Título: PSB quer o comando da Câmara
Autor: Caitano, Adriana; Correia, Karla; Almeida, Amanda
Fonte: Correio Braziliense, 30/10/2012, Política, p. 5

Fortalecido pelo resultado das eleições, o partido que conquistou mais capitais tenta agora ampliar a influência no Congresso, lançando Júlio Delgado para enfrentar o PMDB na sucessão de Marco Maia

O resultado das urnas já começa a se refletir na próxima disputa em que os grandes partidos estão de olho — não a de 2014, mas a de fevereiro do ano que vem. É quando Câmara e Senado vão definir seus novos presidentes, que comandarão as casas até o fim deste mandato. Se, de um lado, o PMDB mantém a tranquilidade sobre uma possível dobradinha no Congresso, o PSB sai das eleições municipais confiante de que ganhou status político para ir mais longe com a provável candidatura avulsa de Júlio Delgado (MG).

A campanha do líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN), à Presidência da Câmara começou no início do ano e não parou durante o período eleitoral, mas fica mais encorpada a partir desta semana. Alves tem jantares e almoços marcados na casa de diversos parlamentares para consolidar seu nome e arrebanhar cabos eleitorais. Ainda que tenha oficialmente apenas o apoio do PT, o líder cuidou de conversar pessoalmente com os presidentes de todas as legendas com representação na Casa. Também insistiu em procurar o único que ameaça enfrentá-lo na disputa, o quarto-secretário da Câmara, Júlio Delgado. "Acho saudável haver concorrência e o Júlio é um bom nome para isso", comentou o peemedebista, em tom de quem não acredita que a candidatura adversária se sustentará. Ciente da descrença, Delgado tem evitado marcar encontros com o líder peemedebista. "Não quero negociar cargos ou trocas, ou sou candidato ou toco meu mandato como um deputado comum e, por enquanto, o Eduardo Campos (presidente do partido) não me pediu para recuar", declarou Delgado.

O lançamento de um nome de seu quadro ainda não está fechado pelo PSB, mas a hipótese tem boa acolhida na legenda. "A Executiva ainda não tratou diretamente do assunto, mas reconhece no Júlio um ótimo nome para pleitear o cargo", disse o senador Rodrigo Rollemberg (DF), da cúpula do partido. Outros pessebistas acreditam que a resposta das urnas municipais poderá dar o tom do confronto. "Se teve alguém derrotado na eleição, agora, foi o PMDB, que diminuiu o número de prefeitos em grandes cidades. E se alguém cresceu significativamente foi o PSB, o que reforça nossa tese de conquistar novos espaços", comentou um parlamentar da legenda.

O número de prefeitos peemedebistas eleitos, porém, não deve interferir na eleição do Senado. O Regimento Interno garante à legenda com maior bancada — o PMDB — o direito de indicar o ocupante da cadeira de presidente. Na Casa, o poder de decisão do trio de caciques da agremiação — José Sarney (AP), Romero Jucá (RR) e Renan Calheiros (AL) — será respeitado com a indicação do senador alagoano. "Não há nenhuma resistência no partido, porque quem poderia impô-la foi posicionado em cargos interessantes e não há candidaturas aventureiras no radar", assegurou um peemedebista com amplo conhecimento das entranhas da legenda.

No PT, as chances de rebelião à dobradinha também foram abafadas, segundo representantes da cúpula petista. Os comandos de ambas as siglas já se apresentaram lado a lado para assegurar que o acordo de revezamento na Câmara será mantido e que, dificilmente, haverá reclamações sobre a permanência do PMDB no comando do Senado. "No governo Lula, nosso partido já chegou a chefiar as duas casas, com Sarney e Michel Temer, e isso é natural que aconteça de novo após o acordo fechado com o governo. Então, os petistas não têm mesmo do que reclamar", ressaltou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA).