Título: Vale o desempate
Autor: Tanches , Renata
Fonte: Correio Braziliense, 22/10/2012, Mundo, p. 12
Depois de uma vitória para cada lado, Barack Obama e Mitt Romney voltam a enfrentar-se nesta noite, na tevê, em um debate que pode definir a sorte da eleição presidencial do próximo dia 6. O presidente americano sobe ao palco em Boca Raton, na Flórida, com um trunfo: o tema central, a política externa, está a seu favor. Já o desafiante republicano pode beneficiar-se do formato: candidato contra candidato, o mesmo do primeiro confronto, no qual Romney se saiu nitidamente melhor do que Obama.
Analistas ouvidos pelo Correio apostam que os candidatos continuarão na ofensiva e sob grande pressão por um bom desempenho, mas ponderam que mais agressividade, como observado no último debate, tende a ser prejudicial para ambos. A escolha do local ajudará a captar a atenção dos eleitores desse “swing state” que, ao lado dos demais, estimados entre oito e 12, é duramente disputado pelos candidatos.
Apesar das tentativas da campanha republicana para ganhar terreno em política externa e segurança nacional, analistas são unânimes na aposta de que o presidente mostrará mais domínio sobre o tema. “Por qualquer medida, a política externa e de segurança nacional de Obama tem sido bem-sucedida”, opina o professor e analista político Robert Watson, da Universidade Lynn, anfitriã do debate em Boca Raton. Autor de uma extensa bibliografia sobre o assunto, Watson avalia que Obama, em seu mandato, foi duro quando precisou: matou o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, e eliminou outras peças importantes da rede terrorista. Por outro lado, ao encerrar a guerra no Iraque e engajar os Estados Unidos com a comunidade internacional, colocou em posição mais confortável a diplomacia norte-americana “prejudicada sob o governo Bush”.
Ao candidato republicano, que não pode exibir um retrospecto no tema, caberá criticar o adversário. Nesse esforço, Romney e seu candidato a vice, Paul Ryan, têm se dedicado a responsabilizar o governo por falhas de segurança no episódio em que o consulado de Benghazi (Líbia) foi atacado por terroristas, que mataram o embaixador americano, Chris Stevens. Na última semana, a secretária de Estado Hillary Clinton concedeu entrevistas chamando para si a culpa pelo incidente, ocorrido na emblemática data de 11 de setembro. A estratégia foi tentar livrar o presidente de ataques no segundo debate.
Ataques
Romney invocou o atentado, mas terminou censurado por Obama, que o advertiu a “não politizar a segurança nacional” e assumiu “toda a responsabilidade” pela condução da resposta ao ataque — e ainda aproveitou para destacar a execução de Bin Laden. Para Watson, o presidente e seu vice, Joe Biden, têm levado vantagem nesse terreno. “Se quiser continuar fazendo política com o incidente, Romney precisará encontrar um ângulo de ataque diferente”, pondera.
Na avaliação de David Steinberg, diretor de Debates da Escola de Comunicação da Universidade de Miami, também na Flórida, Romney está atrás no que diz respeito a Benghazi desde o dia do episódio, quando fez acusações ao governo antes mesmo de a Casa Branca ter se pronunciado oficialmente. “Esses ataques surgem agora como jogada política”, analisa. Steinberg acredita que tanto o caso de Benghazi como a caçada à Al-Qaeda são pontos positivos que o presidente ressaltará.
Mas, se o teor da discussão favorece Obama, a forma pode ajudar a Romney. O debate da Flórida seguirá o mesmo formato do primeiro, com os candidatos em bancadas, respondendo a perguntas do mediador, o jornalista do canal CBS Bob Schieffer. Serão 90 minutos divididos em seis segmentos de igual duração para tratar de tópicos selecionados pelo moderador. O candidato terá dois minutos para responder a cada questão e, em seguida, o jornalista conduzirá a discussão. No debate da semana passada, eleitores indecisos faziam perguntas aos participantes e alguns analistas avaliaram que o formato pareceu mais favorável a um confortável presidente, que saiu vencedor.
Segundo Watson, Romney se desenvolve melhor “em uma bancada, fazendo discurso” e Obama tende a ser “muito professoral” nesse formato. “Obama se sai melhor interagindo com as pessoas. Permanecer sentado em uma mesa limita seu carisma natural.” De qualquer maneira, para os especialistas, o tom muito agressivo desta vez não ajudará nenhum dos candidatos. Para Steinberg, uma postura assertiva é muito mais influente e persuasiva. “O tom que ambos deveriam se esforçar em alcançar é aquele que exala competência e confiança”, opinou.
Se Obama foi criticado no primeiro duelo por ser passivo demais, Romney recebeu censura por ter partido para o ataque exageradamente, interrompendo a fala do oponente e até mesmo da moderadora, por diversas vezes. “Nos dois debates, Romney apareceu como o chefe de uma grande corporação que ninguém gostaria de ter, ou seja, aquele que demitirá os funcionários.”