Valor econômico, v.20, n.4857, 14/10/2019. Internacional, p. A13

 

Crise desidrata ainda mais a indústria da Argetina 

Marina Guimarães 

Marsilea Gombata

14/10/2019

 

 

A mais recente crise na balança de pagamentos da Argentina derrubou a economia numa acentuada recessão que está desidratando ainda mais o setor produtivo do país, em especial as indústrias automobilística, de maquinário e têxtil. A combinação de inflação de dois dígitos com forte desvalorização do peso trouxe incerteza para as empresas, com algumas optando por transferir parte da produção para fora do país, enquanto outras estão paradas à espera de detalhes sobre o plano econômico do próximo governo.

O presidente Mauricio Macri tomou posse no fim de 2015 prometendo investimentos para revitalizar o setor produtivo do país. Contudo, o saldo até agora de seus quatro anos de governo é o fechamento de ao menos 5 mil fábricas. A Argentina deve chegar ao fim de 2019 com 50 mil fábricas, segundo a União Industrial Argentina (UIA). Neste período, entre 140 mil e 150 mil postos de trabalho na indústria desapareceram.

“Somente 2019 representa a perda de 40% do total de empregos e cerca de 50% do fechamento de indústrias”, disse o diretor do Centro de Estudos Econômicos da UIA, Pablo Dragún.

Com o agravamento da crise a partir de agosto, a Argentina deve encerrar o ano com uma contração do PIB de até 3% este ano, após uma queda de 2,5% no ano passado. O colapso na atividade industrial pode ser ainda maior, de 5%, depois de uma queda de 4,3% no ano passado, segundo a UIA.

De janeiro a julho, a produção industrial argentina caiu 8,4% em comparação com igual período de 2018, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos. Entre os setores mais atingidos pela crise estão o automobilísitico, com queda acumulada de 26,3% no período, o de maquinária (-14,3%), e a têxtil e de calçados (-13%).

Dois fatores principais estão por trás disso, diz Livio Ribeiro, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV). “O primeiro é um megachoque de preços relativos na Argentina, onde houve depreciação importante da taxa de câmbio e aceleração da inflação. Segundo, o país está em um momento de desorganização da estrutura social, com aumento da pobreza e indigência”, diz. “Para um produtor, que pensa em produzir por um tempo razoável, este é um momento particularmente ruim porque o nível de incerteza é grande.”

A tendência, afirma Ribeiro, é a Argentina se voltar cada vez mais para setores nos quais tem vantagem competitiva, como petróleo, alimentos processados e carne. O automotivo, que está integrado a cadeias produtivas do Mercosul, deve continuar, apesar da queda da atividade e a transferência de linhas para países como Brasil.

A Honda, por exemplo, anunciou em agosto encerramento da produção de automóveis na Argentina, deixando no país apenas a fabricação de motos.

A MWM Engines também fechou a fábrica de motores em Córdoba e transferiu suas operações para do Brasil. No comunicado ao mercado, a companhia afirmou que, “apesar de várias iniciativas para impulsionar a produção de motores e componentes, (...) a continuidade das operações da companhia se tornou inviável devido aos baixos volumes para satisfazer a demanda do mercado local”.

Mas a indústria automotiva argentina ainda vê alguma perspectiva no futuro, diz o diretor da Associação de Fabricantes de Automotores (Adefa), Fernando Canedo. “Acabamos de prorrogar um acordo com o Brasil até 2029 e muitas empresas estão em processo de desenvolvimento de investimentos em segmentos complementares à indústria brasileira.”

Na Argentina são fabricadas as pick up Nissan Frontier e a nova da Renault na fábrica de Córdoba. A Volkswagen monta a SUV Tarok na planta de Pacheco, e a General Motors produzirá SUV em Rosário. “Estamos em plena execução de investimentos de US$ 5 bilhões até o próximo ano para exibir ao mercado em 2021”, disse Canedo.

Empresas fornecedoras de material para a construção civil também sentem a crise que começou em 2018 como a gota d’água depois de anos de um contexto macroeconômico com mais baixos do que altos. A situação piorou desde setembro do ano passado. O índice de atividade do setor de construção chegou a apontar uma contração de 20,6% em dezembro sobre igual mês do ano anterior. O dado mais recente, de agosto, mostra uma queda anual de 5,9%.

A empresa Loma Negra, filial da Camargo Corrêa, anunciou em agosto o fechamento de uma de suas fábricas, de Sierras Bayas, na província de Buenos Aires. A companhia informou que a unidade estava operando com ociosidade e requeria investimentos. O consumo de cimento na Argentina caiu 6,5% em agosto, comparado com igual período de 2018, segundo Instituto de Estatística e Registro da Indústria da Construção.

