Título: Obstáculos para a paz
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 20/10/2012, Mundo, p. 24
Especialistas sobre o conflito citam a questão agrária e o narcotráfico como os principais entraves a um acordo entre as Farc e o governo
“Desconfie das grandes palavras que nos fizeram tão desgraçados.” A frase do romancista e poeta irlandês James Joyce (1882-1941) retrata bem o sentimento de boa parte dos 45,2 milhões de colombianos, que sonham com a paz, mas preferem não se iludir com promessas. A retomada das negociações para um acordo que encerre meio século de um sangrento conflito é vista com otimismo, e também com cautela, por especialistas consultados pelo Correio. Em 15 de novembro, reunidos em Havana (Cuba), representantes do governo de Juan Manuel Santos e das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) enfrentarão o primeiro grande teste, ao debater a questão agrária — um dos pontos-chave da ideologia da maior guerrilha da América Latina que se tornou um tabu no país.
“Nas últimas duas décadas, a Colômbia testemunhou um processo de concentração da terra. Sem propôr uma reforma agrária, as Farc estimularam a colonização de áreas devolutas, zonas pouco aptas para o cultivo da folha de coca”, explica Fernando Natanael Cubides Cipagauta, sociólogo da Universidad Nacional de Colómbia (Bogotá).
Se a questão fundiária é considerada sensível, o cientista político Carlo Nasi Lignarolo — da Universidad de Los Andes, também na capital — vê a temática do narcotráfico como inegociável. “É algo simplesmente impossível de resolver na mesa de diálogo. É preciso debater esse assunto, no sentido de definir o papel das Farc no negócio e fixar seu status como distinto de um cartel de drogas”, defende o estudioso. “Se isso não for feito, a negociação política simplesmente perderá sentido.” Lignarolo admite, porém, que ainda é prematuro acreditar que o narcotráfico seja capaz de minar um acordo de paz ou impedir a desmobilização da guerrilha.
Cubides classifica de “justa” a abertura da mesa de diálogo entre Humberto de La Calle, ex-vice-presidente colombiano e chefe negociador do governo, e o representante das Farc, Iván Márquez. Segundo ele, o tom do comunicado conjunto divulgado na última quinta-feira — depois do primeiro encontro, em Oslo — sugere que a “fase exploratória” das negociações surtiu efeito. O otimismo moderado não é compartilhado por Eduardo Bechara Gómez. Cientista político da Universidad Externado de Colómbia (Bogotá), ele afirma que o início do processo de paz evidenciou diferenças gritantes entre as autoridades e os rebeldes marxistas, não apenas nos temas, como na maneira de abordá-los e na dimensão temporal da negociação. “A julgar pelas reações às declarações das Farc, podemos atestar que o Estado e os grêmios econômicos consideram que a guerrilha tem pretensões que vão muito além do negociável”, explica Bechara.
Na última sexta-feira, o próprio presidente Santos admitiu as dificuldades para um consenso. “Sabemos exatamente o que queremos, onde estão as linhas vermelhas, em que ponto podemos ceder ou não”, declarou o mandatário, em uma mensagem velada, dirigida a Iván Márquez, e uma crítica ao fato de que as Farc estariam incorporando elementos não previstos pela agenda. “Existe um vazio entre as partes, marcado pelas exigências da guerrilha que, segundo a ótica do governo, vão além do que Santos se dispõe a aceitar”, comenta Bechara. No entanto, ele reconhece que há razões para o otimismo e lembra que o Estado chega à mesa de negociações em superioridade militar frente à guerrilha, combalida depois de perder muito de seu poder militar, territorial e econômico.
Caguán
O fantasma do fracasso em San Vicente del Caguán — dois dias depois da criação de uma zona desmilitarizada de 42 mil km2, em 2002, a ex-senadora Ingrid Bettancourt foi sequestrada — pesa sobre a mesa de negociações. No entanto, Bechara vê o incidente como uma oportunidade de aprendizado. “Isso ficou evidente na decisão de não desmilitarizar um território e de manter a pressão militar sobre as Farc”, cita Bechara. Para o especialista da Universidad Externado de Colómbia, os obstáculos para um acordo de paz definitivo incluem mudanças significativas na estrutura política, econômica e social do país, e a desmobilização das Farc. “Outro obstáculo pode derivar, por exemplo, das divergências ante a dimensão temporal da negociação. Ao contrário do governo, que apostou em desenvolver o processo de paz em questão de meses, Ivan Márquez revelou-se crítico ante o que denominou de ‘negociações expressas’”, afirma Bechara.
