Título: Pesadelo revivido
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 20/10/2012, Mundo, p. 22

No primeiro atentado desde 2008, em Beirute, explosão de carro-bomba mata alta autoridade de segurança do país e mais sete pessoas. Ex-premiê culpa o ditador sírio, Bashar Al-Assad

A Rua Ibrahim Mozer, situada no bairro cristão de Ashafriyeh, no coração de Beirute, transformou-se ontem num amontoado de escombros e de pedaços de automóveis calcinados, e teve os prédios literalmente rasgados pela explosão. Por volta das 14h50 (8h50 em Brasília), um carro-bomba estacionado e recheado com 30kg de trinitroglicerina (TNT) foi pelos ares, no momento em que passava pelo local o comboio com a Mercedes do brigadeiro-general Wissam Al-Hassan, chefe do serviço de inteligência das Forças de Segurança Interna (FSI) no Líbano. Al-Hassan, 47 anos, e seu motorista Ahmad Mahmud Suhyuni, 48, morreram na hora. O primeiro atentado a atingir a capital libanesa desde 2008 deixou mais seis mortos, 78 feridos e já ameaça causar um conflito sectário e político.

A oposição recomendou ao governo liderado pela milícia xiita Hezbollah que entregue o poder. “Pedimos a este governo que saia e a seu chefe, que renuncie imediatamente, já que sua permanência oferece proteção e cobertura aos criminosos deste complô”, avisou Ahmad Hariri, porta-voz da oposição, depois de reunião convocada com urgência. “O primeiro-ministro Najib Mikai assume a responsabilidade pelo sangue derramado.”

O engenheiro biomédico Ahmad (ele prefere omitir o sobrenome), de 23 anos, afirmou ao Correio que escutou ao longe o barulho da explosão. “Eu estava a 8km, ou 10 minutos do local do ataque. Vi vários membros das forças de segurança, soldados do Exército e a Cruz Vermelha. Corri até lá, reuni amigos e fomos doar sangue para os feridos”, relatou, pela internet. “O departamento comandado por Sam Hassan tinha revelado a presença de espiões de Israel e da Síria no Líbano. Sua morte vai satisfazer Telavive e Damasco”, comentou.

“O culpado pelo assassinato de Wissam Al-Hassan é tão claro quanto a luz do dia e eu, Saad Hariri, prometo não permanecer silencioso sobre o crime”, afirmou o ex-premiê do Líbano, em entrevista à Future Television. Perguntado sobre quem acusava, Saad foi enfático. “Bashar Hafez Al-Assad”, afirmou, referindo-se ao ditador da Síria. Saad é filho do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, morto num ataque similar em 14 de fevereiro de 1995.

Antes mesmo de Saad apontar o dedo para Al-Assad, o regime sírio tinha condenado o ataque, chamando-o de “covarde” e “terrorista”. “Esses atentados são injustificáveis, ocorram onde ocorrem”, disse o ministro da Informação da Síria, Omran Al-Zohbi, citado pela agência de notícias estatal Sana. O líder do Partido Socialista Progressista, deputado Walid Jumblatt, também acusou Damasco. “Al-Assad destruiu a Síria e quer destruir o Líbano”, afirmou à rede de tevê Al-Jazeera.

Dois fatos fortaleceriam as suspeitas de Jumblatt e de Saad. A explosão ocorreu a 200m da sede do Phalange, partido cristão contrário a Al-Assad. Al-Hassan era um sunita ligado a Saad Hariri e à coalizão 14 de Março, anti-Síria e contrário ao Hezbollah, que apoiava rebeldes dentro do território sírio. “Ele descobriu um grande complô para desestabilizar o Líbano, com a ‘impressão digital’ de Damasco”, explicou ao Correio, por e-mail, Habib C. Malik, professor de história da Universidade Americana Libanesa (em Byblos, a 38km de Beirute).

O especialista reconhece que o atentado relembra os assassinatos seletivos, que vitimaram personalidades contrárias à Síria, e vê uma possível estratégia de desviar o foco da guerra civil no país vizinho. “O recente uso de um drone (avião espião) não tripulado para investigar as defesas aéreas de Israel mostra uma vontade do Hezbollah e do Irã de explorar métodos para aliviar a pressão decorrente do banho de sangue na Síria, dirigindo a atenção para a arena regional. Tais tentativas, assim como as escaramuças na fronteira turco-síria, não produziram resultados. A explosão em Beirute pode ser outra experiência nesse sentido”, comentou Malik.

