Correio braziliense, n. 20492, 29/06/2019. Economia, p. 9

 

Resta só o trabalho duro

29/06/2019

 

 

São Gabriel da Cachoeira (AM) — Enquanto, silenciosamente, o caldeirão de forças políticas de São Gabriel da Cachoeira ferve, a população, alheia aos possíveis resultados do processo, faz a única coisa ao seu alcance para garantir o sustento. Trabalha diuturnamente, muitas vezes em mais de uma atividade, para comprar o peixe, que pode chegar a R$ 50 o quilo, e frango, a R$ 8, e quitar as contas no fim do mês. O terceiro maior município do país tem, em sua área urbana às margens do Rio Negro, são-gabrielenses tenazes, forjados sob o malho das grandes distâncias do Brasil.

O comércio é a principal atividade para quem não serve ao Exército ou não integra o funcionalismo público. Há outras profissões, como piloto de barco, por exemplo. O transporte fluvial é a única alternativa acessível para a maioria da população chegar ou deixar a localidade. A outra é o transporte aéreo, da Força Aérea Brasileira (FAB) ou de pequenas empresas, às vezes, usado em situações de emergência.

É assim que o real, enfraquecido em comparação à época em que chegou ao município, serpenteando pelas águas do Rio Negro, circula entre caixas, contas e carteiras. Para se ter uma ideia, há 25 anos, em junho de 1994, o guaraná amazonense, que leva o mesmo nome da nossa moeda, passou de Cr$ 2,5 mil a garrafa para R$ 1. Hoje, custa R$ 6. O diesel, um dos produtos mais requisitados na região, saiu de cerca de R$ 0,64, em 1999, para R$ 3,58, preço mais recente, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo.

Uma das dificuldades da região é o valor do frete, que aumenta o preço dos produtos tanto para quem revende quanto para quem compra. Nessa lida, plantar e produzir no município virou solução para fugir das taxas das embarcações e aumentar o lucro. Essa foi a saída encontrada por Joel Lino Ricardo, 58, da etnia Baré, e a mulher, Celeste Agda Garrido, 56, da etnia Baniwa. O casal produz artesanato típico, planta banana e faz farinha de mandioca. Eles vendem tudo na feira municipal. “Trabalhar com uma horta é uma forma de conseguir um dinheiro a mais. Assim, tiramos o preço cheio. Alimentar bem a família (três filhas e duas netas) custa R$ 100 por dia”, conta Celeste.

Em outro ponto da cidade, Eugênio Bruno Bivardo, 32 anos, da etnia Baniwa, tem uma pequena venda com prateleiras praticamente vazias e geladeiras desligadas. O que ganha por mês não o permite fazer estoques. Para conseguir um extra, monta móveis e também faz uma pequena roça com a mulher, Celeste Macedo Paiva, 32 anos, da etnia Baré. O casal tem três filhos e é beneficiário do Bolsa Família. “Esses últimos anos foram devagar. Para pagar as contas, temos que trabalhar fora da loja, fazer farinha de mandioca e beiju. O Bolsa Família ajuda, pois também temos os gastos com o estudo dos filhos”, lembra.

Sempre os fretes
Diferentemente de Joel e Celeste, quem trabalha com produtos industrializados não tem como escapar do valor do frete das embarcações. A estratégia para atrair os clientes, nesse caso, é diversificar. Quem afirma é Andreia Almeida, 37 anos. Natural de Presidente Prudente (SP), ela trabalha em uma loja de artigos para decoração, festas e também material escolar, e está na região acompanhando o marido, que é militar. “Aqui, as pessoas querem fazer todas as compras em um só lugar. Quanto mais diversificado for, melhor. Já perdi uma venda de material escolar, pois faltava um único item. Eles até pagam mais se tiverem essa comodidade”, comenta.

Natural de Belém do Brejo da Cruz (PB), Osnildo Ferreira de Souza, 56, mais conhecido como Capibaribe, é comerciante conhecido na região. Dono de três estabelecimentos de roupas, sapatos e perfumes, ele conta que, nos últimos anos, as vendas caíram e ele reduziu o número de funcionários. “Apostei na diversificação do produto. Mesmo assim, as lojas mais novas, de roupas de criança e de calçado, estão desacelerando. Não estou devendo para o banco, mas devo a alguns fornecedores”, admite.

Depois que o real chegou à região e o preço do ouro congelou, ficou mais fácil combater o garimpo. Antes praticado abertamente, o trabalho encarecia o mercado com ouro. A FAB ainda sobrevoa a região em missões de reconhecimento, em busca de focos da atividade ilegal. Conversando com comerciantes, é fácil ouvir relatos de exploradores em busca do minério. Mas, ressaltam, os faiscadores “não ficam mais na região”. “Se embrenham pelos matos”, ou então, “estão no Pico da Neblina”.

