O globo, n.31431, 27/08/2019. Mundo, p. 21
Linha vermelha
Fernando Eichenberg
27/08/2019
O duelo verbal entre os presidentes Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro se agravou ontem, com o líder francês classificando como “extremamente desrespeitoso” o endosso do brasileiro à postagem de um internauta que zombava da primeira-dama da França, Brigitte Macron. O comentário de Bolsonaro e a reação de Macron — que pôs em dúvida a adequação do brasileiro ao exercício da Presidência — culminaram uma guerra de declarações sem precedentes nas relações entre os dois países na história recente.
Em entrevista coletiva ao lado do presidente chileno Sebastián Piñera em Biarritz, ao fim da cúpula do G7, Macron disse que o comentário sobre Brigitte foi “triste” para os brasileiros:
—Ele fez comentários extraordinariamente desrespeitosos em relação à minha esposa. O que posso dizer? É triste. Mas é triste, sobretudo, para ele e os brasileiros. Penso que as mulheres brasileiras têm, sem dúvida, vergonha de seu presidente. Penso que os brasileiros, que são um grande povo,têm um pouco de vergonha de ver esse comportamento. E como eu tenho muito respeito e admiração pelo povo brasileiro, espero muito rapidamente que eles tenham um presidente que se comporte à sua altura —afirmou Macron.
No sábado, um seguidor publicou uma montagem de fotos dos casais Macron e Bolsonaro em um post no Facebook do presidente brasileiro,coma legenda: “Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro?” O perfil de Bolsonaro postou a resposta: “Não humilha cara. Kkkkkkk”. A postagem do seguidor foi acompanhada de uma montagem: de um lado, Macron e Brigitte, 24 anos mais velha do que o marido; e, do outro, o Bolsonaro e a mulher, Michelle, 27 anos mais jovem que o marido.
TRÊS MAL-ENTENDIDOS
A resposta de Bolsonaro viralizou e foi repercutida na imprensa francesa, que criticou a atitude sexista do brasileiro. Brigitte tem 66 anos, e Macron, 42. Na campanha à Presidência, em 2017, o francês já havia reagido a comentários sobre o assunto, dizendo que, se ele tivesse 20 anos a mais, “ninguém pensaria por um segundo que não poderíamos estar legitimamente juntos”.
Na entrevista de ontem, Macron disse que respeita todos os dirigentes eleitos, mas que era obrigado a constatar que houve “pelo menos três mal-entendidos com o presidente Bolsonaro”. Além do comentário sobre Brigitte, citou o fato de o brasileiro ter “descumprido” a promessa de zelar pelo meio ambiente; o episódio ocorrido no final de julho em que Bolsonaro cancelou na última hora um encontro em Brasília com o chanceler francês, Jean-Yves le Drian, e foi ao barbeiro; e ataques feitos no Twitter pelo ministro da Educação, Abraham Weintraub.
— Eu o encontrei uma primeira vez e ele me falou, mão sobre o coração, que tudo faria pelo reflorestamento e o compromisso com o Acordo de Paris para poder assinar o acordo do Mercosul com a União Europeia, e 15 dias depois fazia o contrário demitindo cientistas. Pode-se dizer que não me falou a verdade. Algumas semanas depois, teve um compromisso de urgência no barbeiro quando deveria receber nosso chanceler. E, ontem, considerou que era uma boa ideia que um de seus ministros fizesse insultos a minha pessoa —disse Macron.
No domingo, em sua conta no Twitter, Weintraub disse que o presidente é “um calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês”, e o comparou ao ex presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quem chamou de “Le Ladrón”: “Ferro neste Macron, não no povo francês”, escreveu o ministro.
Mais tarde, em entrevista à TV, Macron voltou ao tema e disse que a atitude de Bolsonaro em relação a Brigitte e ao chanceler francês “não são dignas de um dirigente”. Sobre o Mercosul, ele considerou que o texto do acordo de livre comércio com a União Europeia não dá todas as garantias que deseja e que “hoje não o assinaria”. Segundo Macron, Bolsonaro enviou sinais de que não cumpriria os acordos climáticos.
— Nunca tinha dado meu acordo definitivo — disse.
— Não fui eu que mudei, mas ele que não respeitou sua palavra. E devo, em nome da França, assegurar que nossos interesses, princípios, valores, aquilo pelo qual lutamos, seja defendido.
No Twitter, o presidente Bolsonaro voltou a atacar Macron ontem, dizendo que não vai aceitar que ele “dispare ataques descabidos e gratuitos” à Amazônia nem que o país seja tratado como “colônia”. O presidente não citou a polêmica envolvendo o post referente a Brigitte.
