O Estado de São Paulo, n. 46009, 06/10/2019. Política, p. A12

 

Maia: 'Se quisesse, teria sido presidente'

Paula Reverbel

06/10/2019

 

 

Ao rejeitar a pecha de ‘primeiro-ministro’ de Bolsonaro, deputado diz que ‘foi responsável’ ao não contribuir para afastar Michel Temer

Discurso. Maia, durante evento em São Paulo; para deputado, as ambições pessoais não podem estar acima dos cargos

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse ontem que, se quisesse ser presidente por via indireta, teria sido no lugar de Michel Temer, em 2017. A afirmação foi feita no contexto em que Maia negava ser uma espécie de “primeiro-ministro” do governo do presidente Jair Bolsonaro. O deputado afirmou ainda que o mandatário não gosta dessa metáfora.

“Se eu quisesse ter sido presidente da República, teria sido no lugar do Michel”, afirmou Maia, durante o Festival Piauí de Jornalismo, realizado em São Paulo. Em seguida, o presidente da Câmara afirmou que não tem intenção de chegar à Presidência pela via indireta, e sugeriu que não descarta disputar o cargo em uma eleição. “Voto é outra coisa.”

Maia fez referência ao período de maior crise do governo Michel Temer. Em 2017, o emedebista foi denunciado duas vezes pelo então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, por corrupção passiva, na primeira, e por obstrução da Justiça e organização criminosa, na segunda. Se alguma das denúncias fosse aceita, Temer se tornaria réu e deveria ser afastado do cargo por 180 dias. Maia, que já presidia a Câmara, assumiria a Presidência no período.

Temer conseguiu votos suficientes na Câmara para barrar as denúncias – ele ainda seria alvo de uma terceira, protocolada pela sucessora de Janot, Raquel Dodge – e se manteve no cargo até o fim do mandato. “Fui responsável (naquele momento). Eu, como principal beneficiário, operar o Parlamento para derrubar um presidente da República, não considerei aquilo o melhor dos caminhos para o Brasil e para a estabilidade democrática”, afirmou. “Operar um processo de destituição de um presidente significa negociar o governo.”

“Não estou disposto a negociar nada. Se fosse necessário assumir o governo, se o Parlamento quisesse derrubar o presidente, era decisão dele. Se eu tivesse que ficar presidente por seis meses, eu ia com liberdade para reconstituir o governo”, afirmou o deputado.

Rodrigo Maia disse ainda que Temer fez justamente o oposto, em 2016, na ocasião do impedimento da então presidente Dilma Rousseff. “É óbvio que o Michel operou o processo de impeachment da Dilma politicamente.” O presidente da Câmara afirmou crer que Temer tenha errado já que, em sua avaliação, Dilma teria caído sozinha.

Para o deputado, ao organizar o processo de impedimento e sinalizar espaço a todos os deputados, o emedebista limitou sua capacidade de reformar o País. “Nove de cada dez políticos comandariam a aprovação da denúncia (contra Temer). Eu acho que eu fiz exatamente o contrário, mostrei que as ambições pessoais não podem estar acima do cargo.”

Centro. Durante o painel, Maia disse que não faz questão de integrar uma chapa presidencial, mas quer contribuir para a formação de um governo de centro. O presidente da Câmara afirmou que esteve, na noite de anteontem, em um jantar com o apresentador de TV e empresário Luciano Huck. Segundo ele, o tema da conversa foi a formação de uma coalizão de centro, mas disse que o apresentador só decidirá mais adiante se vai disputar a Presidência.

Em entrevista coletiva após o discurso, Maia foi perguntado se poderia se aliar ao governador paulista João Doria (PSDB). Ele afirmou que há todas as condições de reeditar a conhecida aliança entre democratas e tucanos, mas que ainda é muito cedo para dizer.

Durante o painel, Maia criticou a chamada “nova política”, que se opõe a políticos tradicionais de muitos mandatos, como é o caso do deputado do DEM. Ele citou o presidente americano Donald Trump e o imbróglio do Brexit (abreviação de Britain Exit, Saída Britânica, em inglês, da União Europeia) no Reino Unido para dizer que proponentes da nova política implodem modelos antigos de se governar, “mas não conseguem formular nada para colocar no lugar, deixando países à deriva”.

Denúncia

“Nove de cada dez políticos comandariam a aprovação da denúncia (contra Temer). Eu mostrei que ambições pessoais não podem estar acima do cargo”

Rodrigo Maia

PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS

____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

Exoneração de agente da Funai é criticada

André Borges

06/10/2019

 

 

Indigenistas e ex-coordenadores gerais da divisão de Índios Isolados e de Recente Contato da Diretoria de Proteção Territorial da Funai divulgaram uma carta aberta para criticar a exoneração do servidor Bruno Pereira da chefia da área.

Agente indigenista da Funai, Bruno Pereira é um dos principais especialistas do órgão e vinha liderando, nos últimos anos, as iniciativas de proteção aos povos isolados, principalmente os que vivem na região do Vale do Javari, extremo oeste do Estado do Amazonas, onde se concentra o maior número de evidências de índios isolados em todo o mundo.

“Em nosso entendimento, tal exoneração representa mais um passo para um retrocesso histórico da política pública para proteção dos povos indígenas isolados”, afirmam os especialistas na carta. No texto, eles afirmam que Pereira foi comunicado de sua exoneração sem nenhum tipo de argumentação técnica.

Em abril, ele liderou uma das mais importantes expedições da Funai realizadas em terras de índios isolados na Amazônia. A missão ocorreu após mais de três anos de discussões, meses de planejamento, diálogo com indígenas na região e articulação com instituições governamentais. A equipe tinha ao todo 30 pessoas.

A Funai ainda não informou quem vai substituir Bruno Pereira. O órgão afirma que as mudanças são previstas em lei e fazem parte da renovação no comando da autarquia.