Correio braziliense, n. 20495, 02/07/2019. Mundo, p. 14

 

Irã viola acordo

Rodrigo Craveiro

02/07/2019

 

 

Crise nuclear » Teerã supera o limite de 300kg de urânio enriquecido autorizado pelo documento firmado em 2015 com EUA, Rússia, Alemanha, China, França e Reino Unido. Agência Internacional de Energia Atômica confirma transgressão a cláusula do pacto

O ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, se recusou a admitir que Teerã violou o chamado Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA, pela sigla em inglês) — o acordo nuclear firmado em 14 de julho de 2015 com Estados Unidos, China, França, Rússia, Alemanha e Reino Unido. “Nós não violamos o JCPOA. O parágrafo 36 do acordo explica o motivo: nós recorremos à exaustão a ele após a saída dos EUA (do pacto). Demos ao E3+2 (grupo formado pelos demais signatários) algumas semanas, enquanto nos reservamos em nosso direito. Finalmente, tomamos uma atitude após 60 semanas”, escreveu o chanceler no Twitter.

Horas antes, o próprio Zarif revelou à agência de notícias estatal Isna que o Irã excedeu o limite autorizado de suas reservas de urânio a baixo enriquecimento. “Segundo as informações de que disponho, o Irã ultrapassou o limite de 300kg de urânio com baixo enriquecimento”, comentou. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), sediada em Viena, confirmou a violação. “A Agência verificou, em 1º de julho, que as reservas totais de urânio pouco enriquecido ultrapassavam 300kg”, declarou um porta-voz, por meio de comunicado.

Em nota, a Casa Branca advertiu que “foi um erro, sob o acordo nuclear, permitir ao Irã enriquecer urânio a qualquer nível”. “Há pouca dúvida de que, mesmo antes da existência do acordo, o Irã violava os seus termos. Nós devemos restaurar o duradouro padrão de não proliferação de não enriquecimento do Irã. Os Estados Unidos e seus aliados jamais permitirão ao Irã desenvolver armas nucleares”, afirma o texto. Segundo a  porta-voz da Casa Branca, Stephanie Grisham, a máxima pressão sobre o regime iraniano continuará até que seus líderes alterem o curso da ação. “O regime deve colocar fim às suas ambições nucleares e ao seu comportamento maligno”, observou.

Enquanto se gabava do encontro histórico com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, o presidente Donald Trump avisava que “o Irã brinca com fogo”. O anúncio de Zarif é um elemento a mais na tensa relação de Teerã com o Ocidente. Os EUA acusam o Irã de sabotagem contra navios petroleiros no Golfo de Omã, próximo ao estratégico Estreito de Ormuz (única ligação do Golfo Pérsico com o restante do mundo), e de derrubar um drone não tripulado americano em junho.

Repercussão

Moscou lamentou a decisão de Teerã, mas a considerou uma consequência natural das sanções impostas por Washington ao regime teocrático islâmico. Por sua vez, Londres instou os iranianos a não darem outro passo fora do acordo. A Alemanha exigiu a reversão da violação do acordo. Zarif parecia pouco intimidado com a condenação internacional. O chanceler do Irã revelou que “o próximo passo será o enriquecimento de urânio além dos 3,67% permitidos sob o acordo”, a partir de domingo. Teerã também pretende reativar a construção de um reator de água pesada em Arak (centro), caso os países signatários do JCPOA não atuem para convencer os EUA a suspenderem as sanções financeiras contra o Irã.

Miles Pomper, analista do Centro para Estudos de Não Proliferação James Martin, em Monterey (na Califórnia), concorda que a decisão de Teerã é “uma clara tentativa de pressionar as outras partes signatárias do acordo a tomarem ações para aliviar a pressão dos EUA, como condição para cumprimento do pacto”. Ele afirmou ao Correio que o JCPOA foi colocado sob grave risco com a retirada unilateral de Trump. “Este é o primeiro passo sério do lado iraniano para exceder os próprios limites. Um passo ainda mais preocupante ocorrerá se o Irã enriquecer mais urânio e se aproximar do material apto a ser usado em armas nucleares.”

Para Joshua Pollack, especialista do Instituto de Estudos Internacionais de Middlebury (em Monterey), o Irã tem caminhado na ponta dos pés, ao violar, deliberada e timidamente, os termos do JCPOA. “Isso provavelmente não provocará uma resposta severa. Espero que Teerã continue a pressionar Washington a retornar ao acordo e os europeus a acelerarem seus esforços para contornar as sanções financeiras”, disse à reportagem.

Pontos de vista

Por Miles Pomper

Evolução preocupante

“Ao exceder o limite permitido de urânio enriquecido, o Irã provoca um preocupante desdobramento na crise nuclear. Vejo essa atitude como o início do desmoronamento do comprometimento de Teerã com o JCPOA (sigla em inglês para o acordo nuclear). Ainda que não crie problemas imediatos, e que tal manobra possa ser revertida facilmente, caso isso continue, o Irã poderia encurtar o prazo necessário para adquirir material físsil suficiente para uma arma nuclear.”

Analista do Centro para Estudos de Não Proliferação James Martin, em Monterey (na Califórnia)

Por Steve Fetter

Aviso ao Ocidente

“Não acho que isso seja, em si, uma importante violação do JCPOA. O Irã não está significativamente mais próximo de uma bomba nuclear, e não estará mesmo se continuar armazenando urânio durante os próximos meses. Ao excederem esse limite de 300kg de urânio enriquecido, os iranianos enviam um claro sinal de que não continuarão a cumprir com as cláusulas do acordo se não receberem os benefícios econômicos prometidos em troca da imposição de limites ao programa nuclear.”

Professor da Faculdade de Políticas Públicas da Universidade de Maryland e ex-vice-diretor do Escritório de Políticas de Ciência e Tecnologia da Casa Branca