Condolências

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil afirmou que o governo “tomou conhecimento com consternação do atentado”. “Ao manifestar seu pesar e solidariedade às famílias das vítimas, o Brasil reitera sua condenação a todo e qualquer ato de terrorismo”, conclui a nota do Itamaraty. O Conselho de Segurança da ONU “condenou firmemente” o ataque e instou os libaneses a “insistirem com a unidade nacional”.

Uma liderança controversa Uma das figuras mais respeitadas entre os sunitas do Líbano, o brigadeiro-general Wissam Al-Hassan era o chefe do serviço de inteligência das Forças de Segurança Interna (FSI), onde não desempenhava um papel político. No entanto, era um ator-chave no bloco da oposição 14 de Março. Nascido em Trípoli, em 1965, passou boa parte da carreira com a tarefa de cuidar da segurança do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri. Chegou a ser considerado suspeito da morte do chefe, em 2005, por ter faltado ao trabalho no dia do atentado. No entanto, o inquérito aberto pela ONU para apurar o crime acabou por inocentá-lo e por condenar quatro membros da milícia xiita pró-Síria Hezbollah. O próprio A-Hassan coordenou uma investigação sobre a morte de Rafiq e implicou os sírios. Também foi ele quem determinou a captura do ex-ministro da Informação Michel Samaha, acusado de posse de explosivos e de conspiração para alvejar líderes sunitas que apoiam a oposição na Síria.

Luta por trégua

O enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi, chegou ontem a Damasco, determinado a obter um cessar-fogo entre as forças insurgentes e os soldados leais ao regime do ditador sírio, Bashar Al-Assad. O conflito já ultrapassa um ano e meio e deixou mais de mil mortos na última semana.

O diplomata argelino foi recebido no aeroporto da capital pelo vice-ministro das Relações Exteriores do país, Faisal Muqdad. Hoje, Brahimi tem encontro marcado com o chanceler sírio, Walid Muallem.

Apesar da relativa calma nas cidades de Maaret al-Nooman e de Aleppo, o dia na Síria foi mais uma vez marcado por conflitos. Segundo um jornalista da agência France-Presse, a aviação atacou uma área rebelde no norte do país com bombas de fragmentação, tipo de armamento banido pelas convenções internacionais. Enquanto isso, rebeldes cercavam a cidade com picapes, abrindo fogo a cada passagem dos aviões. “Pouco importa se vamos morrer, mas devemos derrubar esses aviões”, afirmou um insurgente, enquanto manuseava uma metralhadora antiaérea.

De acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, apenas ontem 54 pessoas morreram em toda a Síria — desde o início do conflito, em 15 de março de 2011, já são 34 mil mortas. Também ontem, a artilharia turca respondeu à queda de dois morteiros sírios em território turco, em um ataque que não deixou vítimas, mas reforçou o momento de tensão entre os dois países.

Esforços

Em sua chegada ao país, Lahkdar Brahimi conversou com o seu representante em Damasco, Moukhtar Lamani, encarregado dos contatos com as tropas insurgentes. Depois de se encontrar com Muallem, o emissário também deve se reunir com Al-Assad, em uma data ainda não especificada. O mediador espera que as negociações do cessar-fogo deem início a um “processo político”, cujo objetivo é encontrar uma saída para a guerra civil.

Para os especialistas, no entanto, o acordo de não agressão entre opositores e pró-regime não deve durar muito tempo. “Podemos ter uma trégua de alguns dias com fins humanitários, trégua que o regime estaria mais interessado em aplicar porque está em uma situação ruim no plano militar”, afirmou à France-Presse Thomas Pierret, especialista em Síria e professor da Universidade de Edimburgo. “Mas, para que o cessar-fogo dure, é preciso haver uma solução política. No momento, isso me parece impossível”, completou.

"Para que o cessar-fogo dure, é preciso haver uma solução política” Thomas Pierret, especialista em Síria e professor da Universidade de Edimburgo