O Estado de São Paulo, n. 46083, 19/12/2019. Política, p. A8

 

Queiroz recebeu R$ 2 milhões em 483 depósitos

Paulo Roberto Netto

Fausto Macedo

19/12/2019

 

 

 Recorte capturado

 

 

Segundo Ministério Público, 69% dos repasses foram feitos em dinheiro; Promotoria identificou 4 núcleos em organização criminosa

O ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz recebeu R$ 2.062.360,52 por meio de 483 depósitos feitos por assessores subordinados ou indicados pelo então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), conforme dados da quebra de sigilo bancário obtida pelo Ministério Público do Rio. Os valores foram transferidos por 13 servidores do gabinete do parlamentar e constam no relatório da Promotoria sobre a operação de buscas e apreensões conduzidas ontem. As informações foram divulgadas pela revista Crusoé e confirmadas pelo Estado.

O relatório do MP aponta que chegou ao valor na análise das movimentações financeiras de Queiroz após a quebra do sigilo bancário do ex-assessor, decretada em abril, que abrangeu o período de 2007 a dezembro de 2018 e atingiu também Flávio. Segundo a Promotoria, a maior parte dos valores (69%) foi repassada por depósito bancário de dinheiro em espécie, mas também foram usados transferências e depósitos de cheques.

Queiroz é identificado pelos promotores como o “arrecadador dos valores desviados da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro”. Além dos depósitos, o Ministério Público afirma que o ex-assessor parlamentar “executou uma intensa rotina de saques em sua própria conta-corrente”, chegando ao total de R$ 2,9 milhões em espécie.

Para os promotores, o predomínio de transações em dinheiro vivo na conta de Queiroz não decorre de “acidente, nem de mera coincidência”. Pelo contrário, dizem os investigadores, “essa incomum rotina de depósitos em espécie seguidos de saques também em dinheiro na mesma conta decorre de uma opção deliberada do operador financeiro”. O propósito seria “não deixar rastros no sistema financeiro” da origem e do destino dos recursos.

O Ministério Público alega ainda ter identificado outros R$ 900 mil em depósitos em espécie na conta de Queiroz “cuja procedência não foi possível precisar pelo cruzamento de valores”. A Promotoria diz que ocorreram “centenas de saques nas contas de ex-assessores” do senador que foram destinadas a operadores financeiros mediante entrega em mãos, sem passar pela conta de Queiroz.

Fantasmas. Além de arrecadar o dinheiro dos salários dos servidores de Flávio, Queiroz também indicava familiares e pessoas de sua confiança para cargos no gabinete do então deputado, diz o MP. Entre os indicados estavam a mulher de Queiroz, Márcia Oliveira de Aguiar, que atuava como cabeleireira, mas tinha cargo no gabinete de Flávio. Ela jamais retirou o crachá funcional para acessar as dependências da Alerj.

Nathália Melo de Queiroz, filha do ex-assessor, também foi nomeada para cargo na Assembleia, mesmo cursando Educação Física na Universidade Castelo Branco, a 38,7 quilômetros da Alerj e mantendo emprego em três academias de ginástica. Assim como a mãe, Nathália nunca pegou o crachá de funcionária de Flávio. A irmã dela, Evelyn Melo de Queiroz, foi nomeada enquanto exercia a profissão de manicure e pedicure – a família Queiroz integra o grupo de 12 servidores que teria recebido R$ 6,1 milhões em salários nos antigos gabinetes.

Núcleos. O MP dividiu a investigação contra Queiroz em quatro núcleos: o primeiro era voltado a indicações e manutenção de assessores em cargos na Alerj em troca de repasse de parte dos salários. O segundo seria composto por operadores financeiros responsáveis por recolher os recursos e garantir o cumprimento de carga de trabalho de funcionários fantasmas. É neste núcleo que está Queiroz.

O terceiro, conforme o MP, era formado por pessoas que concordavam em serem nomeadas como “servidores fantasmas” ou como assessores com o compromisso de garantir repasse mensal do salário. O quarto núcleo era voltado à empresa Bolsotini Chocolates e Café Ltda., de Flávio e sua mulher, que tinha atribuição de “lavar parte dos recursos desviados” por meio de depósitos e inseridos no patrimônio do então deputado como lucros superestimados da atividade empresarial.

O Estado procurou a defesa dos investigados, mas nenhuma delas se manifestou.

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Parentes de Ana Cristina sacavam até 99% do salário, diz Promotoria

Caio Sartori

Fausto Macedo

Paulo Roberto Netto

19/12/2019

 

 

Queiroz teria pedido documentos a ex-mulher de capitão do Bope, que está foragido, e tentado influenciar depoimento

Relatórios do Ministério Público do Rio da investigação contra o senador Flávio Bolsonaro afirmam que parentes de Ana Cristina Valle, ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, sacavam em espécie quase todo o valor que recebiam de salário. Dez familiares dela foram empregados no antigo gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio no período investigado.

O pai de Ana Cristina, José Candido Procópio da Silva Valle, sacou 99,7% da sua remuneração no período em que esteve lotado na Assembleia, de 2003 a 2004, diz o MP. Além dele, outros cinco parentes dela sacaram mais de 90% dos rendimentos. Apesar de viverem em Resende (RJ), os familiares da segunda mulher de Bolsonaro foram nomeados para cargos nos gabinetes da família no período em que os dois viveram em união estável, de 1998 e 2008.

Mensagens. Para promotores, mensagens entre o ex-assessor Fabrício Queiroz e Danielle Mendonça, suspeita de ser funcionária fantasma no gabinete de Flávio, comprovariam que o esquema de rachadinha era conduzido por Queiroz. O ex-assessor pede a Danielle cópias de seus contracheques e declaração de Imposto de Renda para “prestar contas”, preocupado com a “exposição” da campanha de Flávio em 2018. Ele ainda teria interferido no depoimento de Danielle, pedindo que ela faltasse.

Danielle revelaria ter ciência do esquema ilícito e que ganhou o emprego no gabinete por influência do ex-marido, o ex-capitão do Bope Adriano Magalhães de Nóbrega. Acusado de liderar milícia suspeita de ligação com o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), ele está foragido.