Título: Round para Obama
Autor: Queiroz, Silvio ; Tranches, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 17/10/2012, Mundo, p. 16
Inicisivo e seguro como não soube ser no primeiro confronto, presidente coloca o adversário na defensiva em um debate travado na intimidade com a audiência
Foi um Barack Obama determinado a lutar pelo segundo mandato que surpreendeu e dominou o candidato da oposição republicana, Mitt Romney, no segundo debate da campanha para a eleição presidencial de 6 de novembro. Ao contrário do primeiro confronto, quando foi colocado desde o início na defensiva, na noite de ontem o presidente engajou-se no debate sobre a crise econômica e questionou repetidamente as bandeiras do adversário, responsabilizando a política dos governos republicanos anteriores pela “mais séria crise desde a Grande Depressão”.
Obama e Romney subiram ao palco da Universidade Hofstra, em Hempstead (Nova York), às 21h (22h em Brasília), e desde os cumprimentos a linguagem corporal mostrava que não apenas o cenário havia mudado. Diferentemente do primeiro confronto, no qual dividiram o espaço apenas com o mediador, ontem os candidatos estavam face a face com 82 eleitores indecisos do estado de Nova York selecionados para fazer as perguntas. Esse formato mostrou-se convidativo para um presidente conhecido pela empatia com o público. A ponto de permitir que ele aproveitasse as considerações finais para lembrar a declaração do adversário sobre os “47%” dos americanos que, segundo Romney, seriam “dependentes do governo”.
“A receita dele simplesmente não vai funcionar”, disparou Obama na crítica discussão sobre a criação de empregos e a política de impostos, temas nos quais Romney surfou com desenvoltura no debate do último dia 3. “Ele não tem um plano de cinco pontos, é um ponto só, que é assegurar que os de cima joguem com um conjunto diferente de regras: façam lucros maiores, criem empregos fora e ganhem isenções fiscais.” O republicano encaixou algumas frases de impacto ao longo dos 90 minutos de confronto, como quando questionou o retrospecto dos quatro anos de governo democrata. “Uma economia com 7,8% de desemprego não é uma economia forte”, atacou Romney. Já na parte final, o desafiante forçou novamente a comparação com um governante que teria “dobrado o deficit”: “Eu sei equilibrar um orçamento. Fiz isso a vida toda, como empresário e como governador”.
Aparentando incômodo diante de um adversário incisivo, à vontade em um formato no qual os candidatos respondiam diretamente a perguntas da audiência, Romney discutiu repetidamente com a mediadora Candy Crowley, da rede americana CNN. “Vamos falar sobre os últimos quatro anos”, insistiu. Quando desafiado por Obama a explicar como faria para “criar 12 milhões de empregos em quatro anos”, como afirmou, o republicano prometeu “simplificar o sistema tributário para que a classe média pague menos, as pequenas empresas paguem menos e assim possam criar empregos. Os 5% de rendas mais altas não vão pagar menos”, afirmou Romney.
Na resposta, Obama retomou a linha de ataque tentada sem sucesso no primeiro confronto, alegando que os incentivos fiscais delineados pelo adversário resultariam em deficit. “O custo das isenções propostas por ele é de US$ 5 trilhões. Ele quer gastar mais US$ 2 trilhões com os militares. Ele não sabe dizer como vai cobrir isso”, contra-atacou o presidente. Em seguida, dirigiu-se à audiência: “Vocês é que vão pagar”.
Troféu de guerra
A abertura para questões de política externa no confronto também acabou servindo ao propósito do presidente de virar o jogo após a derrota no primeiro debate. Ainda quando a discussão girava em torno da economia, Obama invocou a execução de Osama bin Laden como exemplo de promessa cumprida.