Os especialistas concordam sobre Caguán e reconhecem que a mútua cautela prevalece. Segundo Cubies, existe a sensação de que, se houver nova falha, não existirá outra chance. Lignarolo diz que o fracasso é uma possibilidade que não deve ser descartada. “As discussões podem descarrilar por vários fatores, que incluem o radicalismo e a falta de realismo dos negociadores. É importante que o governo seja capaz de se antecipar a atos de sabotagem”, comenta o cientista político da Universidad de Los Andes.
Ataque e retaliação Uma emboscada contra uma patrulha do Exército, no município de Puerto Asís (departamento de Putumayo), deixou cinco soldados mortos e três feridos, por volta das 23h (21h em Brasília) de sexta-feira. O carro foi atingido por uma explosão quando trafegava pela Via Puerto Vega-Teteyé. De acordo com o jornal El Tiempo, o Exército acusou a Frente 48 do Bloco Sul das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que teriam lançado explosivos artesanais sobre a patrulha. Na quarta-feira passada, a Força Aérea colombiana havia bombardeado um acampamento da guerrilha na região de Cabo Marzo (departamento de Chocó), matando dois rebeldes.
Ponto de vista
O senhor considera possível que as Farc se integrem à vida política na Colômbia?
“A incorporação das Farc na vida política é possível e provável. Trata-se da melhor das saídas, e já vimos alguns passos nessa direção. Também temos algumas lições proveitosas de experiências anteriores. O processo de reconciliação nacional terá que assimilar essa metamorfose.” Fernando Natanael Cubides Cipagauta, sociólogo da Universidad Nacional de Colómbia (Bogotá)
“Isso é possível, desde que o governo dê à guerrilha garantias suficientes de que não se repetirá a trágica história da União Patriótica (partido político criado pelas Farc nas negociações dos anos 1980, que foi exterminado por setores da ultradireita). As Farc precisam se comprometer a não voltar a jogar a ‘combinação de todas as formas de luta’.” Carlo Nasi Lignarolo, cientista político da Universidad de Los Andes (Bogotá)
Povo fala
Daniel Gómez Monsalve, 24 anos, produtor audiovisual, morador de Medellín “Não creio. Será uma outra tentativa fracassada. Um militar de alto escalão certa vez me disse: ‘Na Colômbia, nunca haverá a paz, porque (o conflito) é um negócio. Na minha opinião, o tema mais sensível é o agrário. As Farc se apoderaram das terras e precisarão devolvê-las. Outro tema duro será como as Farc estarão representadas no Congresso, como se unirão à política.”
Lady Johanna Celis Roldan, 25 anos, auxiliar contábil, moradora de Medellín “Eu não acredito na paz. Vai ocorrer o que já ocorreu no passado. Temos visto muitos desacordos. Nenhuma das frentes cede tão facilmente em relação às petições do outro. Isso será sempre como um círculo vicioso. Isso tudo é uma palhaçada. A guerrilha saiu de seu norte há muito tempo e não lhe convém obter a paz. Seu negócio é o narcotráfico.”
Sara Cristina Quintero Arismendy, 23 anos, jornalista, moradora de Medellín “Não. Parece-me que essa negociação será uma perda de dinheiro para o país. Além disso, por que precisavam ir a Oslo? As Farc não são o único grupo à margem da lei na Colômbia. Para mim, ficaremos na mesma. Não existe coerência nas palavras e nos atos da guerrilha e do governo. Isso tem causado pouca confiança nos resultados.”
John Alexander Zamora Ramirez, 38 anos, funcionário de uma exportadora de flores, morador de Bogotá “Creio na paz, mas eu acho que não será muito fácil conquistá-la. Veremos um processo lento, depois de 60 anos de guerra. Os principais entraves são a oposição ao presidente Juan Manuel Santos e os inimigos do processo, assim como a renúncia da guerrilha a posições do governo.”
Juan David Villegas, 28 anos, produtor de TV, morador de Medellín “Creio nas pessoas humildes que sonham com a paz. A guerrilha levou muita vantagem e sua posição é bastante fechada. Vejo com pouco otimismo as negociações. As Farc pregam um mundo melhor, mas não aplicam sua ideologia. O problema é que os mais vulneráveis são os que mais sofrem. Espero que a sociedade civil e os camponeses não sofram mais os infortúnios dessa guerra sem sentido.”