O cenário para as pequenas e médias empresas tampouco é favorável. Segundo Vicente Donato, diretor excecutivo da Fundação Observatório Pyme (Pequenas e Médias Empresas), 1 mil indústrias deste porte fecharam neste ano e outras seis mil estão ameaçadas por condições como falta de crédito e alta pressão tributária.

Uma das dificuldades que as empresas enfrentam na Argentina é a falta de financiamento, um problema que sucessivos governos não têm conseguido resolver. Sem crédito, as empresas não têm como investir. Também pesa sobre a atividade produtiva a elevada carga tributária, taxas de juros proibitivas e uma moeda fraca que encarece a importação de insumos. Soma-se a isso a inflação anual de quase 60%, que reduziu ainda mais o poder de compra do argentino.

Apesar do ambiente desafiador, Miguel Acevedo, presidente da UIA, diz que é um erro pensar que a Argentina ficará com meia dúzia de setores produzindo. “Nossa indústria é produtiva. Uma vez estabilizado o problema de macroeconomia do país, ela vai melhorar.”

Embora a crise atual seja profunda, a indústria local já passou por outros momentos difíceis e tende a se recuperar quando o pior ficar para trás, afirma Bernard Kosacoff, economista das universidades de Buenos Aires e Torcuato Di Tella. “Já estamos calejados”, brincou. “Fato é que há uma enorme lista de projetos de investimentos, liderado por Vaca Muerta, mas também no setor automotivo, esperando o fim da transição política para ser retomada.”

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Setores de calçados e têxtil estão entre os mais atingidos 

Marina Guimarães 

Marsilea Gombata 

14/10/2019

 

 

Um dos mais recentes é o da fabricante local de balões de água da marca Bombucha. Depois de 66 anos produzindo o brinquedo que foi um ícone nos verões de adultos e crianças, a Companhia Industrial de Artigos de Látex (Cidal) anunciou o fim de suas atividades na semana passada, em decorrência da queda das vendas e dos altos custos de produção.

Localizada na província de San Luis, além dos balões de água e de aniversário, a Cidal produz preservativos com a marca Exotic e foi a primeira na América Latina a produzir este produto de látex. Segundo o mercado, a empresa tem dívidas de salários, contribuições sociais e seguros de seus 65 empregados. A maioria de seus insumos é importada. Com a desvalorização do peso, a companhia teve de aplicar um aumento de 36% nos preços de seus produtos, desde o início do ano. De janeiro a agosto, a venda de preservativos caiu 8% na comparação com 2018.

No setor têxtil, uma grande fabricante de produtos da marca Nike na Argentina - subsidiária do grupo brasileiro Dass - anunciou a demissão de 400 dos 600 empregados que possui na fábrica instalada na província de Misiones. A empresa já avisou que pagará as indenizações até 25 de outubro. Segundo o Sindicato de Calçados, como a unidade monta os tênis com materiais importados, a queda das vendas mais a disparada do dólar tornou a continuidade das operações inviável.

Segundo a Confederação Argentina da Média Empresa (Came), as vendas de calçados caíram 22,3% em agosto, em comparação com o mesmo mês de 2018. A fábrica da Nike chegou a ter 1.300 trabalhadores para a produção de 22 mil pares de tênis por dia. Hoje produz 9.500 pares diários.

Nos últimos quatro anos o setor fechou 10 mil postos de trabalho, segundo o sindicato. No período, deixaram de operar as seguintes empresas: Paquetá, fabricante da marca Adidas, Extreme Gear e TecnoSport latino-americana, também fornecedora da Nike.

As marcas internacionais de jeans, como a Lee e Wrangler, da holding VF Corportation, também abandonaram a Argentina. Cerca de 30 lojas no país realizaram megaliquidações para zerar o estoque e fechar as portas. A Alpagartas, fabricante de calçados e têxteis, decidiu abandonar a produção têxtil em Catamarca e ficar somente com a unidade de produção em Tucumán - onde produz as marcas Mizuno, Havaianas e Topper. O índice de atividade do setor de produtos têxteis acumula queda de 15,7%, de janeiro a julho, em comparação com o mesmo período de 2018. O de produção de peças de roupa, couro e calçados acumula queda de 11,7% no mesmo período.

No setor de papel e celulose, a americana Kimberly-Clark anunciou no mês passado que deixará de fabricar lencinhos de papel, papel higiênico, papel toalha e guardanapo na Argentina para se concentrar na produção de fraldas.

“A crise só não é maior porque muitos dos empresários que hoje mantêm suas portas abertas estão pondo capital do próprio bolso para não fechar”, diz Vicente Lourenzo, da Came. “Há setores muitos prejudicados, que se fossem esperar para se manter com a baixa receita que recebem e o aumento explosivo dos custos, teriam de dar baixa nas operações.”