O globo, n.31393, 20/07/2019. País, p. 08
Bolsonaro usa informações falsas para atacar Míriam Leitão
20/07/2019
Em café da manhã com jornalistas da imprensa estrangeira, na manhã de ontem, o presidente Jair Bolsonaro usou informações falsas para atacar a colunista do GLOBO Míriam Leitão. Ele afirmou que a jornalista integrou a luta armada contra a ditadura militar instalada no país em 1964 e dirigia-se à guerrilha do Araguaia quando foi presa, na década de 1970. Disse ainda que Míriam mente ao afirmar que sofreu abusos e foi torturada na prisão. Na última terça-feira, a 13ª Feira do Livro de Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, anunciou ter cancelado a participação da jornalista e de seu marido, o sociólogo Sérgio Abranches, “para garantir a segurança dos convidados” no evento, após receberem uma petição de repúdio à presença deles devido a seu “viés ideológico e posicionamento”. A exclusão da jornalista e do sociólogo da feira literária repercutiu na sociedade civil. O episódio foi tratado como intolerância. Na entrevista de ontem, ao ser questionado sobre o episódio da feira, Bolsonaro se disse “completamente aberto à liberdade de imprensa”. Em seguida, acrescentou que Míriam Leitão deveria aprender a receber críticas — como ele, sustentou o presidente, teria aprendido. E, de forma equivocada, afirmou que a jornalista “tentou impor a ditadura no Brasil na luta armada”.
— Ela estava indo para a guerrilha do Araguaia quando foi presa em Vitória. E depois (Míriam) conta um drama todo, mentiroso, que teria sido torturada, sofreu abuso etc. Mentira. Mentira — disse Bolsonaro aos correspondentes de veículos estrangeiros. Bolsonaro disse ainda que Míriam serve a um “império” que não tem mais “aquela força que tinha no passado”, em referência à mídia tradicional, que pratica jornalismo profissional. E, com o celular na mão, o presidente exaltou o que chamou de “mídia completamente livre”, em referência às redes sociais.
Em 1972, Míriam Leitão era, aos 19 anos, estudante universitária e militante do PCdoB, atuando no Espírito Santo. Suas atividades consistiam em reuniões, distribuição de panfletos e propaganda contra a ditadura militar instalada no país em 1964, após golpe de Estado. Durante sua militância, Míriam não integrou nem cogitou integrar a guerrilha do Araguaia.
— Não estava indo para a guerrilha do Araguaia. Nunca fiz qualquer ação armada —afirma a colunista. Míriam foi presa em 3 de dezembro de 1972 quando ia para a praia com o então companheiro e levada para o 38º Batalhão de Infantaria do Exército, instalado no Forte de Piratininga, em Vila Velha, cidade vizinha a Vitória. Lá, grávida, foi torturada por diversos métodos e ficou encarcerada por três meses. Em 1973, no Rio, Míriam Leitão prestou depoimento à Primeira Auditoria da Aeronáutica, onde foi julgada. Grávida então de sete meses, ela denunciou a brutalidade a qual foi submetida, mesmo correndo riscos.
— Narrei a tortura aos militares e ao juiz auditor, que fez constar nos autos um trecho do relato. Fui absolvida (das acusações) em todas as instâncias — afirmou Míriam Leitão, que, apesar da legislação após a redemocratização permitir, nunca pediu indenização pela perseguição política, a prisão e a tortura por agentes do Estado brasileiro.
NOTA DO GRUPO GLOBO
Em 2014, O GLOBO publicou extenso depoimento de Míriam Leitão sobre sua prisão e tortura no 38º Batalhão de Infantaria do Exército.
O Grupo Globo divulgou nota sobre as declarações de Bolsonaro: “As afirmações do presidente causam profunda indignação e merecem absoluto repúdio. Em defesa da verdade histórica e da honra da jornalista Míriam Leitão, é preciso dizer com todas as letras que não é a jornalista quem mente. Míriam Leitão nunca participou ou quis participar da luta armada. À época militante do PCdoB, Míriam atuou em atividades de propaganda. Ela foi presa e torturada, grávida, aos 19 anos, quando estava detida no 38º Batalhão de Infantaria em Vitória. No auge da ditadura de 1964, em 1973, Míriam denunciou a tortura perante a primeira auditoria da Aeronáutica, no Rio — enfrentando todos os riscos que isso representava na época. Narrou seu sofrimento aos militares e ao juiz auditor — e esse relato consta dos autos para quem quiser pesquisar. A jornalista foi julgada e absolvida de todas as acusações formuladas contra ela pela ditadura. A absolvição se deu em todas as instâncias. É importante ressaltar que Míriam Leitão, ao longo dos governos do Partido dos Trabalhadores, foi também alvo constante de ataques. Não questionaram, como agora, o sofrimento por que passou na ditadura. Mas a ofenderam em sua honra pessoal e profissional. Em discursos do expresidente Lula em palanques e até mesmo a bordo de avião de carreira quando Míriam Leitão ouviu insultos e ofensas por parte de militantes petistas, que então a chamavam de neoliberal e direitista.
Esses insultos, no passado como agora, em sinais trocados, apenas demonstram a maior das virtudes de Míriam como profissional: a independência em relação a governos, sejam de esquerda ou de direita ou de qualquer tipo. A Globo aplaude essa independência, pedra de toque do jornalismo profissional. E se solidariza com Míriam Leitão. Uma solidariedade compartilhada por nós, seus colegas da TV Globo, da rádio CBN e do jornal O GLOBO”.