Título: Nunca foi tão difícil para Hugo Chávez
Autor: Luna, Thais de
Fonte: Correio Braziliense, 07/10/2012, Mundo, p. 24
Ao fim de três mandatos seguidos, presidente luta até o último dia para preservar sua "Crevolução bolivariana"
Pela primeira vez desde que se elegeu presidente da Venezuela, em 1998, Hugo Chávez viu neste ano sua supremacia nas urnas correr risco. Primeiro foi um câncer na região pélvica, detectado em 2011 — e que, segundo o líder bolivariano, foi curado a tempo da campanha para mais uma reeleição. Hoje, quando cerca de 19 milhões de venezuelanos vão às urnas, a interrogação para Chávez é o bom desempenho, na campanha e nas pesquisas, do candidato da oposição, Henrique Capriles Radonski. Ex-governador do estado de Miranda, ele foi escolhido em fevereiro, em uma prévia, com 62,2% das preferências. Capriles pode surpreender, embora a maioria dos institutos dê vantagem clara ao presidente nas intenções de voto. Por isso, Chávez lutou por votos até a reta final, exaltando seus projetos sociais e acenando com a ameaça de que o país pode entrar em “guerra” caso ele tenha de deixar o Palácio de Miraflores.
Depois de uma sucessão de equívocos que facilitaram a vida do presidente nas eleições anteriores, a oposição conseguiu unir-se em torno de Capriles e chega ao dia da votação motivada pela chance real de acabar com a supremacia chavista. Ao todo, seis candidatos disputam a presidência, mas Chávez e Capriles dominam as pesquisas de opinião e as atenções da mídia. Juntos, detêm entre 84% e 92,2% das preferências. O processo eleitoral é acompanhado de perto pela comunidade internacional, ainda mais interessada no desenrolar da votação na Venezuela desde que o país ingressou no Mercosul, em julho. Observadores da Unasul estarão hoje nos locais de votação.
Devido à presença da nação bolivariana no bloco, ao fim de uma prolongada tramitação pela qual Chávez batalhou desde 2006, os líderes sul-americanos estão curiosos para saber com quem terão de negociar nos próximos anos. Especialistas ouvidos pelo Correio concordam que Capriles e os partidos que o apoiam conquistaram um grande trunfo ao colocarem o chefe de Estado diante da ameaça real de perder. Os analistas, no entanto, são unânimes na avaliação de que Chávez terá mais seis anos no governo.
Discurso do medo
Ao longo da campanha, consciente de que estava diante do maior desafio de sua carreira política, o mandatário recorreu ao discurso do medo a fim de minar as chances do adversário. “Se Chávez não vencer, haverá uma guerra civil”, bradou o mandatário diversas vezes, referindo-se a si mesmo em terceira pessoa. Ele repetiu com insistência que Capriles esconde um “pacote neoliberal” que desestabilizaria o país e acabaria com os programas sociais nos quais o presidente baseia seu “socialismo do século 21”.
O chefe de Estado também recorreu aos programas sociais (as “misiones”) desenvolvidos nos últimos 13 anos para angariar votos. Nas últimas semanas, o Ministério de Indústria e Comércio aumentou a venda de eletrodomésticos do projeto “Minha casa bem equipada” — produtos de origem chinesa, que podem ser comprados com 30% a 60% de desconto. Sob a promessa de que nos próximos seis anos pretende dar moradia a toda a população, Chávez lembrou da implementação do “Mi casa, mi vida”, versão venezuelana do programa brasileiro Minha casa, minha vida, “exportado” para a Venezuela com assessoria da Caixa Econômica Federal, a partir de acordos firmados entre os dois governos.