Título: Capriles aposta na classe média
Autor: Luna, Thais de
Fonte: Correio Braziliense, 07/10/2012, Mundo, p. 24
Uma classe média cansada da violência, que torna a Venezuela o quarto país com a maior taxa de homicídios da América do Sul, é a reserva de votos com que Henrique Capriles conta para destronar o chavismo. Nos últimos três meses, o candidato da oposição visitou mais de 300 localidades para apresentar suas ideias de um governo que priorize a segurança, mas também educação, saúde, moradia e geração de empregos. Em resposta à acusação de que ele acabaria com as “misiones”, Capriles garante que continuará a investir nos programas de assistência aos mais pobres, aos jovens, às mulheres e aos idosos.
Em entrevista ao Correio, durante a campanha, o candidato afirmou que pretende ampliar o plano Fome Zero, “que nos tem permitido combater a pobreza extrema”. No palanque, porém, atacou intensamente Chávez por querer “levar sua revolução ao mundo”, em vez de preocupar-se com os apagões e o desemprego no próprio país.
Para Pastor, a característica mais interessante desta eleição é o fato de que os dois candidatos não confiam um no outro e têm dúvidas se o adversário aceitará o resultado do pleito, mas, ainda assim, continuaram em campanha até o último dia. “Se os dois achassem que a votação seria fraudada, não continuariam indo às ruas. Eles confiam no sistema eleitoral”, avaliou. Peng Wang, especialista em América Latina pela Academia Chinesa de Ciências Sociais, assume que o que mais lhe chamou a atenção foi a popularidade intensa de Chávez entre as classes sociais mais baixas, após tantos anos de governo. “Isso significa que a Venezuela precisa de um líder forte, como Chávez, para fazê-la atravessar um longo processo de mudança a fim de atender à demanda dos pobres”, avalia. O processo em questão seria a “revolução bolivariana”, declarada pelo mandatário nos primeiros anos de presidência. Marcado por diferenças sociais históricas, o país é hoje o menos desigual da América Latina, de acordo com as Nações Unidas.
Apesar dos esforços da oposição, o analista George Ciccariello-Maher, professor de ciências políticas da Universidade Drexel (EUA), acredita que Chávez deve vencer o pleito com margem de até 15 pontos percentuais. “Se isso acontecer, será um evento que diz algo poderoso sobre o processo da ‘revolução bolivariana’. Em circunstâncias normais, as pessoas se cansam dos líderes após um certo tempo no poder, e candidatos jovens e enérgicos são capazes de derrubar o antecessor”, analisou. A situação da Venezuela, porém, é distinta. “Nesse caso, um velho político, que sofreu de um câncer que o debilitou, continua capaz de derrotar um rosto novo para o público.”