O globo, n.31397, 24/07/2019. Economia, p. 20

 

Venezuela vive 'implosão econômica', diz FMI 

24/07/2019

 

 

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma “implosão” da economia da Venezuela, com contração de 35% este ano, bem mais profunda do que o estimado anteriormente, segundo o relatório Panorama Econômico Mundial, divulgado ontem. Em abril, o organismo projetava tombo de 25%.

De acordo com o relatório do Fundo, no início do ano, a atividade econômica “desacelerou significativamente” em vários países da América Latina, sendo a Venezuela o caso mais dramático. “A profunda crise humanitária e a implosão econômica na Venezuela continuam tendo um impacto devastador, e prevê-se que a economia se contraia cerca de 35% em 2019”, afirmou o FMI.

Mergulhada em uma crise política e humanitária, com escassez de alimentos e serviços básicos levando ao êxodo da população, a Venezuela sofre um colapso de sua economia, agravado pelas sanções dos Estados Unidos e pelos apagões que vêm paralisando o país nos últimos meses.

A inflação venezuelana atingiu patamares inimagináveis. Para este ano, o FMI projeta um índice de 10.000.000%, contra 929.000% no ano passado.

PESO NA AMÉRICA LATINA

Para a América Latina, o FMI espera um crescimento de 0,6% este ano, menos da metade do 1,4% estimado em abril. Para 2020, a projeção passou de crescimento de 2,4% para 2,3%. O maior impacto para a região, segundo o FMI, vem do México e do Brasil, cujas estimativas também foram revisadas para baixo.

A projeção de crescimento do Brasil este ano foi reduzida amenos da metade, de 2,1% para 0,8%. Apesar da forte redução, a previsão, agora, está em linha com as do mercado. O último boletim Focus, apurado pelo Banco Central junto a economistas de instituições financeiras, prevê crescimento de 0,82%.

Para 2020, o Fundo estima que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresça 2,4%, contra 2,5% previsto em abril. Segundo o FMI, “a confiança enfraqueceu consideravelmente,à medida que persiste a incerteza sobre a aprovação da reforma da Previdência e outras reformas estruturais.”

A reforma da Previdência foi aprovada em primeiro turno na Câmara dos Deputados no dia 13, com impacto fiscal de cerca de R$ 900 bilhões. O projeto precisa do aval dos deputados em segundo turno e ainda terá de passar no Senado.

O relatório foi elaborado antes do anúncio de medidas de estímulo como a liberação de recursos do FGTS, que deve ser detalhada hoje.

No mundo, a economia ainda avança lentamente, afirma o FMI, especialmente devido à guerra comercial entre Estados Unidos e China, com as respectivas retaliações nas tarifas sobre produtos. Segundo o relatório, “cadeias de suprimentos globais foram ameaçadas pela perspectiva de sanções americanas.”

Outro fator de incerteza na economia é a questão da saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit. Há ainda o petróleo, ressalta o documento: “tensões geopolíticas causaram turbulências nos preços do setor de energia.”

Assim, o crescimento global projetado para este ano é de 3,2%, ficando em 3,5% em 2020— um aqueda de 0,1 ponto percentual nos dois casos.

COMÉRCIO E CLIMA

O relatório cita ainda a inflação baixa, tanto nos países ricos como nas economias emergentes — à exceção de Argentina, Turquia e Venezuela. Os preços controlados, aponta o FMI, permitem uma política monetária mais acomodativa. Há expectativa de que os EUA reduzam sua taxa básica de juros na semana que vem, e mesmo no Brasil espera-se um corte.

O Fundo, no entanto, ressalta que, nos emergentes, “a política fiscal deveria concentrar-se em reduzir o endividamento, mas, ao mesmo tempo, dar prioridade às necessidades de gastos sociais e de infraestrutura”, em lugar de “subsídios mal direcionados”.

De acordo com o Fundo, as estimativas divulgadas até agora apontam uma atividade global mais fraca que o previsto, com empresas e famílias evitando gastos de longo prazo. O relatório cita ainda o aquecimento global como “uma ameaça” para a saúde e a atividade econômica mundial. E alerta que são necessárias ações nacionais e multilaterais para reduzir as tensões comerciais e, assim, fortalecer o crescimento global.