Correio braziliense, n. 20484, 21/06/2019. Política, p. 3

 

Procuradora foi excluída de caso

Renato Souza

21/06/2019

 

 

Poder » Ex-juiz e ministro da Justiça, Sérgio Moro, durante condução de processo penal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, demonstrou insatisfação com o desempenho de Laura Tessler no o julgamento e orientou procuradores a afastá-la

Um novo trecho de conversas trocadas entre procuradores da Lava-Jato, revela que o coordenador da força-tarefa da operação no Paraná, Deltan Dallagnol, atuou para afastar a procuradora Laura Tessler do julgamento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. De acordo com os diálogos, revelados pela rádio BandNews, Dallagnol agiu a pedido do ministro da Justiça, Sérgio Moro, na época em que ele era juiz da 13ª Vara Federal de Curitiba. Moro teria criticado o desempenho de Laura durante as audiências, o que resultou em mudanças na escolha da equipe.

A conversa foi lida pelo jornalista Reinaldo Azevedo, que lembrou de outro trecho divulgado no dia 10 de junho, em que Moro supostamente criticou o desempenho da procuradora Laura Tessler durante uma audiência do caso Lula, em 2017. Em sabatina na Comissão de Constituição e Justiça do Senado (CCJ), Moro afirmou que não se recordava de ter conversado algo do tipo com Dallagnol, mas que se a orientação com relação à procuradora tiver ocorrido, “não tem nada de anormal”.

Durante as conversas, Deltan encaminhou a mensagem de Moro com a orientação para o afastamento de Laura ao procurador Carlos Fernando Santos Lima, destacando que o assunto teria de ficar em sigilo e que ele deveria verificar se o aplicativo Telegram, por onde conversavam, não estava aberto em algum computador. “Não comenta com ninguém e me assegura que teu telegram não tá aberto aí no computador e que outras pessoas não estão vendo por aí, que falo (Sic)”, escreveu Dallagnol.

Em seguida, os dois procuradores teriam combinado uma mudança na escala, para interferir na equipe de acusação que estaria presente em uma audiência do caso do petista. “Vamos ver como está a escala e, talvez, sugerir que vão dois, e fazer uma reunião sobre estratégia de inquirição, sem mencionar ela”, completou Deltan, de acordo com a reportagem. Carlos responde: “Por isso, tinha sugerido que Júlio ou Robinho fossem também. No do Lula, não podemos deixar acontecer”.

Factoide

De acordo com a BandNews, na audiência seguinte as conversas, em maio de 2017, Laura não estava mais no júri do ex-presidente Lula. No Senado, ao responder uma pergunta de Nelsinho Trade (PSD-MS), Moro negou ter atuado para afastar qualquer integrante do Ministério Público nos casos em que julgou na Lava-Jato.

“Senador, pelo teor das mensagens, se elas forem autênticas, não tem nada de anormal nessas comunicações. O exemplo que Vossa Excelência colocou é o claro exemplo de um factoide. Eu não me recordo especificamente dessa mensagem, mas o que consta no caso divulgado pelo site é uma referência de que determinado procurador da República não tinha o desempenho muito bom em audiência e para dar uns conselhos para melhorar. Em nenhum momento no texto, há alguma solicitação de substituição daquela pessoa. Tanto que essa pessoa continua e continuou realizando audiências e atos processuais, até hoje, dentro da operação Lava-Jato (…). Se aconteceu, de fato, não tem nada de ilícito. Não estou comandando a força-tarefa da Lava-Jato”, disse Moro.

Em nota, divulgada na noite de ontem, o Ministério da Justiça informou que Sérgio Moro “não reconhece a autenticidade da mensagem”, que, de acordo com a pasta, já havia “sido divulgada na semana passada, não havendo nada de novo”. Além disso, nega que ocorra contradição com o que foi dito aos senadores. “Cabe esclarecer que o texto atribuído ao ministro fala por si, não havendo qualquer solicitação de substituição da procuradora, que continuou participando de audiências nos processos e atuando na Operação Lava-Jato”, informa um trecho da manifestação do ministério.

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Viagem para os EUA

21/06/2019

 

 

 

 

Em meio à crise provocada pela publicação de mensagens relacionadas à sua atuação como juiz da Lava-Jato, o ministro Sérgio Moro vai viajar aos Estados Unidos. Ele deixará o Brasil amanhã e deve voltar apenas na próxima quinta-feira, 27, um dia depois de a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) analisar um pedido de liberdade do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A defesa do petista alega que Moro agiu parcialmente durante o processo do cliente, o que tornariam nulos todos os atos da ação penal.

Em solo norte-americano, Moro vai passar pela região de El Paso, no estado do Texas, na fronteira com o México, e pela capital, Washington. O ministro avalia ações que podem ser repetidas aqui na área de fronteiras, com o objetivo de combater o narcotráfico e o contrabando de armas.

Em uma mudança inesperada na agenda, Moro cancelou sua participação no congresso da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A decisão ocorreu no mesmo dia em que a entidade criticou ataques dele ao jornalista Glenn Greenwald. Durante sabatina no Senado, Moro disse que o site The Intercept se aliou com criminosos, em referência à suposta origem do vazamento de conversas que ele manteve com integrantes do Ministério Público Federal do Paraná. O evento está previsto para ocorrer entre 27 e 29 de julho, em São Paulo. (RS)