Correio braziliense, n. 20516, 23/07/2019. Política, p. 3

 

O efeito "Paraíba" no Congresso

Alessandra Azevedo

Bernardo Bittar

23/07/2019

 

 

Declarações preconceituosas de Bolsonaro contra governadores do Nordeste dificilmente vão atrapalhar relação do governo com o Parlamento e impactar a votação de matérias, como a da PEC das aposentadorias

Quase um terço das cadeiras do Congresso é ocupado por parlamentares do Nordeste, região que o presidente Jair Bolsonaro chamou pejorativamente de “Paraíba”. Os 151 representantes nordestinos compõem a segunda maior bancada da Câmara, atrás apenas dos 179 do Sudeste. No Senado, são 27 parlamentares, três de cada estado.
No primeiro turno de votação da reforma da Previdência, na Câmara, 95 dos deputados do Nordeste avalizaram a proposta de emenda à Constituição (PEC) 6/2019, enquanto 53 foram contra. Três não participaram. A segunda rodada de votação está marcada para o início de agosto. 
Pernambucano, o líder do Cidadania na Casa, Daniel Coelho, não acredita que, com a situação, a reforma perca algum dos 379 votos favoráveis que conquistou no primeiro turno. Além de a margem ter sido folgada, com 71 votos a mais do que era necessário, manter os posicionamentos, apesar de declarações do presidente, reforça o protagonismo do Congresso, conforme afirma. “Hoje, o conceito de base aliada é diferente. Os deputados estão votando pelo mérito. O placar expressivo não tem a ver com deputados terem simpatia pelo presidente, mas pelo entendimento de que a pauta é importante”, explica.
Na avaliação do analista político Carlos Alberto Moura, da HC7 Pesquisas, a PEC da Previdência pode, sim, ser prejudicada pelo discurso agressivo de Bolsonaro. “Os governadores do Nordeste titubearam quando o governo se propôs até a mandar mais dinheiro para os estados em troca de apoio. Com esse direcionamento, cheio de farpas, pode ser que os deputados sigam os mandatários e acabem voltando atrás”, frisa.
Fator de peso
Moura explica que “deputados e senadores estão nas bases, sentindo o clima dos eleitores”. A proximidade das eleições municipais pode pesar na decisão dos deputados, cientes de que “a sociedade não ficou satisfeita com as declarações”. Para o especialista, as bancadas mais propícias a mudar de opinião seriam Pernambuco — governado por Paulo Câmara, do PSB — e Maranhão — unidade da Federação diretamente citada no discurso de Bolsonaro contra o governador Flávio Dino (PCdoB).
Não há nenhum parlamentar do PCdoB, de Dino, entre os apoiadores da matéria, em nenhum dos estados. No caso do PSB, partido do governador de Pernambuco, 11 votaram a favor, sendo dois deles do Nordeste. Outros três do PDT completam o grupo de cinco deputados nordestinos, de esquerda, favoráveis à reforma da Previdência. O número é pequeno e, na prática, a mudança de direcionamento de um ou outro não faria diferença no resultado final do segundo turno.
Sem interferência
Do PSB de Pernambuco, o deputado João Campos, que votou contra a PEC, diz que a reforma não tem nada a ver com o “despreparo e com o desrespeito que o presidente tem com o Nordeste” e, por isso, a declaração não deve ter grande interferência. “Para mudar de um turno para outro, é necessário ter uma justificativa mais plausível, mas mostra que o presidente não tem maturidade para cuidar do país”, critica.
O gerente de análise política da consultoria Prospectiva, Thiago Vidal, reconhece o potencial de impacto político de falas preconceituosas, mas também acredita que o efeito, na prática, pode não existir na Previdência. Para saber a real disposição que os deputados teriam de mudar o voto, é preciso analisar a vinculação de cada um ao governo estadual. “É importante ver a qual segmento eles pertencem. Avaliar a região de origem não é suficiente, porque muitos dos parlamentares nordestinos fazem oposição aos governadores, fazem até propaganda contra”, ressalta.
Bancada nordestina
CÂMARA
151 deputados

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Reação na Bahia

23/07/2019

 

 

Com a confirmação da presença do presidente Jair Bolsonaro na inauguração do novo aeroporto de Vitória da Conquista (BA), hoje, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), decidiu que não vai mais participar da cerimônia. Será a primeira visita do chefe do Executivo Federal ao Nordeste após ter chamado pejorativamente os estados da região de “Paraíba”.

 

 

Rui Costa divulgou um vídeo nas redes sociais, no qual explicou que não vai ao evento porque se transformou em um ato político-partidário. De acordo com o governador, o povo será excluído da cerimônia, para a qual o Planalto convidou “bolsonaristas”. Será “uma inauguração restrita a poucas pessoas, escolhidas a dedo, como se fosse uma convenção político-partidária”, criticou. “Não posso concordar com isso.”
O aeroporto começou a ser construído em 2014, no segundo mandato do então governador Jaques Wagner (PT). O Planalto afirma que, dos R$ 106 milhões investidos na obra, R$ 75 milhões foram da União. O resto, do estado. “Exercitando a boa educação que aprendi, convidei o governo federal a se fazer presente ao ato de inauguração, nesta grande festa. Infelizmente, confundiram a boa educação com covardia, e, desde então, temos presenciado agressões ao povo do Nordeste e ao povo da Bahia”, disse Rui Costa. (AA e BB)