Título: Bate-boca termina com pedido de desculpas
Autor: Mader, Helena ; Abreu, Diego ; Campos, Ana Maria
Fonte: Correio Braziliense, 25/10/2012, Política, p. 4

Em novo capítulo do embate entre relator e revisor, ministros precisaram intervir para acabar com a discussão

Divergências quanto à definição de penas para o empresário Marcos Valério levaram o relator do mensalão, Joaquim Barbosa, e o revisor do processo, Ricardo Lewandowski, a protagonizarem mais um bate-boca no plenário do Supremo, dessa vez com graves acusações. O debate foi tão intenso que constrangeu os colegas, e o presidente da Corte, ministro Carlos Ayres Britto, teve que intervir. Se as discussões entre os dois ministros não são novidade, ontem, pela primeira vez, Joaquim Barbosa pediu desculpas ao colega e disse que “se excedeu ao rebater de maneira exacerbada”. Justificou a atitude explicando que estava preocupado com o ritmo da dosimetria. Lewandowski classificou o pedido como “um gesto de grandeza” e disse que o aceitava “prontamente”.

A confusão começou depois que Lewandowski defendeu uma pena de três anos e um mês de cadeia para Valério pelo crime de corrupção ativa. O relator havia estabelecido uma pena de quatro anos e oito meses para o mesmo delito, cometido quando o empresário pagou propina ao ex-diretor de Marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. Barbosa considerou a punição proposta pelo colega branda e chegou a dizer que Lewandowski estava “barateando” o crime de corrupção.

Ontem, o relator do mensalão afirmou que, com a pena proposta por Lewandowski, Valério não ficaria mais do que seis meses na cadeia. “Estamos discutindo a pena a ser aplicada a um homem que fez o que fez contra o Estado brasileiro”, justificou Barbosa. Lewandowski argumentou dizendo que, somadas todas as penas já impostas ao empresário, a punição para Valério ultrapassava duas décadas. “Vossa Excelência acha isso pouco?”, questionou o revisor, dirigindo-se ao colega.

Barbosa afirmou que achava a pena branda, sim, e fez uma pergunta que irritou sobremaneira Lewandowski. “Vossa Excelência advoga para eles?”, questionou, referindo-se a Valério e seus sócios. O revisor não gostou nada. “Eu, não. Vossa Excelência integra a acusação? É membro do Ministério Público?”, questionou o revisor, exaltado. Nesse momento, o presidente, Ayres Britto, inverveio em defesa de Lewandowski. “Ninguém advoga para ninguém aqui, nós somos juízes.” Barbosa disse então que não concordava com o sistema de Justiça do Brasil. “Vossa Excelência não concorda com o sistema. Mas nós vivemos no Brasil, então temos que mudar de lado e ir para o Congresso Nacional para mudar a lei”, afirmou Lewandowski.