Título: Bird cobra medidas do Brasil
Autor: Bancillon, Deco
Fonte: Correio Braziliense, 20/10/2012, Economia, p. 17

Na avaliação do Banco Mundial, país deveria dar maior competitividade à economia em vez de criticar ações dos EUA

O Banco Mundial (Bird) vê a briga entre o Brasil e os Estados Unidos no campo comercial como um movimento natural de autopreservação de duas das maiores economias globais, em meio a um cenário adverso de crise. O estranhamento entre os dois países se aprofundou depois que ambos os lados adotaram políticas de defesa de seus mercados que foram mutuamente tachadas de “protecionismo”.

No meio do fogo cruzado, o Bird procurou se esquivar a comprar um lado. Para a diretora da instituição no Brasil, a norte-americana Deborah Wetzel, ainda que as reclamações de Brasília contra as políticas expansionistas de Washington fossem acertadas, isso não mudaria o fato de que a economia dos EUA está enfrentando um dos seus momentos mais conturbados, em função das turbulências globais. “O Brasil precisa fazer algo (para combater a crise), mas os EUA também precisam”, diz.

PhD em economia pela Universidade de Oxford, na Inglaterra, e mestre em relações internacionais pela Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins, nos EUA, Deborah é uma das mais importantes líderes do Banco Mundial. Antes de se tornar diretora para o Brasil, ela foi, entre 2010 e 2012, chefe de gabinete do ex-presidente da instituição, o também norte-americano Robert Zoellick, que deixou o cargo em junho deste ano.

O perfil mais comedido com que Deborah costuma proferir suas opiniões contrasta com a forma mais dura com a qual tratou o embate entre Brasil e Estados Unidos. Para ela, o governo da presidente Dilma Rousseff precisa “saber como vão ser os câmbios”, uma alusão à política adotada pelo Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) de injetar dinheiro barato na economia norte-americana, o que encarece o real brasileiro, mas também “precisa priorizar o aumento de competitividade da economia brasileira”.

Com isso, o Bird sacramenta a posição já defendida por muitos analistas de mercados externos, que dizem que o maior problema do Brasil não é a cotação do real ante o dólar, mas as deficiências estruturais e de infraestrutura, como estradas em péssimo estado, portos e aeroportos ineficientes e pouca tecnologia empregada na indústria. “O último quantitative easing do Fed despeja muito dinheiro no mundo, e isso, sem dúvida, requer uma maior preocupação do governo brasileiro a curto prazo. Parece claro, porém, que a saída (para o Brasil) é pensar em mais medidas de competitividade”, afirma Deborah.

Ela conta que o Banco Mundial vê com “otimismo” ações adotadas por Brasília como as concessões à iniciativa privada de três dos mais importantes aeroportos do país (Cumbica, em Guarulhos, Viracopos, em Campinas, e Juscelino Kubitschek, em Brasília), além do prometido pacote de Parcerias Público Privadas (PPPs) para erguer e reformar estradas, ferrovias e portos. “O governo (brasileiro) está mais focado em medidas de longo prazo, e não olhando apenas para o consumo. Vemos isso com muito otimismo”, afirma.

Quanto às perspectivas para o crescimento do Brasil e da América Latina, Deborah e Boris Utria, coordenador-geral de Operações do Banco Mundial no Brasil, e Pablo Fajnzylber, coordenador para a área econômica, se mostram otimistas, mesmo que o ritmo atual de expansão não seja o ideal.

» Guerra cambial

Quantitative easing ou flexibilização quantitativa, na tradução literal do inglês, é um conjunto de medidas adotadas pelos governos para injetar dinheiro na economia e estimular a atividade. No último programa lançado pelo Federal Reserve, foi autorizado a recompra de títulos imobiliários em poder dos bancos num total de até US$ 40 bilhões por mês. Com isso, o dólar perderá valor diante de outras moedas, como o real. Para que isso não ocorra, o governo brasileiro está impondo uma série de limitações à entrada de capitais e de mercadorias no país.