O globo, n.31373, 30/06/2019. Economia, p. 28
Moeda estável permite avanço social
Cássia Almeida
Rennan Setti
30/06/2019
Em junho de 1994, quando a população brasileira somava 156 milhões e a expectativa de vida era 68 anos, a inflação corroía os salários diariamente. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo( IPCA ), do IBGE, acumulava alta de 4.922,60% em 12 meses. No mês seguinte, entrava em cena o real, após cinco meses com o país convivendo com o cruzeiro real e a Unidade Real de Valor (URV), que variava diariamente conforme a inflação. A URV seria transformada na nova moeda e, a partir de 1º de julho, só o real passou a circular.
Vinte e cinco anos depois, o IPCA acumula alta de 3,84%. A estabilização dos preços permitiu que o Brasil avançasse socialmente nesse período. A pobreza teve uma queda imediata, porque os mais pobres não tinham como se proteger da corrosão inflacionária, enquanto a classe média e os mais ricos aplicavam em contas remuneradas. A estabilidade consolidada no governo Fernando Henrique Cardoso deu base para as políticas sociais aprofundadas na gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, que reduziram a desigualdade. Mais recentemente, a inflação controlada permitiu a queda dos juros. A taxa básica, a Selic, chegou a 45% ao ano em 1999. Hoje, está em 6,5% e deve recuara 5,75% até o fim do ano, se as projeções de analistas estiverem certas, ampliando crédito na economia. O crescimento, porém, decepcionou. Apesar de a economia ter dobrado de tamanho em 25 anos, não foi suficiente para o país se colocar entre as maiores expansões globais.
PERCALÇOS NO CAMINHO
A estabilização veio para ficar, mas houve sustos no caminho. Em 1999, o plano deu uma guinada. A âncora cambial, usada até então, precisou ser abandonada. Nos primeiros anos do Plano Real, o câmbio era controlado no país, e o dólar oscilava dentro de bandas cambiais. Mas uma sucessão de crises em países emergentes no fim da década de 1990 tornou o modelo inviável e, em janeiro de 1999, logo após o então presidente Fernando Henrique tomar posse para o seu segundo mandato, o país abandonou o sistema e liberou a taxa de câmbio. Para manter os preços sob controle, foi adotado então o regime de metas de inflação, em vigor até hoje. Outro momento de crise aguda foi em 2002, com a campanha eleitoral e a disparada do então candidato Lula nas intenções de voto. O dólar deu um salto, e o Brasil precisou recorrer ao FMI. A inflação atingiu 12,53%, voltando a dois dígitos pela primeira vez desde a criação do real. Choque de juros e ajuste fiscal no primeiro ano do governo Lula desaceleraram a inflação. E o IPCA caiu a 9,30% em 2003.