Açougueiro, Rildo Diomedes, 42 anos, veio de Monte Alegre do Pará (PA) para tentar a sorte. Na terra-natal, ele diz, o custo de vida é baixo, mas a renda também é menor que a de São Gabriel da Cachoeira. Para vender a carne fresca, Rildo compra o boi que vem vivo de Manaus e é abatido no município. Parte de seus clientes são, justamente, os caçadores de ouro. “O comércio está devagar, mas vendo muito para garimpeiros. Sempre de passagem, eles compram a carne para salgar. Dessa forma, passam dias na mata”, relata. (LC)

Aqui, as pessoas querem fazer todas as compras em um só lugar. Quanto mais diversificado for, melhor. Já perdi uma venda de material escolar, pois faltava um único item”

Andreia, comerciante

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Crise de representatividade

 

 

 

 

 

29/06/2019

 

 


Braz de Oliveira França, da etnia Baré, é liderança indígena em São Gabriel da Cachoeira

“Aqui na região, as mudanças começaram muito antes do Plano Real, com a colonização, sempre vitimando as propriedades indígenas. O que ocorre de 1990 para cá é uma consequência da primeira invasão. A relação dos brancos com os indígenas mudaram, mas o massacre continua, só que de forma diferente. Na lei, na burocracia, na caneta. Em 1994, veio o Plano Real. Mas foi apenas uma questão monetária. Para as comunidades indígenas, que não tinham renda, não ocorreram tantas mudanças.

Houve facilidade de acesso ao produto industrializado, que se popularizou. Mas a produção do índio, artesanal, se manteve. Vendida a preço baixo e revendida a preços muito altos. Em São Gabriel da Cachoeira, economicamente, a situação está estagnada. O que uma família produz, ela vende no comércio. Isso dá um fluxo para a receita familiar. Socialmente, lutamos por uma assistência na saúde. Tínhamos conseguido, mas, a partir de 2010, ficou impraticável por não se tratar de política de Estado, mas de partido. A educação, também.

Politicamente, há um distanciamento da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) com as bases. Vários políticos, prefeitos e vereadores saíram da associação. Mas quando chegam lá, se transformam. Esquecem-se daqui. Assim, queimamos nossas lideranças na relação com as bases. Mas não podemos ser taxativos. O indígena também pode ser doutor, comerciante. Pode usar sua inteligência para progredir. Isso está ligado ao capitalismo. Se ele se forma, vai caçar emprego. Mas ele se isola da comunidade e para de defender o interesse coletivo. Agora, é o interesse de classe. Ele pertencerá à comunidade, mas não será mais liderança.”

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E a fervura continua

29/06/2019

 

 

 

Uma das reclamações que o presidente da Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn) mais escuta é de que a associação se distanciou das bases — as etnias dispersas por todo o município. Marivelton Barroso, Baré, tem um caminho delicado pela frente. Precisa promover uma reaproximação se quiser proteger a tradição e garantir o desenvolvimento das comunidades rio-negrinas. Tem de orientar e cobrar do governo a criação de políticas públicas de educação e saúde adequados à linguagem e a cultura dos povos.

Com a disputa por protagonismo entre lideranças indígenas tradicionais — representada de um lado pela Foirn e, de outro, pelos cooperativistas, mais jovens e, em sua maioria, partidários de Jair Bolsonaro —, qualquer erro do lado da federação a distanciará dos rivais. Isso porque Marivelton não encontra respaldo no governo para as ações, o que enfraquece a associação. “O município precisa buscar políticas públicas voltadas para o risco social, como droga e alcoolismo, e isso não tem acontecido. Fizemos um plano diretor para a cidade, discutido com as comunidades há 10 anos, e nunca foi implementado. Falta prioridade”, queixa-se.

Do outro lado, José Lucas Lemos Duarte, da etnia Tukano, garante representar 14 comunidades. Ele não é o único na luta para criar uma cooperativa de extrativismo na região, e ecoa o discurso de Bolsonaro, de que as comunidades não querem “atravessadores” — no caso, as ONGs e a Foirn — na hora de dialogar com o governo. “Não estamos felizes, pois não somos protagonistas das nossas políticas públicas. Nos últimos cinco anos, sofremos transição alimentar. Comíamos muito mais da natureza. Agora, é comida industrializada. O índio pega sete dias de barco para receber o Bolsa Família. Está na hora de buscarmos um caminho de independência”, diz. A saída, na visão de Lucas, seria a Cooperativa Indígena de Extrativismo de Recursos Naturais e Minerais e organizações semelhantes. Embora os partidários da ideia falem muito de minérios, incluindo o nióbio, ele garante que não se trata somente de escavar terras indígenas demarcadas.

A reportagem procurou, no município e por telefone, o prefeito Clóvis Saldanha, para que ele comentasse a ausência de políticas públicas e as disputas políticas da região. Mesmo com mais de uma semana de prazo, a equipe do Correio não obteve uma resposta. (LC)