Título: O tabuleiro de 2014
Autor: Rothenburg, Denise ; Cruvinel, Tereza
Fonte: Correio Braziliense, 08/10/2012, Política, p. 5

Principais ameaças à permanência do PT no Planalto, Aécio Neves e Eduardo Campos ficam fortalecidos com os resultados do primeiro turno

Vitoriosos no primeiro tur­no da sucessão presiden­cial, o senador Aécio Ne­ves (PSDB-MG) e o gover­nador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), surgem agora co­mo atores para a sucessão presi­dencial de 2014. Ambos vence­ram onde investiram seu prestí­gio pessoal nos candidatos—Aécio, em Belo Horizonte, e Eduar­do, no Recife.

Na capital mineira, os petistas viram na vitória de Marcio Lacerda (PSB) no primeiro turno contra Patrus Ananias (PT) um sinal de peri­go para a presidente Dilma Rousseff. Ali, ela trabalhou não só na montagem da chapa, como fez questão de comparecer ao palan­que. Aécio, por sua vez, foi o mentor do arco de alianças de Lacerda. Na reta final da campanha, os dois padrinhos se apresentaram. Dilma, no palanque de Patrus, atacou Aécio, que respondeu transfor­mando o encerramento da cam­panha numa disputa entre ele e Dilma. No Recife, entretanto, em­bora Humberto Costa (PT) tenha ficado em terceiro lugar, os petis­tas tentam relativizar a vitória de Geraldo Julio (PSB), deixando clara a ausência de Lula e de Dilma na campanha da capital pernambu­cana. Ou seja, evitou-se assim que fosse tratada como uma derrota de Lula ou da presidente.

Nesses próximos 20 dias, Aécio e Eduardo se mostram dispostos a percorrer o país a fim de ajudar os correligionários que concorrem ao segundo turno. Os tucanos dis­putam em sete capitais: São Paulo, João Pessoa, São Luís, Belém, Vitó­ria, Manaus e Rio Branco. Como pré-candidato a presidente já anunciado pelo PSDB, Aécio per­correrá esses municípios.

O PSB perdeu Curitiba e dispu­ta o segundo turno em Porto Ve­lho e Fortaleza, onde, se Eduardo Campos pisar, será quase como uma declaração de guerra ao PT, que também chegou ao segundo turno. Por ser governador de es­tado, Eduardo tem como descul­pa os afazeres administrativos para evitar afrontas ao PT na ca­pital cearense. Além disso, ele não pretende abrir seu jogo polí­tico desde já. Embora tenha dito que a sucessão presidencial está longe, ele faz planos. Não deseja, por exemplo, ser candidato a se­nador daqui a dois anos. Consi­dera que seria mais um, perden­do assim a chance de apresentar realizações ao eleitor quando fos­se candidato a presidente. Daí, o fato de ser apresentado como um pré-candidato a presidente.

Seara paulistana

O segundo turno paulista trará definições complementares e não menos importantes para fechar o tabuleiro de 2014. Se o vitorioso for Serra, o PSDB manterá a hege­monia na cidade mais rica e mais populosa, impedindo os planos de conquista do PT. Serra, chama­do de fujão por ter deixado a pre­feitura em 2010 para disputar a presidência, dificilmente faria is­so de novo, mas terá voz ativa na definição da estratégia tucana pa­ra 2014. Já a derrota selará o ocaso de sua carreira e seria um grande revés para o partido. O eventual fracasso de Haddad será atribuí­do a Lula, que bancou a candida­tura e se jogou na campanha, mas, considerando a situação ini­cial de Haddad, o fato de ter che­gado ao segundo turno pode ame­nizar o impacto de um resultado negativo para o PT.

A força que o PT ou o PSDB podem acumular em São Paulo é crucial para os projetos futuros. O PSB também joga suas apostas ali. O atual prefeito da cidade, Gilberto Kassab (PSD), aliado de Serra, é visto como um potencial candidato a vice numa chapa presidencial encabeçada por Eduardo Campos, a quem consi­dera parceiro político do futuro. Uma vitória de Serra poderia recolocar Kassab nessa posição.

Quem também sai com peso nesse primeiro turno é o PMDB. Seu maior trunfo, nas capitais, foi a reeleição, com a maior votação, do prefeito do Rio, Eduardo Paes — que também se credenciou a no­vos voos, como o governo do esta­do. Mas o partido terá um ativo importante: o grande número de prefeituras conquistadas em todo o país. Prefeitos são puxadores de votos numa eleição presidencial, e grandes eleitores de deputados fe­derais e senadores, fundamentais para a sustentação política do pre­sidente eleito. Esta é uma das fon­tes do poder do PMDB, que nunca deixou de estar no governo, embo­ra não tenha eleito nenhum presi­dente depois de Tancredo Neves, na transição. Pelos resultados co­lhidos, o partido deve querer de Dilma bem mais que a Vice-Presi­dência em 2014 e o comando das duas casas do Congresso. Vai que­rer mais espaço no governo, e não pretende esperar 2014 para pedir mais pastas no Esplanada.

PT, PSDB, PMDB e PSB são os partidos que, em função da elei­ção, vão mover as peças do tabu­leiro. Os demais tendem a conti­nuar como coadjuvantes. O DEM, em seu contínuo enfraquecimen­to, continuará aliados dos tuca­nos, assim como o PPS. O mesmo vale para os partidos da vasta e heterogênea base governista, que tendem a continuar apoiando o governo e a reeleição de Dilma em 2014. O jogo está começando. No segundo turno, se inicia com o formidável confronto entre tuca­nos e petistas em São Paulo.