A tentativa de Romney de retomar a ofensiva na resposta a uma pergunta sobre a possível falha de segurança que teria favorecido o ataque terrorista no qual foi morto o embaixador americano na Líbia acabou se revelando um tiro no pé. Além de ter sido desmentido pela mediadora, o republicano permitiu a Obama mencionar uma vez mais seu maior troféu de guerra — Bin Laden — para afirmar sua determinação de punir os responsáveis. “Uma das coisas que tenho dito no meu mandato é: quem se mete com americanos vai ter que responder por isso. E eles (os inimigos) sabem que eu falo sério”, afirmou, em tom presidencial, para em seguida censurar o adversário: “Não se faz política com a segurança nacional”.
"O custo das isenções propostas por ele é de US$ 5 trilhões. Ele quer gastar mais US$ 2 trilhões com os militares. Ele não sabe dizer como vai cobrir isso” Barack Obama
"Uma economia com 7,8% de desemprego não é uma economia forte. (…) Eu sei como equilibrar um orçamento. Fiz isso a vida toda, como empresário e governador” Mitt Romney
Liderança no voto antecipado
Antes de enfrentar Mitt Romney na Universidade Hofstra, o presidente Barack Obama havia marcado dois pontos na acirrada corrida pela Casa Branca. A primeira boa notícia veio da Suprema Corte, que acatou um pedido da equipe democrata e bloqueou as tentativas dos republicanos de suspender o voto antecipado em Ohio no fim de semana que antecede a noite da eleições, na terça-feira 6 de novembro. Obama, que lidera as preferência dos eleitores adiantados, pôde também comemorar um novo sinal de recuperação nas pesquisas de intenção de votos, depois de amargar uma queda quase contínua desde o primeiro debate, no último dia 3.
Segundo a sondagem diária Reuters/Ipsos, divulgada algumas horas antes do confronto pela tevê, o presidente subiu pelo terceiro dia consecutivo e abriu vantagem de três pontos percentuais sobre Romney: 46% a 43%. Uma projeção feita pelo instituto com base nas preferências estado por estado indicou que Obama teria 259 votos garantidos no Colégio Eleitoral que escolhe o presidente dos EUA — são necessários 270 para vencer. Os estados que pendem para o lado democrata somam mais 27 delegados. Pela mesma pesquisa, o desafiante republicano teria 191 votos eleitorais garantidos e 61 prováveis.
A pesquisa Ipsos/Reuters também ouviu eleitores que votaram por antecipação, um total estimado em aproximadamente 10% dos entrevistados. Segundo o instituto, 59% dos que já foram às urnas declararam ter votado em Obama e 39%, em Romney. O voto antecipado tende a favorecer o presidente, segundo alguns analistas: a mudança de local de votação pode prejudicar eleitores das minorias, entre os quais Obama conta com amplo apoio. A dificuldade de locomoção pode empurrar vários desses eleitores para a abstenção, já que o voto não é obrigatório nos EUA.
A decisão da Suprema Corte, que negou os pedidos republicanos para suspender o voto antecipado em Ohio no fim de semana anterior à eleição, foi especialmente comemorado pelos democratas em um dos estados mais importantes entre os que continuam indefinidos. A equipe de Romney pretendia restringir o privilégio aos militares, mas a corte entendeu que a norma cabe ao estado e tem de valer para todos os eleitores. As autoridades de Ohio decidiram manter os locais de votação abertos até a véspera da eleição.
A campanha democrata havia argumentado que a permissão aos eleitores para que exerçam o direito no fim de semana é essencial para os pobres e as minorias. “Essa ação do mais alto tribunal do país marca o fim da estrada em nossa luta para garantir votação aberta este ano para todos os cidadãos de Ohio, incluindo militares, veteranos e os eleitores no exterior”, comemorou o comitê de Obama. Com 18 delegados no Colégio Eleitoral, o estado é um dos mais cobiçados entre os chamados “swing states”. (RT)
69% Total de eleitores que anteciparam o voto e declararam ter escolhido Barack Obama. Os que já votaram correspondem a 10% dos ouvidos em uma pesquisa de intenções de voto Ipsos/Reuters