BB reduziu juros e ampliou o escopo de seus empréstimos para incluir modelos a partir de 150 cilindradas. Anteriormente, a instituição financiava apenas aqueles com mais de 250 cilindradas. Os juros mínimos caíram de 1,34% para 1,28% ao mês, no caso de aquisição de motos novas ou fabricadas no ano.
Em paralelo, a Caixa reduziu o valor mínimo de aplicação e promoveu mais uma rodada de baixa nas taxas de administração dos seus fundos de investimento. Segundo a instituição, a queda nas taxas chega a 60% e deve beneficiar os clientes de menor poder aquisitivo, que normalmente ignoram os valores cobrados e acabam perdendo dinheiro. Com as taxas de juros em baixa, taxas de administração acima de 1,5% ao ano podem levar o rendimento do aplicador a ficar abaixo da inflação.
Sem volta As duas medidas dão continuidade à estratégia que os bancos públicos vêm seguindo nos últimos meses para cumprir o objetivo do governo de ampliar o crédito ao setor produtivo e reduzir as taxas de juros. Desde o primeiro trimestre, houve significativo recuo nas taxas de crédito pessoal, financiamentos de veículos, cheque especial e cartões de crédito, bem como nas linhas voltadas para empresas. BB e Caixa adotaram também uma postura agressiva para aumentar sua base de clientes, sem esconder o intuito de tomar parte das carteiras das instituições privadas.
O resultado aparece nos dados do Banco Central sobre o sistema financeiro. De setembro de 2011 a agosto passado, o volume de crédito na economia aumentou em R$ 277,9 bilhões. Os bancos públicos foram responsáveis por mais de 68% desse total, ou R$ 189,4 bilhões. Já as novas operações dos bancos privados somaram R$ 51,6 bilhões, e as instituições estrangeiras acrescentaram R$ 36,9 bilhões ao seu estoque.
Segundo o Relatório de Estabilidade Financeira, divulgado pelo BC no início da semana, a participação dos bancos públicos no mercado de crédito saltou de 43,5% para 45% no primeiro semestre, enquanto caiu de 39,2% para 38% a fatia detida pelos bancos privados. No mesmo período, os bancos estrangeiros perderam 0,3 ponto percentual de participação.
Para Dilma, a política de redução de juros não tem volta e os bancos terão que se adaptar. “Estamos retomando níveis normais de rentabilidade. Isso significa que alguns de nós precisam começar a buscar lucros adequados em atividades produtivas que sejam boas para o país”, disse ela ao Financial Times.
» Casas Bahia sob acusação
O Departamento de Proteção e Defesa do Consumidor, do Ministério da Justiça, notificou as Casas Bahia por venda casada de produtos com seguros, garantia estendida e até planos odontológicos. Segundo o órgão, o preço dos serviços era embutido na hora do pagamento das mercadorias, sem o consentimento dos clientes. A empresa tem 10 dias para esclarecer a prática, que é proibida pelo Código de Defesa do Consumidor, e pode ser multada em mais de R$ 6 milhões. A rede varejista coleciona 54 mil reclamações no Sistema Nacional de Informações de Defesa do Consumidor (Sindec). Em nota, a empresa afirmou que repudia práticas comerciais abusivas e insinua que o eventual desrespeito à lei pode ter sido iniciativa de funcionários. “Tal comportamento é passível de demissão por justa causa”, diz o texto.