Recém-chegado a Paris, o embaixador Luís Fernando Serra,indicado por Bolsonaro, defendeu “gestos de apaziguamento” para conter a crise. Ele disse que, quando tiver a oportunidade de encontrar a primeira-dama francesa,dirá que a considera “bonita, elegante, charmosa”, além de inteligente e articulada. Serra, porém, atribuiu a Macron a responsabilidade pelo embate:
— Vamos combinar que o primeiro mau passo foi dado por Macron, quando mandou uma mensagem [sobre a Amazônia] que tinha de tudo, menos solidariedade — disse Serra, acrescentando que “o momento é de serenidade e de pensar nos ganhos que poderemos ter no futuro”.
“Como tenho muito respeito e admiração pelo povo brasileiro, espero muito rapidamente que tenha um presidente que se comporte à _ sua altura”
“Vamos combinar que o primeiro mau passo foi dado por Macron, quando mandou uma mensagem [sobre a Amazônia] que tinha de tudo, menos _ solidariedade”
DE ‘INCOMPREENSÃO’ A ATAQUES PESSOAIS
> Visita de Raoni
Em maio, Macron recebeu líderes indígenas no Palácio do Eliseu, entre eles o cacique Raoni Metuktire, a quem prometeu não poupar esforços na preservação dos povos indígenas e da Amazônia. Uma semana depois, o chanceler Ernesto Araújo foi a Paris se encontrar com sua contraparte, Jean-Yves Le Drian. Ele propôs ao governo francês enviar especialistas em política ambiental e direitos humanos para mudar a percepção negativa sobre o governo Bolsonaro — causada, disse, por “falta de compreensão”.
> Impasse no G20
Especulações sobre as desavenças entre Macron e Bolsonaro vieram à tona na cúpula do G20, em Osaka, no fim de junho, após o francês ameaçar não assinar o acordo entre UE e Mercosul se Bolsonaro abandonasse o Acordo de Paris sobre o clima. Na cúpula, os governos brasileiro e francês divulgaram versões contraditórias sobre encontro dos presidentes: de acordo com Brasília, a reunião teria sido cancelada, mas Paris disse que nem sequer for a agendada.Depois,os dois acabaram se reunindo. Bolsonaro teria convidado Macron para visitar a Amazônia e ver o que vinha sendo feito para a preservação, e garantiu que não deixaria o pacto climático.
> ‘Urgência capilar’
Cerca de um mês após o G20, Bolsonaro cancelou reunião com o chanceler francês em Brasília. Segundo o Itamaraty, o encontro teria sido cancelado por “problemas de agenda” do presidente, mas, na hora em que deveria ocorrer, Bolsonaro cortava o cabelo, o que foi transmitido ao vivo pelas suas redes sociais. Bolsonaro depois alegou que não se reuniu com o francês porque Le Drian teve encontros com representantes da oposição e de ONGs brasileiras, em sua maioria hostis à sua política ambiental. Dias depois, Le Drian ironizou a “emergência capilar” do brasileiro.
> ‘Mentiroso’
A troca de ofensas mais recente começou quando Macron postou no Twitter mensagem sobre os incêndios na Amazônia, em 22 de agosto. Nela, Macron pediu que os países do G7 pusessem a “crise internacional” em pauta e usou uma foto antiga de queimada na Amazônia, tirada pelo fotojornalista Loren McIntyre, que morreu em 2003. Bolsonaro aproveitou a imagem anacrônica para criticar o francês, lamentando que Macron buscasse “instrumentalizar” questão interna do Brasil para “ganhos pessoais”, evocando “mentalidade colonialista descabida no século XXI”. Em resposta, Macron acusou o brasileiro de mentir quando lhe disse no G20 que estava comprometido com o Acordo de Paris.
> ‘Le Ladrón’
A posição de Macron sobre a Amazônia não foi compartilhada pela maioria dos líderes do G7, mas integrantes do governo brasileiro continuaram a atacar o presidente francês. Bolsonaro “lamentou” que um “chefe de Estado como o da França” tenha chamado o presidente brasileiro de “mentiroso”. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) tuitou vídeo gravado pelo youtuber de direita Bernardo Küster intitulado “França em Crise — Macron é um idiota!”, em que ataca o francês. No domingo, no Twitter, o ministro da educação, Abraham Weintraub, disse que Macron é um “calhorda oportunista buscando apoio do lobby agrícola francês” e o comparou ao expresidente Lula, a quem chamou de “Le Ladrón”.
> Brigitte Macron
A crise diplomática chegou ao ápice com um comentário feito por Bolsonaro no Facebook, no sábado. O presidente endossou um post de um internauta que zombava da mulher de Macron, Brigitte, 24 anos mais velha do que o líder francês, e foi criticado nas redes sociais. A imprensa francesa também repercutiu o comentário, chamando o brasileiro de sexista. Um seguidor havia publicado as fotos dos dois casais em um post, com a legenda: “Agora entende por que Macron persegue Bolsonaro?” O próprio respondeu: “Não humilha cara. Kkkkkkk.” No Twitter, a hashtag #calabocabolsonaro se espalhou.