O Estado de São Paulo, n. 45902, 21/06/2019. Política, p. A4

 

Em marcha evangélica, Bolsonaro admite reeleição

Gilberto Amendola

Fabio Leite

21/06/2019

 

 

 

Campanha. Em cidade onde passou infância, presidente sugere candidatura. Em ato, recebe apoio de religiosos e diz: “Se o povo quiser, estamos aí para continuar mais 4 anos'

O presidente Jair Bolsonaro admitiu ontem a possibilidade de disputar um novo mandato em 2022, contrariando seu discurso de campanha, quando defendeu o fim da reeleição. “Se não tiver uma boa reforma política e se o povo quiser, estamos aí para continuar mais quatro anos”, disse o presidente após participar da Marcha para Jesus, evento evangélico realizado na zona norte da capital paulista. Foi a primeira vez, desde que foi eleito, que ele falou sobre o tema de forma explícita.

Mais cedo, durante agenda em Eldorado, no interior de São Paulo, Bolsonaro já havia indicado a intenção de concorrer novamente ao Palácio do Planalto. “Meu muito obrigado a quem votou e a quem não votou em mim. Lá na frente, todos votarão, tenho certeza”, afirmou o presidente a moradores da cidade onde foi criado. “Eu quero mudar o Brasil juntamente com vocês”, continuou. O presidente esteve em Eldorado para visitar a mãe e familiares.

No encontro evangélico, na capital paulista, o presidente foi apresentado pela bispa Sonia Hernandes e pelo apóstolo Estevam Hernandes, da Igreja Renascer em Cristo, organizadores da marcha. Recebido no palco do evento entre vaias tímidas e gritos de “mito” pelo público que acompanhava a maratona de shows de música gospel, Bolsonaro ouviu de líderes evangélicos o desejo para que fique oito anos na Presidência.

Questionado depois por jornalistas, o presidente vinculou uma eventual candidatura à reforma política. “Se tiver uma boa reforma política, eu posso até, nesse caldeirão, jogar fora a possibilidade de reeleição. Posso fazer isso aí. Agora, se não tiver, estamos aí para continuar”, declarou.

Bolsonaro foi o primeiro presidente a participar da Marcha para Jesus, que ocorre em São Paulo há 27 anos e reúne milhares de pessoas, de várias denominações. Um aliado próximo disse acreditar que Bolsonaro “se lançou” ontem à reeleição para estreitar laços com esse público e ter, nesse eleitorado, o esteio de sua popularidade. Entre alguns líderes evangélicos, há, ainda, a expectativa de o presidente atrair um vice desse segmento em um eventual novo mandato.

‘Decisivos’. Acompanhado do deputado Marco Feliciano (Podemos-SP), do senador Major Olimpio (PSL-SP) e do prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), Bolsonaro fez, em seu discurso, diversas menções a Deus, repetiu que, “embora o Estado seja laico, é cristão” e agradeceu o apoio dos evangélicos ao governo. “Quem achava que sucumbiríamos logo no início perdeu. Porque nós temos a verdade e um povo maravilhoso ao nosso lado, que são vocês”, disse. “Vocês foram decisivos para mudar os destinos dessa Pátria maravilhosa chamada Brasil”, declarou, acenando à plateia.

No palco, afirmou ainda. “É muito bom estar entre amigos. Melhor ainda quando são amigos com Deus no coração.” “Primeiro Deus, depois a família respeitada e tradicional acima de tudo. Eu agradeço a Deus primeiro por estar vivo.” Bolsonaro disse também que seu governo pode ser um “ponto de inflexão”, diante do fato de que o Brasil “tem problema de ética, moral e econômico”.

Ministério. O presidente também foi questionado sobre a demissão do general Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo e os vazamentos de conversas atribuídas ao ministro da Justiça, Sérgio Moro, quando ele era o juiz responsável pela Lava Jato. Bolsonaro afirmou que a saída de Santos Cruz é “página virada” e voltou a defender Moro. “Sérgio Moro é patrimônio nacional. O País foi saqueado. Ele fez um excelente trabalho.”/ 

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Governo vive 'show de besteiras', diz Santos Cruz

Paulo Roberto Netto

Paula Reverbel

21/06/2019

 

 

Em entrevista a revista, ex-ministro afirma que Planalto perde tempo com ‘fofocagem’ e não prioriza ações relevantes

O general Carlos Alberto dos Santos Cruz, demitido na semana passada da Secretaria de Governo da Presidência da República, disse em entrevista à revista Época que a gestão Bolsonaro perde tempo com “bobagens” e “fofocagem” quando deveria dar prioridade a ações relevantes do governo para o País.

“Se você fizer uma análise das bobagens que se tem vivido, é um negócio impressionante. É um show de besteiras. Isso tira o foco daquilo que é importante”, disse Santos Cruz. “Tem muita besteira. Tem muita coisa importante que acaba não aparecendo porque todo dia tem uma bobagem ou outra para distrair a população, tirando a atenção das coisas importantes.”

Sem mencionar nomes, Santos Cruz afirmou que “essas brigas por Twitter” não são o que interessa para o Brasil e que o País “não pode continuar discutindo esse nivelzinho de coisa”. “O que acontece é que os recursos todos de tecnologia estão fazendo muita gente esquecer que a melhor maneira de você se comunicar, principalmente entre pessoas públicas, não é de maneira pública. É pessoalmente.”

Ataques. Santos Cruz foi substituído pelo general Luiz Eduardo Ramos. Antes da demissão, havia sido alvo de ataques dos filhos do presidente e de Olavo de Carvalho, guru do governo.

Apesar do relacionamento de longa data com Bolsonaro, Santos Cruz disse que “não tem chance de cultivar essa amizade” com o presidente. “Ele está no governo como presidente da República. Não tem nem oportunidade de que isso seja cultivado porque a pessoa está em outras atribuições que tomam muito a vida da pessoa. Deixa governar. Tomara que dê tudo certo.”

Por fim, declarou que não perguntou a razão da demissão. “A partir da hora que decidiu, não vou ficar gastando tempo para discutir o porquê. É mais uma obrigação da pessoa explicar. Não é só direito meu saber, como é obrigação da pessoa explicar. Ele não explicou.”